Treze anos depois, um Papa volta a esta ilha italiana onde, desde há anos, chegam vivos e mortos dezenas de milhares de migrantes na esperança de encontrarem uma porta para a Europa. Primeiro Francisco, agora Leão. Hoje como ontem o mesmo drama. Foto © Vatican Media, via Agência Ecclesia.

“Não há amor a Deus sem amor ao próximo, e não há próximo se eu não me aproximar. Parar, comover-se, inclinar-se, chorar diante da dor do outro — como Jesus fez — significa entrar na dinâmica do amor, o próprio movimento no qual Deus se revelou”, disse Leão XIV na homilia da missa que celebrou ao fim da manhã de sábado, 4 de julho, num campo de futebol, em Lampedusa. Treze anos depois, um Papa volta a esta ilha italiana onde, desde há anos, chegam vivos e mortos dezenas de milhares de migrantes na esperança de encontrarem uma porta para a Europa. Primeiro Francisco, agora Leão. Hoje como ontem o mesmo drama.

Não por acaso, quando, ao início da manhã de sábado, o Papa descia do seu avião para ir ao cemitério onde estão sepultados imigrantes, incluindo crianças, que morreram tentando chegar à ilha, a Guarda Costeira italiana informou que 17 migrantes tinham conseguido chegar de barco à ilha nessa madrugada. Ajoelhando-se diante de um dos túmulos, Leão XIV depositou uma coroa de flores. Em memória também das 1.397 pessoas que morreram ou desapareceram no Mediterrâneo durante o primeiro semestre deste ano.

“Este é um lugar onde os gestos falam mais do que as palavras”, disse o Papa diante da Porta da Europa, um monumento de quase cinco metros de altura no extremo sul da ilha, dedicado àqueles que morreram atravessando o Mediterrâneo, e que Leão XIV visitou depois de ter cumprimentou vários migrantes no meio de ventos fortes que, em dado momento, fizeram voar da sua cabeça o solidéu branco.

O fluxo migratório em direção a Lampedusa tem vindo a abrandar nos dois últimos anos, sem comparação com os quase 100 mil migrantes que, segundo a Cruz Vermelha italiana, chegaram à ilha num período de 10 meses entre 2023 e 2024. Contudo, os naufrágios e as mortes não se reduziram na mesma proporção porque as embarcações disponibilizadas pelos traficantes são cada vez mais frágeis. No primeiro semestre deste ano, cerca de 14.000 migrantes chegaram às costas italianas, mais de metade dos quais a Lampedusa, uma pequena ilha de área de apenas 20 Km2 situada a 130 km da costa tunisina.

Foi precisamente em Lampedusa que Francisco realizou há 13 anos, em 8 de julho de 2013, a sua primeira viagem fora de Roma depois da eleição, escolhendo um lugar situado nas periferias da Europa para denunciar a tragédia das migrações e lançar um dos conceitos que marcariam todo o seu pontificado: a “globalização da indiferença”. Na homilia da missa celebrada na ilha, poucos meses após mais um grande naufrágio no Mediterrâneo, Francisco explicou que sentira “o dever” de ali ir rezar e manifestar solidariedade, mas também para “despertar as nossas consciências, para que não se repita o que aconteceu”.

Reconhecendo o significado e a importância dessa iniciativa de Francisco, o porto da ilha – o Cais Favarolo – foi agora redenominado Porto Papa Francisco. Ao descerrar a placa que renomeia o porto, disse Leão XIV: “Este é um sinal do vínculo que o meu antecessor estabeleceu com a vossa comunidade e com os nossos irmãos e irmãs migrantes: o Papa esteve perto de vocês durante esse período tão desafiante. E hoje estou aqui para dizer que o Papa continua a acompanhá-los, a apoiá-los e a encorajá-los.”

Há quem escolha não ser próximo

“A parábola do Bom Samaritano que acabamos de ouvir – afirmou o Papa durante a homília da missa celebrada diante de mais de 4.000 pessoas –, diz-nos que o amor está sempre enraizado na liberdade, e a liberdade reside nas decisões que tomamos. Há aqueles que escolhem não ser próximos e aqueles que escolhem não tomar nenhuma decisão. Aqueles que perderam a vida neste mar são vítimas tanto de decisões que foram tomadas quanto de decisões que não foram tomadas.”

E, apoiando-se na leitura, explicitou alguns dos “ecos atuais da pressa em ‘passar ao largo’ tal como na narrativa do Evangelho: a indiferença perante o bem comum e a corrupção nos países de origem; um sistema económico global que gera pobreza e exclusão; o medo que alimenta o preconceito e o desprezo; a crença de que tais problemas não nos dizem respeito; os cálculos criminosos daqueles que lucram com o sofrimento alheio; a transição lenta e difícil da mera gestão de emergência para o desenvolvimento de políticas abrangentes e compartilhadas.”

