Lampedusa vive uma dupla identidade: destino turístico no coração do Mediterrâneo e uma das fronteiras mais sensíveis da Europa. Foto © Pedro Amaro Santos

Treze anos depois da histórica visita do Papa Francisco à ilha de Lampedusa, Leão XIV desloca-se também ele este sábado, 4 de julho, àquela que é a principal porta de entrada de migrantes em Itália. Um gesto que reforça a continuidade com o seu antecessor, quer na preocupação com o drama dos migrantes, quer na opção por colocar as periferias no centro da missão da Igreja.

Conhecida pelas águas cristalinas e pelas praias que atraem milhares de turistas todos os verões, Lampedusa vive há décadas essa dupla identidade: destino turístico no coração do Mediterrâneo e, ao mesmo tempo, uma das fronteiras mais sensíveis da Europa para quem procura atravessar o mar em busca de um futuro melhor.

De facto, a ilha situada a cerca de 130 quilómetros da Tunísia continua a ser um dos principais pontos de chegada de pessoas que fogem da guerra, da pobreza, das perseguições ou da falta de perspetivas de futuro em vários países africanos. Segundo dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), citados pela EWTN News, mais de 49.500 migrantes e refugiados desembarcaram na ilha durante 2025.

O programa da visita de Leão XIV evidencia isso mesmo. O Papa começará por rezar no memorial Porta d’Europa, voltado para a costa africana e dedicado àqueles que morreram ao tentar atravessar o Mediterrâneo. Visitará depois o cemitério onde repousam os corpos de muitos desses migrantes, e em seguida irá ao encontro de um grupo de refugiados no cais Favaloro — que será renomeado em homenagem ao Papa Francisco — antes de presidir à celebração da missa, na qual estará presente a imagem de Nossa Senhora de Porto Salvo, padroeira da ilha.

Coincidência ou não, esta visita acontece no Dia da Independência dos Estados Unidos, país natal do primeiro Papa norte-americano, e onde a política migratória tem sido marcada, nos últimos meses, pelo endurecimento das regras de entrada no país e pelo reforço das medidas de combate à imigração irregular.

Acontece também poucas semanas depois da visita de Leão XIV às Ilhas Canárias, outro dos principais pontos de chegada de migrantes à Europa. Nessa ocasião, o Papa condenou energicamente os traficantes de seres humanos, apelando ao arrependimento de quem lucra com o sofrimento dos mais vulneráveis, e defendeu “vias legais e seguras” para as migrações, bem como políticas de acolhimento e integração que respeitem a dignidade de cada pessoa.

A ilha onde Francisco lançou um dos grandes temas do seu pontificado

Foi precisamente em Lampedusa que Francisco realizou, em 8 de julho de 2013, a sua primeira viagem fora de Roma depois da eleição, escolhendo um lugar situado nas periferias da Europa para denunciar a tragédia das migrações e lançar um dos conceitos que marcariam todo o seu pontificado: a “globalização da indiferença”.

Na homilia da missa celebrada na ilha, poucos meses após mais um grande naufrágio no Mediterrâneo, Francisco explicou que sentira “o dever” de ali ir rezar e manifestar solidariedade, mas também “despertar as nossas consciências, para que não se repita o que aconteceu”.

Inspirando-se nas perguntas dirigidas por Deus a Adão e a Caim no livro do Génesis — “Adão, onde estás?” e “Onde está o teu irmão?” —, o Papa argentino afirmou que essas interrogações continuam hoje a ser dirigidas a toda a Humanidade. Perante os sucessivos naufrágios, perguntou: “Quem de nós chorou por este facto? Quem chorou pela morte destes irmãos e irmãs?”.

Francisco denunciou então uma sociedade que se habituou ao sofrimento alheio e que já não se sente responsável pelo destino dos mais vulneráveis. “Neste mundo da globalização, caímos na globalização da indiferença”, afirmou, alertando que “a cultura do bem-estar” conduz à anestesia da consciência e torna as pessoas insensíveis aos gritos dos outros.

Na mesma celebração, agradeceu também aos habitantes de Lampedusa pela solidariedade demonstrada para com os migrantes, considerando que a pequena ilha oferecia ao mundo “um exemplo de solidariedade”.

