O Papa Leão XIV volta a reunir em Roma, esta sexta-feira e sábado, 26 e 27 de junho, o Colégio Cardinalício para aquele que já é o segundo consistório extraordinário do seu ainda curto pontificado. Mais do que um encontro de natureza protocolar, a reunião parece vir confirmar – e reforçar – um estilo de governação que aposta na escuta regular dos cardeais e na revalorização da colegialidade como dimensão estruturante da Igreja.
O encontro, que decorrerá no Vaticano em vésperas da solenidade dos santos Pedro e Paulo, reunirá cardeais de todo o mundo em quatro sessões de trabalho dedicadas à leitura do contexto global, aos desafios da missão evangelizadora, à construção do bem comum e ao caminho sinodal da Igreja.
Uma agenda estruturada em quatro eixos
De acordo com o calendário oficial que acaba de ser divulgado pelo Vaticano, o consistório estará organizado em torno de quatro grandes eixos de reflexão, formulados em perguntas dirigidas aos cardeais e que procuram orientar o discernimento comum.
A primeira sessão parte da questão “Em que mundo somos chamados a anunciar o Evangelho?”, procurando fazer uma leitura teológica do contexto contemporâneo, marcado por conflitos, tensões sociais e sinais de esperança nas comunidades cristãs.
A segunda sessão desloca o debate para a relação entre poder e cultura, a partir da encíclica Magnifica humanitas, com particular atenção à oposição entre a “cultura da potência” e a “civilização do amor”, bem como aos desafios da paz e da reconciliação.
No sábado de manhã, a reflexão centra-se na construção do bem comum, com especial atenção às divisões nos contextos locais, à escuta das periferias e às expectativas que emergem das comunidades às quais a Igreja é chamada a responder.
A quarta e última sessão será dedicada à implementação do processo sinodal, em vista das assembleias eclesiais previstas para 2027 e 2028, consolidando o caminho de reforma e participação iniciado nos últimos anos.
Ao longo dos dois dias, os cardeais trabalharão em grupos linguísticos, alternando intervenções breves com momentos de silêncio e oração, antes de sessões plenárias de partilha. O formato retoma a metodologia já utilizada no processo sinodal e no primeiro consistório, conhecida como “conversação no Espírito”, e procura favorecer o discernimento comum em detrimento de intervenções longas ou debates formais.
Os participantes serão divididos em dois conjuntos: um com nove grupos de cardeais eleitores ordinários (incluindo núncios e cardeais eleitores que concluíram seu serviço como ordinários) e outro com 11 grupos de cardeais eleitores da Cúria Romana e cardeais não eleitores. Cada grupo terá um presidente, encarregado de moderar os trabalhos e garantir o cumprimento dos prazos, e um secretário, responsável pela coleta das contribuições apresentadas e pela elaboração do relatório final com a colaboração de todo o grupo.
Não está prevista a presença da imprensa durante os trabalhos e, assim como já ocorreu no primeiro consistório de janeiro (e, antes mesmo disso, nas assembleias do Sínodo sobre a Sinodalidade), solicita-se aos cardeais que mantenham “confidencialidade” sobre o que ocorre na sala e que “não prestem declarações à imprensa durante o andamento do consistório”, a fim de “preservar um clima de diálogo fraterno”.
Embora a maior parte das sessões decorra à porta fechada, alguns momentos serão transmitidos em direto pelos meios de comunicação do Vaticano. A sessão de abertura de sexta-feira, com o hino Veni Creator Spiritus, o discurso inicial do Papa e a apresentação dos trabalhos, terá transmissão através dos média do Vaticano, tal como o diálogo final dos cardeais com Leão XIV no sábado ao final da tarde, seguido do Te Deum. Também a missa da solenidade dos santos Pedro e Paulo, já na segunda-feira, com a bênção dos pálios dos novos arcebispos metropolitanos, será transmitida em direto. Os restantes momentos de trabalho decorrerão sem acesso ao público, num registo de discernimento reservado.
Um método que traduz uma visão de Igreja e recupera a tradição?
A realização destes consistórios e a adoção de dinâmicas inspiradas no Sínodo sobre a Sinodalidade é lida por vários observadores como um sinal de continuidade relativamente aos processos de escuta iniciados pelo Papa Francisco.
Mais do que os temas abordados, é a realização e o espírito dos próprios encontros que tem captado a atenção dos analistas. A leitura dominante é a de que Leão XIV está a recuperar e a reforçar o papel do Colégio Cardinalício como órgão ativo de consulta e discernimento, depois de décadas em que esse papel foi sendo progressivamente substituído por estruturas mais restritas de aconselhamento pontual.
