Ilustração: David Oliveira | Texto: Susana Teles

A Sara estava a falar com o João e achou que ele estava a precisar de um miminho. Nesse dia, pareceu-lhe um pouco desalentado, como quem traz em si o peso da tristeza. Não entrou em detalhes nem se deteve a pensar no que lhe poderia estar a acontecer. Entrou em casa e decidiu fazer-lhe um bolo. Um bolo de laranja. E lá foi entregá-lo. Ainda estava quentinho e com o cheirinho delicioso do bolo quando sai do forno. O João ficou, naturalmente, surpreendido com aquele gesto de verdadeira generosidade e agradeceu, ao que a Sara respondeu: “Quando quiseres, é só pedires”. A Sara é assim. Oferece bolos quando alguém precisa de um miminho.

Quando tivemos covid-19 aqui em casa, ela veio oferecer um bolo. Achou que um docinho sempre iria ajudar a passar o tempo penoso de isolamento (e que bem que soube!).
Na véspera de Natal também se apressa a fazer bolos para algumas pessoas. É uma azáfama para poder cumprir a missão a que se propõe.

Um bolo! Detenho-me algumas vezes a pensar neste gesto simples. Sem alguém lhe ter pedido, sem sequer ter feito menção, lá estava ela atenta a ir ao encontro. No encontro realizamo-nos enquanto pessoas, possibilitamos a dádiva da comunhão, damos passos em relação à perfeição no amor, abrimos portas à ação do Espírito. Descobrimo-nos e redescobrimo-nos, tornando-nos mais conscientes da maravilha de sermos seres em relação. Não é isto admirável? Conhecermo-nos e descobrirmo-nos através do outro! Com o outro! De facto, não fomos criados para vivermos isolados, fomos criados para fazermos comunidade, para pensarmos e construirmos juntos.

E, no fundo, é tão simples. Basta olhar o outro e tentar perceber o que precisa de mim. Normalmente, um gesto simples como o da Sara, um miminho, um abraço, uma conversa, um silêncio compartilhado, uma presença.
Todos os dias, Deus dá-nos a oportunidade de ir ao encontro do outro. O outro que está perto, que vive comigo, que trabalha comigo, que é meu vizinho, ou o outro que está mais distante, um familiar, um amigo, mas a quem eu posso ligar ou enviar uma mensagem. Decerto, não nos faltam possibilidades de encontro.
Tomemo-las como verdadeiros momentos de crescimento pessoal e da ação de Deus em nós.

 

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