Mulher segura o terço durante Eucaristia no Texas. Calcula-se que existam entre 60 e 70 milhões de católicos nos Estados Unidos | Foto: Lusa

PERGUNTAS & RESPOSTAS

Donald Trump e Leão XIV entraram em choque numa troca de palavras sobre o Irão. A visão do mundo do presidente americano é muito diferente da do Papa americano, e não só na política externa, como também em temas como a imigração. O catolicismo há muito que passou a ser parte da realidade dos Estados Unidos, e entre 60 e 70 milhões de americanos seguem a Igreja que escolheu Robert Prevost, um natural de Chicago, para chefe

Quantos são os católicos nos Estados Unidos da América (EUA) atualmente?
Calcula-se que serão entre 60 e 70 milhões, cerca de 20 por cento da população. A imigração da América Latina tem vindo a reforçar esse número nos últimos anos.

Quais as origens dos católicos americanos?
Tradicionalmente, os católicos americanos têm raízes irlandesas ou italianas, e também alemãs. Mas há muita diversidade. Por exemplo, a comunidade luso-americana é também católica. E não esquecer os chamados hispânicos, que incluem mexicanos, dominicanos, porto-riquenhos e outros.

Concentram-se mais em algumas regiões dos EUA?
Alguns estados da chamada Nova Inglaterra, como o Massachussets e Rhode Island, têm grande percentagem de católicos, acima dos 40 por cento. Também Nova Iorque e Nova Jérsia têm numerosas comunidades católicas. No Texas e na Califórnia também há zonas de grande concentração de católicos, neste caso muito por causa da população de origem mexicana.

Dos 45 presidentes dos EUA, só dois eram católicos, John Kennedy e Joe Biden. Como se explica?
Tem muito que ver com a própria origem dos EUA. Os colonos que chegaram no início do século XVII vinham especialmente da Inglaterra, que se tinha tornado Anglicana, cortando com Roma. Aliás, muitos desses colonos, os chamados puritanos, até eram fugitivos da perseguição da Igreja Anglicana, que criticavam por a considerarem ainda muito seguidora da tradição católica. Assim, o povoamento das 13 colónias inglesas que em 1776 declararam a independência foi sobretudo por protestantes, e muito avessos à Igreja Católica. Dos 56 subscritores da Declaração de Independência só um era católico, o que também revela que as elites que fundaram o novo país eram essencialmente protestantes. Mesmo com a imigração de populações católicas, foi lenta a sua integração na política nacional. Foi preciso esperar por 1928 para Al Smith surgir como o primeiro católico apoiado por um dos dois grandes partidos como candidato presidencial.

Como correu essa candidatura?
Smith, de famílias irlandesas e italianas, era um político de sucesso no estado de Nova Iorque, e chegou a ser governador. Mas quando se apresentou a nível nacional, foi muito atacado por ser católico. Acusaram-no de ser mais leal ao Papa do que aos EUA, e que, caso fosse eleito, construiria um túnel a ligar a Casa Branca ao Vaticano. Para reforçar a acusação, os seus detratores publicaram essa acusação junto de uma foto de Smith a inaugurar um túnel a ligar Manhattan e Nova Jérsia. Smith, do Partido Democrata, foi derrotado pelo republicano Herbert Hoover, quase 60 por cento dos votos contra 40 por cento.

Kennedy foi bem-sucedido porquê?
O democrata Kennedy foi eleito em 1960 por pequena margem sobre o vice-presidente Richard Nixon. Mas eram já outros tempos. Mesmo assim, o catolicismo do candidato democrata foi atacado, valendo-lhe o apelo político e ser oriundo de uma família das elites do Massachusetts, embora de origem irlandesa.

A vitória de Joe Biden em 2020 foi finalmente a normalidade para os candidatos presidenciais católicos?
Sim. Mas já em 2004 outro candidato democrata e católico, John Kerry, casado com uma portuguesa, fez campanha sem sofrer demasiados ataques por causa da sua fé. Perdeu para George W. Bush, o presidente republicano reeleito num momento de grande popularidade pela sua reação ao ataque terrorista do 11 de Setembro.

Em termos de Congresso, os católicos estão bem representados?
Sim, até acima do seu peso na população. São 28 por cento dos membros da Câmara de Representantes e 24 por cento dos senadores. Em ambos os casos, ligeiramente mais democratas do que republicanos.

Nas presidenciais de 2024 como votaram os católicos?
Uma maioria de católicos votou no republicano Trump, preferindo-o à candidata democrata, Kamala Harris, vice-presidente de Biden. Em 2020, houve mais católicos a votar em Biden do que em Trump. Mas em 2016, Trump, quando derrotou Hillary Clinton, obteve mais votos católicos do que a rival.

No Supremo Tribunal, que interpreta a Constituição e define muito o que são os EUA, há juízes católicos?
Sim, surpreendentemente seis em nove, o que contraria a tradição de domínio dos juízes protestantes (mais de 90 em 116, em dois séculos e meio). Mesmo o único juiz negro é católico, apesar de o catolicismo ser claramente minoritário entre a comunidade afro-americana. Uma visão católica da sociedade tende a refletir-se nas decisões, mesmo que os juízes não votem em bloco, e mais importante seja existir uma maioria de conservadores, em regra nomeados por presidentes republicanos. Um exemplo é a questão do aborto, que em 2022 passou a ser uma decisão de cada Estado e não um direito constitucional a nível federal.

Quantos cardeais têm os EUA?
Eram dez, incluindo Robert Prevost, os cardeais americanos no conclave que em 2025, após a morte de Francisco, elegeu o novo Papa. Prevost tornou-se Leão XIV. Há mais sete cardeais americanos, mas que por terem mais de 80 anos não integraram o colégio de eleitores. Só a Itália tem mais cardeais do que os EUA.

Onde nasceu Leão XIV?
Prevost, hoje Leão XIV, nasceu em Chicago, Illinois, em 1955. A família tem ascendência francesa, italiana e espanhola. Numa recente entrevista, a jornalista americana Elise Ann Allen, sua biógrafa, afirmou: “Robert Prevost era uma criança normal no South Side de Chicago naquela época. Cresceu numa família muito religiosa, frequentando escolas católicas e rezando o terço após o jantar. A sua família era muito envolvida na vida paroquial. Fazia as coisas normais que um menino fazia naquele tempo: brincava com os amigos, nadava e estudava. Mas havia sempre algo que o atraía para Deus, algo dentro dele que o impelia para a vida espiritual, tanto que brincava às missas em criança, entrou para o seminário menor muito novo e até sonhava vir a ser missionário. Os seus vizinhos descreviam-no como um jovem especial, e alguns até previram que seria o primeiro papa americano!” O Papa tem uma grande ligação ao Peru, onde foi bispo, e possui também cidadania peruana.

Foi uma surpresa um Papa dos Estados Unidos?
Para quem está de fora, talvez sim. Mas foi Francisco quem fez Prevost cardeal e o chamou para trabalhar no Vaticano. A eleição, logo no segundo dia do Conclave na Capela Sistina, mostra que foi muito consensual a sua escolha. Além disso, a Igreja Católica cada vez mais é global e hoje há uma maioria de cardeais de fora da Europa. O próprio Francisco era americano, no sentido mais amplo, pois era argentino.

Houve recentemente uma troca de palavras, áspera, entre Leão XIV e Trump. O que se passou?
O Papa tem feito insistentes apelos à paz, e o presidente americano, vendo isso como uma crítica à sua atuação, sobretudo no que diz respeito à guerra contra o Irão, fez muitas críticas impensadas a Leão XIV, ao ponto de dizer que o seu compatriota que chefia a Igreja não está a fazer um bom trabalho. O Papa reagiu dizendo que continuará a falar, que a sua mensagem é a do Evangelho, e que não tem medo da administração Trump. Num segundo momento, Trump disse não ter nada contra o Papa, que este pode dizer o que quiser mas ele também, e relembrou que um dos irmãos de Leão XIV até pertence ao movimento MAGA, de apoio às suas políticas. A biógrafa Elise Ann Allen, na tal entrevista, feita antes da polémica e sabendo de divergências profundas como a posição sobre a imigração, disse o seguinte sobre a relação entre o Papa de Chicago e o presidente nascido em Nova Iorque: “muitos americanos, e até mesmo pessoas de outros países, estão curiosos para saber como irá interagir com Donald Trump. O Papa Leão XIV já deixou claro que têm visões muito diferentes sobre a imigração, mas isso não é novidade e já era de esperar. Os ensinamentos da Igreja Católica, e especificamente a sua doutrina social, não estão facilmente alinhados com muitas políticas do governo dos EUA. O que é inevitável é que haverá divergências entre o Papa Leão XIV e Donald Trump, mas Leão XIV também deixou claro, inclusive na nossa conversa, que não tem qualquer intenção de entrar em conflito. É alguém que deseja dialogar e que manterá sempre essa porta aberta. Defenderá a posição e os ensinamentos da Igreja, mas comunicará esta mensagem de forma respeitosa, procurando o envolvimento e o diálogo, e não de forma crítica ou que cause alienação”.

Trump é protestante. Há católicos no seu círculo de próximos?
Sim, tanto na administração como na família. O vice-presidente JD Vance é um católico convertido já adulto e o secretário de Estado, Marco Rubio, filho de cubanos, também é católico. A primeira-dama Melania Trump, eslovena de nascimento, é também católica, e visitou juntamente com Trump o Papa Francisco.

Que Papas visitaram os EUA?
Paulo VI, em 1965, foi o primeiro. Depois, João Paulo II, Bento XVI e Francisco.

Alguma curiosidade sobre os luso-americanos e o catolicismo em terras americanas que mereça ser lembrada?
Sim. O açoriano Humberto Sousa Medeiros, que emigrou para os EUA ainda adolescente, foi cardeal
de Boston.

Texto: Leonídio Paulo Ferreira, jornalista do DN

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