Vladimir Putin lidera o país mais extenso do mundo, a Rússia. Xi Jinping é presidente do país tradicionalmente mais populoso, a China (apesar de em 2023 a Índia tê-la ultrapassado em número de habitantes). Donald Trump está à frente do país mais rico e também o militarmente mais forte, os Estados Unidos da América (EUA), supremacia que dura desde pelo menos a Primeira Guerra Mundial e que foi reforçada no pós-Segunda Guerra Mundial. A relação entre estes três homens, e a competição ou cooperação entre os países que lideram, é decisiva para a estabilidade do planeta e uma certa ordem internacional. Até porque se a Rússia não se compara em termos de poder à União Soviética, que se desagregou em 1991, a recente ascensão chinesa põe em causa o estatuto de superpotência única que os EUA detêm desde o fim da Guerra Fria.

Curiosamente, Xi Jinping assumiu nos últimos tempos uma certa proeminência neste triângulo: tanto o americano Trump como o russo Putin estiveram de visita oficial a Pequim em meados de maio, cada qual a comparar depois o nível de protocolo que lhe foi oferecido pelo presidente chinês. Com os russos envolvidos desde 2022 numa guerra de desgaste com a Ucrânia, e os EUA desde 28 de fevereiro deste ano num conflito inconclusivo com o Irão, a China surge aos olhos de boa parte do mundo como uma potência razoável, amiga da paz. Isto mesmo que ameace regularmente anexar Taiwan pela força, o que traria uma turbulência gravíssima, pois possivelmente envolveria americanos e até japoneses em defesa da ilha rebelde, uma guerra a envolver várias das principais economias mundiais.

Trump, que fez 80 anos em junho, é o mais velho dos três líderes. Mas é igualmente o menos experiente. Se somarmos os quatro anos do primeiro mandato ao ano e meio deste segundo mandato, são apenas cinco anos e meio ao comando dos EUA. E com uma interrupção de quatro anos, resultado de o seu país ser uma democracia, onde o voto realmente conta. Putin, por seu lado, está no poder há 26 anos, e mesmo nos quatro anos em que formalmente foi primeiro-ministro (2008-2012), para respeitar a Constituição, nunca deixou de ser o homem forte do país, pondo e dispondo e sempre com um eleitorado dócil a apoiá-lo. Já Xi, secretário-geral do Partido Comunista desde 2012 e presidente chinês desde 2013, vai a caminho de década e meia de controlo absoluto. Não por acaso, é descrito como o líder chinês mais poderoso desde Mao Tsé-tung, fundador da República Popular da China em 1949.

Trump foi eleito com a promessa de tornar a América grande de novo. Isso tem levado a algumas alterações de política externa, como o tentar convencer a Ucrânia a fazer a paz com a Rússia, e relançando o diálogo entre Washington e Moscovo. A pressão sobre os parceiros europeus da NATO para investir cinco por cento do PIB em defesa acontece paralelamente a uma desvalorização em termos verbais dos laços transatlânticos, o que agrada à Rússia. No Médio Oriente decidiu pôr fim às ambições nucleares do Irão. Em relação à China, a ameaça de aplicação de tarifas cria tensão numa relação que oscila entre a competição dura e a rivalidade aberta.

Já Putin tem como prioridade ultrapassar o isolamento internacional que se seguiu à invasão da Ucrânia, condenada nas Nações Unidas e que levou a sanções económicas. A rutura com os EUA e com os países da União Europeia teve consequências económicas e levou a uma ainda maior aproximação de Moscovo a Pequim, mas numa condição de parceiro júnior. O ataque americano ao Irão desviou um pouco as atenções da guerra no leste europeu e também trouxe uma momentânea alta do preço do barril do petróleo que beneficiou a Rússia, grande exportador.

