Foto: EPA / Sebastião Moreira

Na mensagem para o Dia Mundial dos Pobres, Leão XIV insiste naquela que tem sido uma das ideias centrais do seu pontificado: a necessidade de olhar o mundo a partir dos mais vulneráveis. “Os pobres não são uma distração para a Igreja, mas os irmãos e irmãs mais amados, porque cada um deles, com a sua existência e também com as palavras e a sabedoria de que é portador, convida-nos a tocar a verdade do Evangelho”, afirma o Papa, que aproveita o texto para denunciar novas formas de exclusão.

A mensagem, divulgada domingo, 14 de junho, para a celebração que terá lugar a 15 de novembro, retoma o tema bíblico “O Senhor é o refúgio do pobre” e apresenta um apelo às comunidades cristãs para que façam dos pobres não apenas destinatários da solidariedade, mas protagonistas da vida e da missão da Igreja.

Instituído pelo Papa Francisco em 2016, no encerramento do Jubileu da Misericórdia, o Dia Mundial dos Pobres nasceu precisamente com esse intuito: “ajudar as comunidades e cada batizado a refletir como a pobreza está no âmago do Evangelho e tomar consciência de que não poderá haver justiça nem paz social enquanto Lázaro jazer à porta da nossa casa” (cf. Lc 16, 19-21). Celebrado pela primeira vez em 2017, assinala este ano a sua décima edição [ver 7MARGENS].

Na mensagem agora publicada, Leão XIV denuncia uma sociedade onde milhões de pessoas continuam privadas não apenas dos bens necessários para viver, mas também de reconhecimento e de voz. Os pobres de hoje, escreve, são frequentemente “esquecidos e marginalizados”, reduzidos ao silêncio por sistemas económicos, sociais e culturais que favorecem os mais fortes.

Entre as preocupações destacadas pelo Papa encontra-se o impacto do ambiente digital, que considera capaz de amplificar preconceitos, difundir narrativas simplistas e alimentar uma cultura de indiferença perante os que vivem em situação de pobreza ou exclusão. A tecnologia, adverte, não pode tornar-se um instrumento que afaste ainda mais aqueles que já se encontram nas margens da sociedade.

 

Algumas perguntas às comunidades cristãs

Mas a mensagem vai além da denúncia. Leão XIV propõe uma mudança de olhar sobre a pobreza, recusando qualquer visão paternalista dos pobres como simples destinatários de ajuda. Pelo contrário, afirma que são frequentemente eles quem melhor reconhece o essencial da vida e quem pode ensinar à Igreja valores como a confiança, a solidariedade e a esperança.

E por isso lança algumas perguntas às comunidades cristãs: “Somos sinal de um Deus que é refúgio para os pobres? Temos consciência da nossa pobreza e preferimo-la à riqueza injusta? Chegamos onde se encontram os pobres, experimentando a sua marginalidade? Ouvimos os seus pensamentos e partilhamos as suas expectativas? Pronunciamos os seus nomes com ternura divina? A nossa caridade reaviva e sustenta neles o desejo de justiça e redenção?”. Para Leão XIV, a resposta a estas questões é um teste à autenticidade da missão da Igreja.

A mensagem conclui com uma referência ao oitavo centenário da morte de São Francisco de Assis, que este ano se celebra. Recordando o gesto do santo que trocou as suas roupas pelas de um mendigo para experimentar a sua condição, o Papa propõe uma Igreja capaz de abandonar qualquer posição de privilégio para caminhar ao lado dos mais pobres.

Dez anos depois da criação do Dia Mundial dos Pobres por Francisco, Leão XIV recupera assim uma das intuições centrais do seu predecessor e coloca-a no centro dos desafios atuais, como de resto já havia feito na exortação apostólica Dilexi te, e também na encíclica Magnífica Humanitas. Num tempo marcado por desigualdades persistentes, crises migratórias e novas formas de exclusão alimentadas pela tecnologia, o Papa volta a recordar que os pobres não são um tema entre muitos outros na vida da Igreja, mas um lugar privilegiado para compreender e viver o Evangelho.

Texto redigido por 7Margens, ao abrigo da parceria com a Fátima Missionária.

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