A viagem que Leão XIV fará a Espanha a partir deste sábado, 6 de junho, já tem uma consequência, mesmo antes de ele aterrar, que é a presença do Papa nos meios de comunicação generalistas. Desde o início do pontificado de Leão XIV, a figura do Papa tinha desaparecido desses meios. Era necessário ir procurar a sua voz ao site do Vaticano para encontrar os seus discursos, homilias, catequeses… Será que a publicação de Magnifica Humanitas contribuiu para esta presença? É possível, e há que reconhecer que esta encíclica merece essa presença e os elogios recebidos, porque estamos perante um documento que perdurará na memória de crentes e não crentes.
Dou as boas-vindas a Leão XIV a Espanha e sei que ele conhece a situação do país e da Igreja que vai encontrar. Ou seja, um país mergulhado na maior crise política da democracia (ainda maior do que a da tentativa falhada de golpe de Estado de fevereiro de 1981), na qual o interesse dos partidos não está no bem comum, nem em zelar pela dignidade da pessoa (habitação, saúde, educação, migração), nem em sanear e consolidar a própria democracia, mas sim nos seus próprios interesses, sobretudo eleitorais, sem, no entanto, apresentarem uma única ideia para a regeneração política de Espanha.
Um país absolutamente polarizado porque se mantém na velha e paralisante ideia da “direita e esquerda”, quando essas ideias, sociologicamente falando, já estão ultrapassadas – mas que é incapaz de sair desse ciclo. Os políticos, porque não sabem situar-se noutros parâmetros e são incapazes de inventar, de criar novas palavras que os coloquem perante uma nova realidade, e os cidadãos porque, lamentavelmente, a capacidade de pensar por nós próprios está muito condicionada e porque, incompreensivelmente, com a situação política que temos, somos incapazes de levantar a voz na rua.
Os grandes poderes económicos continuam a ser uma sombra muito tentacular, com essa presença quase invisível, mas que condiciona tudo porque, não nos iludamos, o deus Mammon continua a ter muitos seguidores cegos que confiam a felicidade aos seus “milagres”, embora esses se produzam à custa da dignidade de muitas pessoas. Um deus e seguidores com muito ego e pouca humanidade que permitem que famílias de quatro pessoas, das quais duas têm um emprego estável, não consigam chegar ao fim do mês. Mas, se a macroeconomia vai bem, que importância pode ter a economia familiar?
“Paris vale bem uma missa”
Um país onde o interesse político pelos migrantes não passa de vê-los como moeda de troca eleitoral. Para uns, porque são vistos como futuros eleitores e isso é lucrativo (a regularização de mais de meio milhão de migrantes que viviam e trabalhavam há anos em Espanha é algo positivo, mas o Governo não previu como fazê-lo no prazo que estabeleceu e muitos migrantes não vão conseguir); para outros, porque é preciso expulsá-los do país e, se não for possível fazê-lo de forma totalmente legal, então tenta-se e consegue-se muitas vezes transformá-los em cidadãos de sexta categoria (aqui surge a “prioridade nacional” proposta pelo Vox e abraçada pelo PP em muitas comunidades autónomas, com consequências desastrosas até nas cantinas escolares). De qualquer forma, nem moral nem eticamente é aceitável, por parte dos políticos, este tratamento e utilização dos migrantes – que são pessoas, não o esqueçamos.
Muito resumidamente, esta é a situação política e social que Leão XIV vai encontrar em Espanha. A incógnita é: de que falará e em que tom na sessão conjunta do Congresso e do Senado no Palácio das Cortes de Espanha? Como irão os políticos responder?
