Ilustração: David Oliveira | Texto: Teresa Carvalho

Há pessoas que personificam mensagens, canções, poesias, missões… Isso mesmo acontece com uma minha amiga, a Líria.
Porque digo isto? Ora vejamos a canção que ela canta, enquanto acolhe e distribui abraços, a irradiar afeto:
“Um abraço é pouco
Dois é conta certa
Toma lá mais outro
Ora aperta, aperta!”
Este poderia mesmo ser o seu retrato: o ABRAÇO. O abraço de uma mulher que envolve quem a procura com um acolhimento tão ternurento, que nos sentimos aconchegados, sem importar o peso de tudo o que carregamos. E assim, quentinhos, fica fácil e libertador partilhar dores, sonhos, vitórias, gargalhadas por tudo ou por nada.

E depois de tudo o que se partilha, recebe-se um agradecimento caloroso, como que se de um presente grandioso se tratasse – e é mesmo valioso, nas “contas” da Líria. E que faz com o abracinho que recebe? Usa-o para desenhar um ninho protegido, onde se ensaiam outros olhares para novos horizontes e se tecem laços que libertam para o voo.

Fica um ninho com formato de encontro, em liberdade. Por isso, é que “Dois é conta certa”!
Mas, a Líria não se contenta com o “já chega” quando fica dúvida por responder: “e se for possível algo mais?” O melhor será ficar por perto! E fica por perto, com “mais outro” abracinho disponível, mantendo uma presença discreta mas que sustenta o atrevimento da esperança.
O retrato da Líria continua, até porque na canção do “Abraço”, há mais um verso por ilustrar. É assim:
“Fui à ribeira lavar
Levou-me a água o sabão
Lavei a roupa com rosas
Ficou-me o cheiro na mão”

É mesmo assim a história da Líria: Foi e bem, “à ribeira lavar”. E nessa aventura, criou novos serviços para integrar quem ficava na margem; ensinou formas de olhar e cuidar com ciência e paixão; ajudou a crescer quem iniciava percursos; protegeu tantos que estavam em perigo; impulsionou a mudança de perspetiva; inspirou e enlevou quem estava sem esperança.

Mas, como nas restantes histórias verdadeiras, na história da Líria também há estações com mais sombras e até tempestades… daquelas que “levam o sabão”. E nessas estações mais geladas, usando a coragem e determinação que constroem heróis e heroínas, ela procurou e reinventou o que a água levara. Ficou sem sabão, mas descobriu alternativa impensável: rosas!

E assim, desbravando outros universos, a Líria continua a abrilhantar, agora com rosas, que marcam com perfume o aconchego que oferece, quando abre os braços para, com toda a ternura e convicção, afirmar que “Um abraço é pouco, e dois é conta certa…”, mas podemos sempre ter abraços de sobra para partilhar, se os queremos e transformamos em laços de bem-querer.

 

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