Xi observa com muita atenção o desgaste de Putin na Ucrânia e de Trump no Médio Oriente. Há sempre impacto negativo na economia mundial quando se dão guerras e isso afeta uma China que precisa de continuar a ter taxas de crescimento económico de pelo menos cinco por cento para atenuar o fosso com os EUA. Para o regime chinês, de partido único mas já só formalmente comunista, a legitimidade aos olhos da população advém hoje da capacidade de continuar a melhorar as condições de vida e de combater a corrupção. A questão da reunificação com Taiwan, ilha onde se refugiaram em 1949 os nacionalistas de Chiang Kai-shek derrotados na guerra civil chinesa, é vital para o legado de Xi, mas não ao ponto de arriscar uma ação militar mal calculada que podia acabar num desastre político. A esperança de Pequim é ver Washington acalmar o ímpeto independentista dos atuais governantes de Taiwan, que formalmente se chama ainda República da China. Principal fabricante mundial de chips, Taiwan valerá muito para a China, mas não se uma guerra a deixar em ruínas.

Uma das diferenças vitais entre Trump, Putin e Xi é que uma eventual derrota militar pode ser politicamente complicada para o americano, mas arrisca ser fatal nos casos russo e chinês. O sistema americano no passado mostrou ser capaz de resistir a derrotas, como no Vietname, e mesmo que nas eleições seguintes os americanos escolhessem outro presidente é essa a lógica. Mas uma derrota na Ucrânia para Putin seria provavelmente o seu ocaso, e no caso de Xi uma tentativa de anexação mal calculada de Taiwan teria também consequências sérias em termos de prestígio e de continuidade no poder.

Pelo território, e pelo arsenal nuclear, a Rússia continua a ser uma grande potência, mas com óbvios limites de influência. A China, com mais de 1400 milhões de habitantes, segunda economia mundial e com as segundas maiores forças armadas, continua em ascensão. Já os EUA, pela economia, pelos meios militares, mas também pela força da cultura (de Hollywood a Harvard e ao MIT), mantêm-se o país mais poderoso e lutam para defender a sua posição. A ação de Trump tem que ver com esse objetivo, mesmo quando não parece evidente, mas pensemos na captura do presidente venezuelano Nicolas Maduro ou no ataque às instalações nucleares iranianas.

Há outras potências, desde a União Europeia à Índia, do Japão ao Brasil, mas os seus líderes não têm peso para se imporem a Trump, Xi e Putin. Contudo, um outro líder mundial, Leão XIV, já mostrou que as suas palavras são tidas muito em conta pelos poderosos do mundo. O Papa, americano, já teve trocas ásperas de palavras com Trump, mantendo a sua defesa da paz ou, por exemplo, evocando os direitos dos imigrantes mesmo quando desagradou ao presidente. Com 25 por cento de católicos nos EUA, Trump, que é protestante, terá sempre de lidar com Leão XIV de uma forma diferente de Putin ou Xi, pois estes lideram países onde os católicos são pequenas minorias. Com o presidente russo, a relação é entre o chefe máximo da Igreja Católica e o líder do maior país do cristianismo ortodoxo. Logo após a sua eleição, em maio de 2025, Leão XIV recebeu as felicitações de Putin e depois disso ambos já falaram ao telefone, com o Papa a pedir ao presidente russo para dar passos no sentido da paz na Ucrânia. Entre Xi e Leão XIV o diálogo é ainda mais complexo, pois a Santa Sé e a China não têm relações diplomáticas. Desde a época de Francisco, há um acordo sobre a nomeação de bispos para tentar evitar duas igrejas concorrentes, uma leal ao Papa e a outra ao Partido Comunista, mas tem de ser renovado regularmente e há muita desconfiança num país oficialmente ateu e cujo fundamento cultural tradicional são as religiões tradicionais chinesas e o budismo.

Trump, Xi e Putin lideram dois mil milhões de pessoas (um quarto da humanidade), mas têm influência sobre o destino de muitos mais, até pelos imensos arsenais nucleares que controlam (sobretudo o americano e o russo). O magnata, o ex-espião e o funcionário têm obrigação de se entender. E têm de saber conciliar os seus interesses concorrentes: um quer fazer a América grande de novo, o outro quer que a Rússia seja de novo vista como uma grande potência, e o terceiro quer que a China volte a ser o centro do mundo.

Texto: Leonídio Paulo Ferreira, jornalista do DN

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