Os partidos políticos já começaram a tentar usar a visita papal em seu proveito. No final de maio, Pedro Sánchez, presidente do Governo, deslocou-se ao Vaticano para visitar Leão XIV e manifestar a grande sintonia que o Governo mantém com o Papa. Se Henrique IV de França compreendeu que “Paris valia bem uma missa” se isso ajudasse a consolidar o seu poder, Pedro Sánchez descobriu que a rentabilidade política da visita papal passa por assistir a uma das celebrações eucarísticas a que Leão XIV presidirá. Assim, “limpar a imagem para permanecer no poder vale bem uma missa”. Escolher a que será celebrada na Sagrada Família de Barcelona não é inocente nem por acaso.
E chegou a vez de Isabel Díaz Ayuso, presidente da Comunidade de Madrid, ou seja, do PP. Lá foi ela, ao Vaticano, visitar Leão XIV, vestida de preto rigoroso, como manda o protocolo, tentando vender-lhe a sua visão cristã da forma de governar e o seu apoio ao catolicismo espanhol – na verdade, aquilo que ela acredita ser o catolicismo, porque geralmente refere-se à proliferação de grupos evangélicos, que nada têm a ver com as Igrejas evangélicas protestantes – e que crescem em Madrid como cogumelos.
A presidente da Comunidade de Madrid já descobriu há muito tempo o valor político de assistir a uma ou a muitas missas. É tristemente engraçado pensar que estes dois políticos acreditaram que poderiam influenciar Leão XIV com as suas visitas nada desinteressadas!
Uma visita onde todos são convidados?
No que diz respeito à Igreja, que somos todos nós, acredito sinceramente que a visita do Papa Leão é recebida com gratidão e alegria. Como Igreja, respiramos neste momento um ar composto pela inegável polarização existente e por aquela espécie de agradável surpresa que provoca a crescente presença de jovens neocatólicos – que criam a ilusão de que há uma mudança de tendência e que o catolicismo está a crescer.
Não serei eu a questionar a fé e as conversões de ninguém e muito menos vou generalizar, mas é inegável que muitos destes jovens, que, além disso, são aqueles que se exibem como novos modelos na COPE e na 13TV, rádio e televisão da Conferência Episcopal, têm uma fé muito ajustada aos novos critérios da “teologia” MAGA dos Estados Unidos. Basta ver a edição especial que a revista ¡Hola!, ícone do mundo frívolo das socialites, dedicou a esta viagem e a quem destacou como modelos, juntamente com uma extensa entrevista ao presidente da Conferência Episcopal Espanhola que, embora não tenha nada de socialite, ficava bem nesta edição especial.
A Conferência Episcopal convida toda a gente a participar nos diferentes acontecimentos em que seja possível uma presença massiva: encontros com diversos grupos, celebrações eucarísticas, etc. No entanto, o presidente da Conferência Episcopal acaba de recordar que as pessoas divorciadas e recasadas, ou que vivam com outro parceiro, não podem receber a eucaristia. Uma forma nada subtil de convidar à ausência dessas pessoas, embora – oh, que coincidência! – muitos dos representantes políticos que assistirão às celebrações eucarísticas, independentemente de terem ou não acesso à eucaristia propriamente dita, sejam divorciados e recasados ou vivam em união de facto com alguém. Suponho que admitir essas pessoas e colocá-las em lugares de destaque tenha a ver com essa questão de cidadãos de primeira e de segunda classe.
Seja como for, seria interessante recordar que a Amoris Laetitia continua em vigor. Esquecida, mas em vigor. E, já agora, é um pouco arriscado não ouvir uma única palavra sobre o estado espiritual dos bispos, o que pode ser interpretado como dando como certo que todos os bispos estão em “estado angelical”.
Surpreendentemente e quase com toda a certeza, porque o encontro com o mundo da cultura e da sociedade civil se realiza em Madrid, pessoas LGTBIQ+, pertencentes à comunidade cristã Crismhom, estarão presentes nesse encontro. Tendo em conta que nada, numa viagem papal, é decidido e concretizado sem o conhecimento do Vaticano, isso leva a supor que isto não é algo apenas do cardeal arcebispo de Madrid, mas que também Leão XIV quer, tem a vontade de que estejam presentes e de se encontrar com estes cristãos. Não poderemos repetir as palavras memoráveis de Francisco na JMJ de Lisboa em 2023, “todos, todos, todos”, mas assim já faltam menos.
