A defesa da vida humana “desde a conceção até ao seu ocaso natural”, a proteção dos migrantes, a crítica ao rearmamento europeu, o combate à polarização política e a necessidade de enfrentar os abusos na Igreja marcaram na última segunda-feira, 8 de junho, as principais intervenções do Papa Leão XIV em Madrid, primeiro perante os membros do Parlamento espanhol e depois diante dos bispos do país.
Naquele que foi um dos discursos politicamente mais densos do seu pontificado, pronunciado no Congresso dos Deputados, o Papa apelou aos legisladores para que coloquem a dignidade humana no centro da ação política e advertiu contra a “cultura do descarte” de que tantas vezes falava o seu antecessor Francisco.
A intervenção teve um caráter histórico: foi a primeira vez que um Papa discursou perante as Cortes espanholas. E foi recebida com aquilo que o jornal El País considera uma rara unanimidade parlamentar, num local habitualmente marcado pela crispação política. De facto, foi no mínimo surpreendente ver, no final do discurso, todos os grupos presentes aplaudirem de pé durante sete minutos (só tendo parado de bater palmas quando Leão XIV abandonou a sala, como se pode ver no vídeo abaixo, a partir dos 56:45). De referir que os deputados do Podemos e do BNG optaram por não participar na sessão, contestando a presença do líder da Igreja Católica numa câmara de um Estado laico.
“Pode chamar-se plenamente justa uma comunidade que deixa na sombra a criança ainda não nascida, o idoso, o doente, quem sofre em silêncio ou quem depende inteiramente do cuidado dos outros?”, questionara momentos antes Leão XIV, defendendo que “toda a vida humana deve ser reconhecida e guardada desde a sua conceção até ao seu ocaso natural”.
Num país onde os debates sobre aborto e eutanásia continuam a dividir a sociedade e os partidos políticos, o Papa fez questão de sublinhar: a defesa da vida não é “uma questão parcial nem um interesse confessional”, mas antes “uma meta de civilização”.
Migrantes: é preciso olhar para as pessoas
Leão XIV abordou depois outro tema que continua longe de gerar consenso entre os políticos espanhóis: a situação dos migrantes e refugiados. O Papa pediu políticas que combinem acolhimento, integração e combate às causas que obrigam milhões de pessoas a abandonar os seus países.
“A situação dos migrantes e refugiados exige uma resposta que olhe para as pessoas”, afirmou, defendendo simultaneamente o “direito a permanecer na própria terra” e apontando as desigualdades económicas e a crise climática como fatores que alimentam os movimentos migratórios.
A referência assume particular relevância numa Espanha que continua a ser uma das principais portas de entrada na Europa para migrantes oriundos de África e surge poucos dias antes da deslocação papal às Canárias, um dos territórios mais afetados pela chegada de migrantes.
De acordo com o El País, este apelo a um “acolhimento respeitoso” e a “possibilidades reais de integração” foi interpretado como uma resposta às posições defendidas pelo Vox e ao princípio da “prioridade nacional” presente em vários acordos entre o partido de extrema-direita e o Partido Popular. Ainda assim, dirigentes de diferentes sensibilidades políticas procuraram reivindicar afinidades com a mensagem do pontífice.
No plano internacional, Leão XIV manifestou preocupação com o aumento dos gastos militares e com a crescente aposta no rearmamento por parte de vários países europeus.
“Preocupa que, em diversos lugares do mundo, e também na Europa, volte a apresentar-se o rearmamento como resposta quase inevitável perante a fragilidade do cenário internacional”, disse.
Para o Papa, “a verdadeira segurança nasce da justiça, do diálogo paciente e do respeito pelo direito internacional”, tendo advertido ainda para os riscos éticos da utilização da inteligência artificial em contextos militares.
De resto, a defesa da paz e da cooperação internacional havia já sido um dos temas abordados no encontro que o Papa manteve na manhã desta segunda-feira com o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez. Segundo o Governo espanhol, ambos partilharam preocupações comuns em matéria de migrações, paz e estabilidade internacional.
“A discrepância não implica humilhação”
Ao longo do discurso, Leão XIV insistiu repetidamente na necessidade de “desarmar” também a linguagem e combater a polarização política, defendendo que a pluralidade democrática não pode transformar-se numa “desqualificação permanente do adversário”, precisamente num lugar onde isso se tornou comum.
“A firmeza não exige desprezo; a discrepância não implica humilhação”, advertiu, num claro apelo para reduzir a agressão verbal e a polarização.
Entre os temas abordados estiveram ainda a família, apresentada como “a primeira escola de humanidade”, e a educação, onde o Papa reivindicou o direito dos pais a escolher a formação moral e religiosa dos filhos.
Leão XIV dedicou igualmente uma passagem significativa do seu discurso à liberdade religiosa e ao sigilo sacramental da confissão, cuja proteção jurídica considerou essencial para garantir a liberdade de consciência.
O El País descreveu a receção parlamentar como uma espécie de “milagre papal”, ao observar que praticamente todas as forças políticas presentes procuraram encontrar pontos de convergência com uma intervenção que abordou simultaneamente temas onde existem tantas divergências como a imigração, paz, defesa da vida, liberdade religiosa e crítica da crispação política.