Nesse aspeto, o novo modelo acaba até por contrastar com a governação do pontificado anterior, em que era o Conselho de Cardeais – um grupo restrito conhecido como C9 – a desempenhar um papel central de aconselhamento direto ao Papa. Agora, o movimento é de abertura do processo ao conjunto do Colégio, devolvendo aos cardeais uma função mais ampla e representativa.
A agência OSV News interpreta este desenvolvimento como um sinal de reforço da dimensão colaborativa do governo da Igreja, sublinhando que a convocação regular de consistórios extraordinários aponta para um modelo em que o Colégio Cardinalício é chamado a participar de forma mais direta na leitura dos grandes desafios globais, desde os conflitos internacionais às transformações sociais e tecnológicas.
A Rome Reports, por seu lado, destaca sobretudo a dimensão espiritual e eclesial do encontro, sublinhando o carácter de escuta, oração e discernimento partilhado que estrutura os trabalhos, mais do que a sua dimensão deliberativa ou decisória.
Já o portal The Pillar enquadra o consistório numa perspetiva institucional de médio prazo, defendendo que a sua repetição regular pode vir a constituir uma das marcas estruturais do pontificado de Leão XIV, sinalizando uma governação mais previsível, consultiva e assente na convocação frequente do conjunto do Colégio Cardinalício.
A esta leitura junta-se ainda o contributo do jornalista alemão Renardo Schlegelmilch no portal Global Catholic, que interpreta a reunião regular com o Colégio Cardinalício como uma recuperação de uma tradição mais antiga da Igreja, em que os cardeais eram chamados a participar de forma mais contínua e efetiva na governação, e não apenas em momentos excecionais como o conclave, sublinhando assim uma revalorização histórica da colegialidade no exercício do governo eclesial.
Essa recuperação de uma lógica mais antiga de consulta é vista como uma tentativa de reforçar a dimensão colegial da Igreja universal, num contexto em que o Colégio Cardinalício se tornou mais global e culturalmente diverso do que em qualquer outro período da história recente.
“Devemos acompanhar o Papa mais de perto”
Esta interpretação é confirmada por testemunhos vindos do próprio interior do Colégio. Em entrevista ao jornal italiano Avvenire, o cardeal Cristóbal López Romero, arcebispo de Rabat, sublinha que os consistórios respondem a um pedido dos próprios cardeais durante o período pré-conclave: o de se conhecerem melhor e aprofundarem a comunhão entre Igrejas de diferentes continentes.
“Devemos rodear o Papa, apoiá-lo e acompanhá-lo mais de perto”, afirma o cardeal, sublinhando que a diversidade do Colégio é hoje uma riqueza que exige maior partilha e proximidade.
O mesmo prelado acrescenta que Leão XIV possui uma visão particularmente ampla da Igreja e do mundo, fruto da sua experiência missionária no Peru, da liderança da Ordem de Santo Agostinho e do trabalho no Vaticano. “Poucos cardeais no conclave tinham uma visão tão ampla”, refere.
Recorde-se que o próprio Papa anunciou, no final do primeiro consistório realizado em janeiro, que estes encontros passariam a ser uma prática regular do pontificado [ver 7MARGENS]. Segundo o cardeal Cristóbal López Romero, a intenção manifestada no seio do Colégio Cardinalício aponta para a possibilidade de, a partir de 2027, os consistórios extraordinários passarem a realizar-se anualmente, com maior duração e integrando também momentos de retiro espiritual, como forma de reforçar a dimensão de escuta e discernimento partilhado.
Num contexto marcado por conflitos internacionais, transformações tecnológicas e desafios sociais complexos, Leão XIV parece assim apostar numa forma de liderança que privilegia a escuta prolongada, a consulta alargada e a a leitura conjunta da realidade.
É certo que o consistório desta semana não deverá produzir decisões imediatas nem nomeações, mas afirma-se como um instrumento de governação progressivamente institucionalizado, no qual o discernimento partilhado entre o Papa e os cardeais ganha centralidade.
Mais do que um evento pontual, o consistório começa assim a desenhar-se como uma peça chave na arquitetura de governo de um Papa que procura ser ele próprio e, antes de mais, sinodal.
Texto redigido por Clara Raimundo/jornal 7Margens, ao abrigo da parceria com a Fátima Missionária.