Treze anos depois, Leão XIV regressa ao mesmo lugar num contexto migratório diferente, mas em que o Mediterrâneo continua a ser uma das rotas mais mortíferas do mundo. E a escolha de Lampedusa para uma das suas primeiras viagens pastorais confirma a intenção de manter viva a atenção da Igreja às pessoas migrantes e refugiadas, uma preocupação que o Papa já manifestou nas recentes deslocações às Ilhas Canárias e nas repetidas denúncias das redes de tráfico de seres humanos.

O primeiro lugar onde muitos voltam a sentir-se seguros

Na preparação da visita papal, os meios de comunicação do Vaticano deram a conhecer o trabalho desenvolvido no centro de acolhimento de Contrada Imbriacola, gerido pela Cruz Vermelha Italiana desde junho de 2023. Mais de 182 mil migrantes passaram já por esta estrutura, onde recebem os primeiros cuidados médicos, alimentação, apoio psicológico e identificação após a travessia do Mediterrâneo.

Segundo explicou ao Vatican News o diretor do centro, Imad Dalil, muitas pessoas chegam sem sequer saber onde desembarcaram. A prioridade passa por lhes oferecer segurança e acompanhamento humano depois de viagens frequentemente marcadas por violência, exploração e sofrimento. Entre os elementos essenciais da equipa contam-se mediadores culturais, muitos deles antigos migrantes que passaram pelo próprio centro e hoje ajudam quem acaba de chegar.

Também em declarações aos meios de comunicação do Vaticano, o presidente da câmara de Lampedusa, Filippo Mannino, descreveu a ilha como uma “fortaleza de humanidade” e resumiu o espírito da comunidade numa frase simples: “Quando uma pessoa estende a mão para nós, primeiro ajudamo-la, depois vem tudo o resto.”

O autarca recorda que, apesar da melhoria da organização do acolhimento nos últimos anos, permanecem gravados na memória momentos dramáticos, como setembro de 2023, quando cerca de dez mil migrantes chegaram à ilha num único dia. Nessa ocasião, lembra, toda a população se mobilizou para distribuir alimentos, brinquedos e assistência aos recém-chegados.

Mannino espera agora que a visita do Papa seja uma bênção não apenas para quem chega a Lampedusa em busca de salvação, mas também para uma comunidade que continua diariamente a enfrentar “o peso humano e moral” de viver numa das fronteiras mais sensíveis da Europa.

Também a Guarda Costeira italiana vê na presença de Leão XIV um reconhecimento do trabalho realizado diariamente no salvamento de vidas humanas. Em entrevista ao Vatican News, o comandante Flavio Verde descreve Lampedusa como “o cais da Europa no Mediterrâneo” e sublinha que toda a atividade assenta num princípio fundamental: proteger a vida humana, sem qualquer distinção.

Ao recordar a visita de Francisco em 2013, considera que o gesto do Papa ao lançar uma coroa de flores ao mar ajudou a despertar a consciência internacional para a tragédia vivida no Mediterrâneo. A chegada de Leão XIV, acrescenta, reforçará agora essa responsabilidade de todos os que trabalham diariamente nas operações de busca e salvamento.

Um rosto para lá dos números

Entre as muitas histórias que passam por Lampedusa está a de Seck Baye Fall, hoje mediador cultural. Natural do Senegal, foi recrutado por traficantes para conduzir embarcações de migrantes, passou por prisões na Líbia e em Itália e acabou por reconstruir a vida na Sicília.

Hoje recebe no porto aqueles que chegam depois da travessia, falando-lhes na sua própria língua e procurando oferecer-lhes um primeiro gesto de proximidade. Ao mesmo tempo, alerta os jovens africanos para os perigos das rotas migratórias, insistindo que o mar não é a solução. A sua história, como tantas outras que se cruzam diariamente em Lampedusa, recorda que por detrás das estatísticas existem sempre rostos, nomes e vidas marcadas pela esperança de encontrar um futuro mais digno.

São esses rostos que Leão XIV faz questão de ir conhecer este sábado em Lampedusa. Numa ilha que continua a ser fronteira entre a esperança e a tragédia, o Papa volta a colocar no centro aqueles que tantas vezes permanecem nas periferias da atenção do mundo.

Texto redigido por Clara Raimundo/jornal 7Margens, ao abrigo da parceria com a Fátima Missionária.

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