Ao encerrar a intervenção, o Papa apelou a uma “renovação moral” da vida pública e afirmou que Espanha pode continuar a oferecer ao mundo a sua tradição de diálogo entre fé, razão, direito e cultura.
Aos bispos: menos estruturas, mais missão
Pouco depois, na sede da Conferência Episcopal Espanhola, Leão XIV dirigiu-se aos bispos num registo mais pastoral, mas igualmente marcado pelo desafio da renovação da Igreja.
Recorrendo à imagem de uma peregrinação inspirada no Caminho de Santiago, o Papa pediu à Igreja espanhola que saiba distinguir entre o que deve ser preservado e aquilo que precisa de ser abandonado.
“Devemos deixar estruturas que não ajudam, não respondem ou até nos afastam do nosso fim”, afirmou, advertindo contra a tentação de permanecer preso a modelos do passado.
Ao mesmo tempo, elogiou o vasto património cristão espanhol, considerando-o um “tesouro” que continua a oferecer oportunidades de evangelização mesmo numa sociedade cada vez mais secularizada.
O Papa incentivou também os bispos a desenvolverem novos modos de presença e anúncio, capazes de dialogar com uma sociedade plural e multicultural, recorrendo a “novas linguagens” e favorecendo a corresponsabilidade dos leigos na missão da Igreja.
Tal como acontecera no Parlamento, Leão XIV mostrou-se preocupado com as divisões e polarizações. Desta vez, porém, dirigiu o alerta à própria Igreja.
“Em tempos de polarizações e contraposições cada vez mais duras, a Igreja deve oferecer um testemunho de unidade na pluralidade”, frisou.
O Papa pediu aos bispos que sejam promotores da comunhão, capazes de integrar diferentes sensibilidades e carismas, favorecendo o diálogo e a reconciliação dentro das comunidades eclesiais.
Abordou igualmente a crise vocacional, insistindo que a pastoral das vocações não pode reduzir-se a uma questão de números, mas deve nascer de comunidades cristãs vivas, famílias capazes de testemunhar a fidelidade e sacerdotes felizes no seu ministério.
E retomou uma preocupação já presente no pontificado de Francisco, defendendo uma reorganização dos seminários. “A conservação de estruturas não pode prevalecer sobre o bem da vocação”, afirmou, insistindo na necessidade de garantir aos seminaristas uma formação sólida e exigente.
Abusos: “verdade, justiça e reparação”
Recordando que a “viagem” dos bispos “é feita de encontros, nos quais não faltarão aqueles que vivem momentos de escuridão e nos pedem que nos tornemos samaritanos para eles”, o Papa afirmou que “um dos encontros mais dolorosos é com aqueles que foram feridos precisamente por quem os devia cuidar”.
Perante esta realidade, pediu à Igreja uma resposta baseada na “escuta, verdade, justiça, reparação e um compromisso cada vez mais decidido na prevenção e na cultura do cuidado”.
Segundo o El País, esta foi uma das passagens mais relevantes do encontro, por representar uma tomada de posição particularmente clara sobre a realidade espanhola. O jornal observou que Leão XIV utilizou uma linguagem mais direta do que a empregue por Francisco em relação à forma como a Igreja espanhola tem enfrentado a crise dos abusos.
A intervenção ganhou ainda maior significado por anteceder o encontro privado que o Papa teve com vítimas de abusos.
Esse encontro começou às 16h00, na Nunciatura Apostólica em Madrid, e prolongou-se durante quase uma hora. Segundo a revista espanhola Vida Nueva, participaram seis vítimas de abusos cometidos por membros do clero e da Igreja em Espanha, acompanhadas por técnicos envolvidos no apoio às vítimas. Durante a conversa, cada uma delas partilhou a sua experiência e apresentou propostas concretas para melhorar a resposta da Igreja perante estes casos.
O grupo está ligado ao Projeto Repara, uma iniciativa da arquidiocese de Madrid criada em 2021 para oferecer apoio integral às vítimas de abuso e para prevenir tais comportamentos dentro da Igreja e da sociedade. O nome do projeto é um acrónimo de quatro pilares essenciais: Reconhecimento, Prevenção, Apoio e Reparação.
De acordo com a mesma fonte, Leão XIV escutou os participantes “com carinho e atenção”, assegurando-lhes a sua proximidade e a de toda a comunidade eclesial. O Papa comprometeu-se ainda a que as sugestões recebidas sirvam de base para futuros passos da Igreja no campo da prevenção, do acompanhamento das vítimas e da reparação dos danos causados.
O Vaticano sublinhou posteriormente que o objetivo é fazer da Igreja “um lugar verdadeiramente seguro e espiritualmente saudável, onde as feridas encontrem consolo e cura”. O encontro deu assim expressão concreta ao apelo à “verdade, justiça e reparação” que o Papa havia dirigido poucas horas antes aos bispos espanhóis.
Nas duas intervenções desta segunda-feira, Leão XIV apresentou uma visão coerente para a sociedade e para a Igreja: uma cultura centrada na dignidade humana, no diálogo, na proteção dos mais vulneráveis e na reconstrução de laços de comunhão num tempo marcado pela fragmentação, pela secularização e pela polarização crescente.
exto redigido por Clara Raimundo/jornal 7Margens, ao abrigo da parceria com a Fátima Missionária.








