Maria Antónia pôs carinhosamente uma caixinha de bombons nas mãos de Vitória e segredou-lhe, para ser ouvida pelo coração:
– A mamã só sai quatro dias. Nesta caixinha, tens um bombom para comer – um em cada dia. Quando saboreares, dizes: “Eu sou o docinho da mamã e do papá, e mesmo à distância, estamos sempre juntinhos”.
Foi assim que Maria Antónia se despediu da filha, separando-se pela primeira vez desde que os seus corações se encontraram há 8 anos, quando Vitória, com 2 anos, nasceu para si e para Rui.
Vitória sabia que nascera do coração dos papás, e que a partir desse dia, os corações deles palpitavam de felicidade.
Maria Antónia saiu de casa bem cedinho. Ao entrar no comboio, deixou-se viajar no tempo. Viu-se menina de quatro anitos, a ser abandonada pela sua mãe, que não sabia o que fazer com ela. Reviveu o dia em que foi acolhida na Fundação de Nossa Senhora por aquelas irmãs que lhe deram tanta coisa boa naquele dia em que ela tinha tanta fome, e, mais do que fome, tinha tanto medo e estava tão sozinha e perdida! Mas a sua mãe viria…
Mas a mãe não veio! Nem no dia em que correu para ela na rua e ela fugiu, com medo. A mãe era uma pessoa doente e com medo! Não valia a pena esperar… Foi nesse momento, ainda antes de saber ler, que Maria Antónia decidiu: “Não vou mais esperar pela minha mãe!”
Nestas recordações, Maria Antónia ainda ouvia agora aqueles que lhe diziam:
– És tal e qual a tua mãe, até tens as sardas dela! Vais ser como ela!
Estas vozes repetiram-se tantas vezes, sulcando uma tristeza infinita e, às vezes, uma raiva por toda a injustiça aí contida. Indignada e zangada, com o dedinho bem levantado, respondia a quem a agredia, e, depois, só para si:
– Não! Eu nunca vou ser igual à minha mãe! Eu é que decido o que “Eu vou ser”! E os caminhos de Maria Antónia não podiam ser mais distintos dos da sua mãe. Depois de trabalhar para fazer o curso que queria, ser professora de crianças ensinando-as a benesse de se ter o coração preenchido de pessoas que se ama, e aos pais, o valor da herança do amor deixada nos filhos, Maria Antónia dedica-se agora a um programa que luta contra a pobreza infantil.
O seu desejo primordial de ter alguém que realmente a amasse e aceitasse o seu amor, aconteceu naquele encontro para a vida com Rui.
Depois, ainda nem sabe porquê, o encontro, também para a vida, com Vitória! No seu íntimo, acredita que Deus quis oferecer-lhes uma justiça de nível divino, abençoando-a a ela e a Rui. Todos os dias Lhe agradece por Vitória.
Enquanto corria a viagem, Maria Antónia saltitava de uma memória de dor, solidão, fome de carinho e de doces, para um mundo que ela foi criando, devagarinho, entre lágrimas, esperanças, dores, explosões de alegria, desafios, desalentos e conquistas, até hoje, onde sente o coração preenchido com pessoas que engrandecem a sua decisão de ser alguém que acolhe, integra, ajuda a afugentar a fome e a evitar que alguém mais possa viver sozinha os problemas que a sua mãe viveu, e que alguma criança possa viver desamparada sem que tenha alguém a amá-la e a assegurar-lhe: “A tua vida será uma história linda porque tu irás construí-la, e eu estou sempre aqui para te ajudar!”
No fim da viagem, Maria Antónia ligou para Vitória. Estava com o pai, de regresso da escola. O abraço que recebeu deles lavou o restinho da dor que as suas recordações sempre lhe trazem.








