Ilustração: David Oliveira | Texto: Graça Alves

Todas as manhãs, cruzo-me com pessoas invisíveis. Fazem parte da paisagem da rua, cumprindo papéis semelhantes aos das árvores, dos semáforos, dos prédios. Não têm nome, não chamam a atenção, são invisíveis. Ninguém dá por elas. Talvez ainda ninguém tenha percebido que quem varre a rua é uma senhora ou que o porteiro tem uns olhos tristes ou que a menina do pão tem unhas verdes. Talvez ainda ninguém tenha olhado para a beleza do rapaz das pizzas ou para as mãos de pianista do carteiro.

Toda a gente já se sentiu invisível em algum momento: numa festa, num lugar novo, numa casa de gente, num hospital. Toda a gente já quis ser invisível em algum momento…. Há gente, porém, que é invisível a vida toda. E desaprende de ser doutra maneira.

Resolvi olhar. Parar. Cumprimentar.

A varredora olhou para mim e sorriu. Não me respondeu. Fiquei com a sensação que o seu sorriso tinha sido apenas a imagem do meu, como num espelho. Senti que tinha ficado a pensar na intenção do meu ‘bom dia’, porque continuou a olhar para o chão, para as folhas que o vento desajudava a varrer.

As pessoas invisíveis hão de ter nome. E casa. E filhos. E medos. E sonhos. Exatamente como as outras, as que não têm uniforme, as que constroem as suas manhãs, as que não fazem parte da arquitetura das cidades, as que, como eu, usam as cidades para viver.

As pessoas invisíveis só ganham visibilidade quando não estão

– “Então, o seu colega?” – ou quando o que devia estar feito não está.

Amanhã pergunto-lhe as horas. Não sei se as pessoas invisíveis têm voz. Provavelmente desaprenderam de a usar em serviço.

Mas há mais. Há aqueles que são invisíveis aos nossos olhos, porque nos incomodam, porque nos fazem pensar na nossa pequenez, porque nos fazem ter vergonha de nós e das nossas queixas.

Cruzo-me todas as manhãs com gente dessa. Passo por elas como o vento passa por entre os braços das árvores. Amanhã vou olhar para elas e torná-las visíveis. Vou tentar descobrir porque nunca as vi, porque nunca as quero ver.

As pessoas são invisíveis, podem ser invisíveis. Mas são pessoas. Como eu.

 

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