Ilustração: David Oliveira | Texto: Teresa Carvalho

O telemóvel tocou e Alice sobressaltou-se ao ver o número. O coração acelerava sempre: sabia que alguma angústia trazia, e ela lá estaria para eles!
Do outro lado da linha, aquela voz angustiada: Era a mãe! E desta vez não era para chorar a sua tristeza depressiva. Desta vez, a voz tinha sabor a medo:
– É o teu irmão! Ele está a cambalear e diz que tomou umas coisas… Vem depressa!
Alice sentiu-se a paralisar.

Há muito tempo que Tiago não conseguia dar sentido à vida. Fechou-se tanto que só conseguia sentir desistência!
Tiago e a mãe, juntos naquela casa, amontoavam os cinzentos dos dias vazios, esquecidos de abrir as janelas da vida, que se foram trancando ao longo do tempo.
Alice tentou forçar a entrada do sol para eles, mas sem sucesso. Pediu ajudas, que eles recusaram. As suas desistências eram tão sufocantes que, para Alice se manter a respirar, forçou-se a sair dali, de coração pesado, impotente, sentindo um misto de culpa, que sabia não ter!
Agora, aqui, neste outro lugar, Alice pode dar-se ao direito de gargalhar, de amar, de viver com todas as cores, permitindo-lhe construir com Simão, o ambiente colorido e luminoso para o seu pequenino Luís, como sempre sonharam.

Foi aqui que Alice cuidou do seu pai até ao fim, tornando a sua doença em período de encontros entre ambos.
É também daqui que Alice e Simão supervisionam e orientam a mãe de Simão, já incapaz de ser autónoma nas pequenas decisões do dia-a-dia.
Neste ritmo alucinante da vida diária em família, não há muito tempo para outras disponibilidades para além da atividade profissional a que se entregam: Simão como guia de montanha e Alice como técnica especializada de apoio a crianças em situações de vulnerabilidade social.
Com toda esta responsabilidade, Alice aprendeu a gerir as suas próprias dúvidas e aflições de forma prática, sem deixar de ouvir o seu coração apertadinho quando se encontra com a tristeza de quem sofre. Há que agir, e é aí que concentra forças.

Assim, com aquele telefonema da mãe, Alice correu para casa dela. Lá estava Tiago, prostrado na cama, de olhar distante, ausente de qualquer querer.
– Tiago, vamos ao médico! Não estás bem! A mana ajuda-te…
Depois de acautelar a higiene de Tiago, que, aos poucos, foi ativando o corpo emagrecido, quase em modo de autómato, Alice pôs-se a caminho.
Duas horas depois, estavam no serviço de urgência, a confirmar o estado enfraquecido de Tiago, como fraca estava a sua capacidade de viver. Mais uma vez, Alice insistiu em proporcionar-lhe ajudas especializadas. Tiago aceitou!
– Tiago aceitou! Tiago aceitou! – apregoou Alice a Simão, ao telefone.
– Vais ver, Tiago! É desta, mano! Vais melhorar. Desta vez, é sem desistir!

E a esperança de Alice reacendeu-se, alimentada com o seu próprio discurso e com todas as migalhas de sol que pudesse descobrir a aquecer o mundo sombrio do irmão.
No fim do dia, no átrio do infantário, Luisinho corria com os coleguinhas, à espera dos pais. Aquele abraço de assalto ao pescoço da mãe e ao colo do pai, lavou todo o cansaço e desamarrou as angústias presas ao coração de Alice, naquele dia.
E os três, Alice, Simão e Luís, entraram em casa, com a alegria escancarada do amor que se replica e não desiste.

 

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