O Papa Leão XIV nomeou esta terça-feira, 30 de junho, a irmã Alessandra Smerilli como nova prefeita do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, tornando-a a terceira mulher a liderar um dicastério da Cúria Romana e a segunda a ser escolhida por si para um cargo de prefeita.
A nomeação, anunciada através de um comunicado do próprio dicastério, entrará em vigor a 1 de setembro. A religiosa salesiana, de 51 anos, sucederá assim ao cardeal Michael Czerny, que dirige o organismo desde 2022 e completará 80 anos no próximo dia 18 de julho.
Leão XIV nomeou ainda o cardeal italiano Fabio Baggio como pró-prefeito do mesmo dicastério, com responsabilidade especial pelo Centro de Alta Formação Laudato si’, e o padre eslovaco Jozef Barlaš como secretário.
De acordo com o comunicado, estas nomeações pretendem assegurar a continuidade do trabalho desenvolvido nos últimos anos no organismo que é responsável pelas áreas da justiça social, das migrações, da saúde, da ajuda humanitária e do cuidado da criação.
Uma economista no Vaticano
Nascida em Vasto, na costa leste de Itália, a irmã Smerilli estudou Economia na Universidade Roma Tre e doutorou-se no Reino Unido, antes de se tornar professora da Universidade Pontifícia Auxilium, onde se dedicou aos temas da justiça social, da economia civil e da inclusão.
Religiosa das Filhas de Maria Auxiliadora desde 1997, entrou na estrutura da Santa Sé em 2019, quando foi nomeada conselheira do Estado da Cidade do Vaticano pelo Papa Francisco, que logo no ano seguinte, em plena pandemia, a chamou para coordenar o grupo económico da Comissão Vaticana para a Covid-19, criada para responder às consequências sociais e económicas da crise sanitária.
Foi esse trabalho que a conduziu ao Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral, onde foi nomeada subsecretária em 2021 e, poucos meses depois, secretária interina, tendo sido confirmada definitivamente no cargo em 2022.
A terceira mulher à frente de um dicastério
Depois da escolha da jornalista norte-americana Montse Alvarado para liderar o Dicastério para a Comunicação [ver 7Margens], esta é a segunda nomeação feminina para um cargo de prefeita realizada por Leão XIV. Mas Smerilli é já a terceira mulher a dirigir um dicastério, tendo em conta a nomeação da irmã Simona Brambilla para o Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, feita pelo Papa Francisco em março do ano passado.
De resto, a escolha vem precisamente confirmar a intenção, já expressa por Leão XIV, de prosseguir o caminho iniciado pelo seu antecessor no sentido de confiar às mulheres responsabilidades de governo em diferentes níveis da vida da Igreja.
A própria irmã Smerilli tem defendido publicamente esta perspetiva. Numa entrevista à Angelus News, publicada em setembro de 2024, a economista afirmava concordar com Francisco quando este recusava a ideia de que o acesso das mulheres à responsabilidade na Igreja passasse pela clericalização. “Não é necessário ser padre para participar no governo da Igreja”, afirmava então, acrescentando que mulheres e homens oferecem perspetivas diferentes e complementares sobre a realidade.
Escutar antes de agir
Esta e outra entrevista – dada em 2022 ao padre e jornalista Luis Miguel Modino – ajudam também a compreender a visão que Smerilli levou para o dicastério e que agora marcará certamente o seu mandato como prefeita.
Uma das ideias recorrentes é a da escuta das Igrejas locais e das comunidades que vivem nas periferias sociais e geográficas. Ao conversar com Modino, a então secretária do dicastério afirmou que o desenvolvimento humano integral “é realmente feito nas Igrejas locais, não aqui em Roma”, defendendo que a missão da Cúria consiste em acompanhar, apoiar e dialogar, e não em substituir as comunidades locais.
Foi nesse contexto que o dicastério reorganizou o seu funcionamento em torno de três áreas principais — Escuta e Diálogo, Reflexão e Investigação, Comunicação e Restituição — procurando traduzir institucionalmente o espírito da reforma promovida pela constituição apostólica Praedicate Evangelium.
Na mesma entrevista, Smerilli sublinhou que o objetivo era fazer do organismo “a expressão da misericórdia e do amor do Papa com as Igrejas locais e, através delas, com os pobres e os mais necessitados”.
Recorde-se que este dicastério foi criado em 2017 pelo Papa Francisco através do motu proprio Humanam progressionem, com o objetivo de promover aquilo que a Doutrina Social da Igreja designa por desenvolvimento humano integral.
Um missão com a qual estão alinhadas algumas das prioridades assumidas por Leão XIV neste início de pontificado, nomeadamente a centralidade dos pobres e das desigualdades sociais, sublinhada na exortação apostólica Dilexi te, bem como os desafios colocados pela inteligência artificial, tema da encíclica Magnifica humanitas.
E, tal como assinala o Vatican News, o dicastério participa atualmente na Comissão Interdicasterial para a Inteligência Artificial, criada este ano para acompanhar os desafios éticos, sociais e económicos associados às novas tecnologias.
“Este trabalho faz-me rezar mais”
Nas entrevistas que concedeu nos últimos anos, Smerilli foi também deixando entrever o modo como entende a missão do dicastério que agora passa a dirigir.
Falando dos “conflitos ocultos e questões esquecidas” que raramente chegam aos noticiários, a religiosa italiana explicou que uma parte importante do trabalho do organismo passa por garantir que essas populações não se sintam abandonadas e que as suas necessidades cheguem ao conhecimento da Secretaria de Estado e do Papa.
E concordando com a expressão tantas vezes utilizada por Francisco de que a Terceira Guerra Mundial já está a ser travada “aos pedaços”, Smerilli afirmou mesmo que “parece que o mundo está em chamas”, referindo-se aos conflitos armados e às disputas ligadas à exploração de recursos naturais que atingem diferentes regiões do planeta.
O contacto quotidiano com esse sofrimento teve também consequências na sua vida espiritual. “Este trabalho faz-me rezar mais”, partilhou. “Percebi que a Igreja enfrenta tantos desafios que preciso de dedicar mais tempo à oração e à meditação.” E reconheceu: “Sou apenas uma gota no oceano. É preciso confiar no Espírito Santo e em Deus e dizer: o Senhor está no controlo, eu apenas estou a ajudar.”
Talvez seja, assim, esta conjugação entre competência económica, atenção às periferias e espiritualidade salesiana que ajuda a compreender a escolha agora feita por Leão XIV para liderar um dos organismos mais diretamente ligados à presença da Igreja junto dos pobres, dos migrantes e das populações mais vulneráveis.
Texto redigido por Clara Raimundo/jornal 7Margens, ao abrigo da parceria com a Fátima Missionária.