À exceção de algumas poucas dioceses, o processo sinodal continua sem se enraizar e, o que é pior, ainda é apresentado como algo que já passou e que, além disso, não serviu para nada; as vítimas de abusos continuam sem se sentirem protegidas, respeitadas e acreditadas. Aquela que se atreveu a denunciar um bispo concreto viu como a sua denúncia, que tinha sido avalizada pelo Tribunal da Rota [Madrid], foi paralisada pela Congregação para a Doutrina da Fé por um erro de forma; e, ela, a vítima, foi convidada por um bispo a guardar silêncio, a não falar do caso – o que significa revitimizá-la e deixá-la novamente sozinha. Será que o bispo acusado e aquele que a convidou ao silêncio estarão na fila para saudar o Papa? Espero que, embora não conste do programa oficial, sejamos surpreendidos com algum encontro do Papa com vítimas de abusos na Igreja. Se tal não acontecer, seria um grave erro.
Não é a Igreja monocromática que se quer mostrar
Pelo menos conseguiu-se que Leão XIV não entrasse oficialmente em Madrid repetindo passo a passo a chegada de Bento XVI. Embora os encontros e saudações oficiais demorem o seu tempo, o primeiro encontro com a Igreja, com o povo de Deus, será no bairro da Latina, num centro da Cáritas. Isso também não foi muito bem compreendido por alguns setores. Como muito bem disse numa entrevista recente o cardeal José Cobo, arcebispo de Madrid, “a Igreja não deixará de falar dos pobres, e isso pode incomodar”.
De qualquer forma, não é a Igreja unida e monocromática que se quer mostrar. A visita às Ilhas Canárias despertou certos receios porque há bispos que não viram com bons olhos a regularização dos imigrantes na qual a Cáritas e outras organizações eclesiais se envolveram e vinham pedindo há anos. Será que ainda custa tanto a alguns cristãos – bispos incluídos – admitir que “o meu pai era um arameu errante”?
Será que estamos perante o momento oportuno para que a Igreja espanhola recupere ou ressuscite o princípio da subsidiariedade, há tanto tempo abandonado, aproveitando o impulso que Leão XIV parece estar a dar à doutrina social católica? Só isso já representaria um bom resultado da visita.
Em suma, um país e uma Igreja onde a polarização está muito presente, com as consequências que isso acarreta. Gosto de pensar, embora me custe acreditar, que a visita de Leão XIV seja capaz de suscitar nos políticos e nos católicos em geral (Igreja) – cada um na sua realidade – aquela ideia que aparece no n.º 81 da Magnifica humanitas: “direito à esperança”.
Um direito à esperança que nos permita a todos sermos críticos e elegantemente construtivos, em que os políticos deixem de ver os católicos como um viveiro de votos e os bispos – pelo menos alguns deles – deixem de acreditar que o ilusório renascimento católico está nas mãos de Rosalía.
Bem-vindo, Leão XIV, a Espanha! E não fiques muito frustrado se, no final, as mudanças que poderiam ocorrer com a tua visita não forem tão significativas como gostarias. Tu também não és responsável por tudo, porque já somos adultos, tanto como cidadãos como enquanto crentes.
Texto de Cristina Inogés Sanz, teóloga que foi membro do Sínodo dos Bispos sobre a Sinodalidade por nomeação do Papa Francisco, depois de ter integrado a comissão metodológica de preparação. Autora do livro A Sinfonia Feminina (Incompleta) de Thomas Merton (Paulinas Editora).
Artigo publicado ao abrigo de parceria entre a FÁTIMA MISSIONÁRIA e o 7Margens.