Criticando os muros que alguns querem erguer entre pessoas em função da pele, da origem e da religião, o Papa deixou em Lampedusa, o lugar mais ao Sul da Europa, uma mensagem muito clara: “É hora de reconhecer e afirmar que a pertença religiosa nunca se deve tornar motivo de discriminação, como se a fé tivesse fronteiras em vez de ser um chamamento universal à salvação. Não há amor a Deus sem amor ao próximo, e não há próximo se eu não me aproximar. Parar, comover-se, inclinar-se, chorar diante da dor do outro — como Jesus fez — significa entrar na dinâmica do amor, o próprio movimento no qual Deus se revelou.”

A parábola do Bom Samaritano “descreve uma história que continua a falar connosco”, afirmou Leão XIV, referindo a experiência dos habitantes da pequena ilha: “Aqui, vocês viram não apenas um, mas milhares de seres humanos caídos nas mãos de ladrões que lhes tiraram tudo, espancaram-nos brutalmente e foram-se embora, deixando-os semimortos.”

Já no início da homília, lembrara que “Deus sempre nos ama primeiro” e que “a beleza do mar, desta ilha e dos vossos rostos é um reflexo da sua iniciativa gratuita: o amor precede-nos, cerca-nos e une-nos” e, por isso, concluiu: “Agradeço ao Senhor pela oportunidade de vos visitar, seguindo os passos do Papa Francisco.”

Entre os que escutavam o Papa Leão, não estavam apenas habitantes de Lampedusa. O OSVNews falou com o padre Mikolaj Dobosz que dedicou os últimos anos a acolher na sua paróquia mães e crianças refugiadas da Ucrânia e que viajou de Varsóvia (Polónia) para estar presente na missa, porque “aquele era um momento importante para rezar com o Papa pelos migrantes e pelas pessoas que sofrem”. “Na Polónia, trabalhamos muito com migrantes — não da África ou do Médio Oriente, mas principalmente da Ucrânia. Trabalho com crianças da Ucrânia e fico muito feliz por rezar com o Papa pelas pessoas que estão sofrendo”, disse o padre Dobosz.

EUA, imigrantes e aborto

Antes de celebrar missa em Lampedusa, Leão XIV falou às autoridades civis e religiosas locais, afirmando que: “não viera para discursar, mas para celebrar a Eucaristia: o sinal supremo de Jesus Cristo entre nós.” Contudo, não deixaria de pedir à Europa para desenvolver “um plano estratégico de longo prazo capaz de acolher, proteger, apoiar e integrar migrantes, ao mesmo tempo que auxilia países em desenvolvimento para que ninguém seja forçado a emigrar”.

O dever de acolhimento dos imigrantes fez também parte da mensagem-vídeo com que o Papa se fez presente (em direto) no National Constitution Center, em Filadélfia, ontem, 3 de julho, durante as comemorações dos 250 anos da declaração da independência das 13 colónias americanas, ato fundador da sua separação do império britânico e da constituição daquilo que viriam a ser os Estados Unidos da América.

O primeiro Papa nascido nos Estados Unidos — natural dos subúrbios de Chicago — falava a partir do Vaticano durante a homenagem que lhe foi prestada, simbolizada pela concessão da Medalha da Liberdade, em reconhecimento do seu trabalho em prol da liberdade religiosa e da liberdade de consciência. Esta é uma cerimónia que decorre todos os anos em Filadélfia no dia anterior ao Dia da Independência (4 de julho). No seu discurso, Leão reconheceu as suas raízes “como filho deste grande país”, país que incitou a retomar aos seus ideais fundadores, nomeadamente a liberdade. Liberdade que implica – disse o Papa – a proteção da vida humana, o acolhimento dos imigrantes e o apoio à liberdade religiosa e à cooperação inter-religiosa.

Na ocasião, referiu também que o direito à vida foi o primeiro a ser consagrado pelos fundadores dos Estados Unidos e deve continuar a ser cultivado hoje, porque o respeito pelo dom da vida, concedido por Deus, é o que “toca o coração das pessoas e inspira leis que reconhecem e protegem esse dom, desde a conceção até à morte natural”.

As declarações do Papa surgem quatro anos depois do supremo tribunal dos EUA ter revertido a anterior decisão do caso Roe v. Wade, pondo termo ao direito constitucional ao aborto e devolvendo a questão aos Estados. Atualmente, o aborto é proibido em 13 Estados e continua a ser objeto de um intenso debate político e moral.

Texto redigido por Jorge Wemans/jornal 7Margens, ao abrigo da parceria com a Fátima Missionária.

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