Ilustração: David Oliveira | Texto: Teresa Carvalho

O sonho maior de Lucília era ser mãe. Desde pequenina sentia uma atração especial por tudo aquilo que pudesse embalar, cuidar, proteger. Era assim desde a creche, até às brincadeiras de menina.
Com Carlos, Lucília desenhou em conjunto um projeto lindo que que passou a congregar os sonhos e esforços de ambos.

O tempo passou. Nem os múltiplos testes, os maiores especialistas ou mesmo o recurso às técnicas mais avançadas da medicina, lhes davam uma resposta explicativa sobre a razão do fracasso na concretização do sonho de ambos.

Rendidos, Lucília e Carlos reformularam o seu projeto a dois e tornaram-se candidatos à adoção. A esperança renascia, apesar de saberem que a espera poderia ser longa. Talvez fosse essa a sua missão: acolher, cuidar e amar uma criança nascida num contexto que não foi capaz de a proteger…

Contudo, a nova espera associada à incerteza de concretização da adoção, estava a ser excessiva para ambos. E esperar simplesmente, contrariava a forma de um e outro estarem na vida: se havia necessidade de reajustarem o projeto de família, fá-lo-iam.

Foi então que, numa campanha de rua, Lucília recebeu um panfleto informativo sobre uma associação de apoio a mães jovens em situação de desproteção, e aos seus bebés. Ali, a missão é cuidar de jovens mães desde a gravidez, garantir-lhes um espaço de acolhimento protegido, onde lhes é permitido dar continuidade aos estudos ou iniciarem o seu projeto de autonomia, orientá-las nos princípios básicos da maternidade, e garantir-lhes as condições para que possam construir com os filhos e filhas, uma ligação de cuidados e de amor sem medida.

Lucília, de impulso, estava a candidatar-se para voluntária.

Ao anunciar essa decisão a Carlos, as dúvidas foram muitas: não iria massacrar-se? Poderia ajudar aquelas jovens, ou viveria uma relação de ciúme e revolta pelo seu próprio fracasso?

Mesmo assim, Lucília sentia: a sua vocação maternal sobreponha-se a todas estas questões. Poderia, sim, ajudar outras mães a realizar o sonho que embalassem, tornando-o também seu.

Pouco depois, Lucília estava já a organizar a loja social da associação, preparando roupinhas, recolhendo alcofas e berços, promovendo nas redes sociais a partilha dos bens em falta. E em troca, recebia a felicidade das mães agradecidas e a luz das crianças, cuidadas também com os seus esforços.

Lucília, aos poucos, sentia-se Mãe. Mãe das crianças e mãe das mães. Sentia o seu coração Maior. Já não pensava numa criança para si. Pensava nas crianças que vinham e iam ao colo das mães, e que quando lhes estendia os braços, saltavam do colo em que estavam para aconchegar-se docemente no seu.

Devagarinho, integrando as sessões orientadas para as mães, ou cuidando das crianças enquanto elas participavam destas sessões, mas sobretudo, da partilha do tempo, de olhares e abraços, Lucília via e ouvia outro mundo, muito mais intenso: o mundo dos medos, dos cansaços, das conquistas, dos desalentos, das dádivas, do amor sem medida.

Suavemente, o seu lugar na vida destas jovens mães passou a ser especial – o de confidente, de apoio e até de conselheira, que contribuiu para que pudessem ser para os seus filhos, Mães de Colo Cheio – como se fosse mãe também.

E era mesmo! Pelo menos, era assim que Lucília se sentia – uma Mãe, realizada no seu sonho de maternidade.

 

 

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *