Ilustração: David Oliveira | Texto: Teresa Carvalho

“É com um profundo reconhecimento que entrego ao Jaime, em representação da nossa grande gente da Fajã, este testemunho precioso de mais uma joia da nossa história e da nossa cultura que, juntos, quiseram e souberam fazer nascer”.

A ovação dos presentes tinha tanto de entusiasmo como de emoção libertada. Naquele CD de Romarias de Natal, orgulhosamente ostentado por Jaime e pelo Presidente da Câmara, estava o contributo de todas as famílias da Fajã. Até dos que viviam bem longe! Aquele CD era um retrato da família que quiseram passar a ser.

Todos sabiam como tudo começou: lembram Jaime a bater à sua porta a anunciar uma reunião das pessoas da Fajã, no Salão da Casa do Povo. Disse só que o assunto era um projeto cultural proposto para a Fajã, necessitando da opinião de todos.

Jaime não lhes contou que esta era apenas uma determinação sua, tomada naquele fim de tarde de horizonte avermelhado, quando se deu conta que, no seu regresso a casa, não encontrava ninguém em todo o percurso na Fajã: nem a senhora Maria que gostava de estar à janela; nem o senhor Gonçalves a espreitar os carros a ver se era o seu Zé. Nem sequer sons de crianças a brincar ou sinais de fumo na chaminé. Aquele silêncio e solidão, tristes, sufocaram Jaime.

“Posso mudar isto! Podemos mudar isto!” – repetia para si mesmo.

No fim de semana seguinte, Jaime iniciou a sua caminhada de casa em casa, aquela de que todos se recordavam.

E depois, naquela primeira reunião da Fajã, em que todos se viram, se falaram, deram as mãos, contaram as pequenas novidades, disseram piadas, riram, Jaime anunciou:

“Estamos desafiados a reunir as canções tradicionais da Fajã, usadas nas Romarias ao Menino Jesus, no Natal, com a intenção de gravar um disco”.

“Gravar um disco? Nós?” – A risada não parava, mas os olhos iam-se iluminando, a sonhar com um feito histórico da Fajã. E iam poder enviar para quem teve de sair da Fajã, e se afirmam por terras com outras oportunidades…

Nessa mesma tarde, Jaime fotografou uma nova Fajã: ali, não era um local solitário nem silencioso nem triste. Sentia a bênção do Menino Jesus.

E nos cinco meses seguintes, o reboliço, as anotações, as recordações, as mensagens com histórias e cantigas de antigamente, os ensaios, os encontros, a distribuição de tarefas, a partilha das notícias, os petiscos partilhados, a visita à vizinha, passaram a fazer parte da vida na Fajã. Havia uma alegria no ar!

Hoje, no Salão Nobre da Câmara, o Presidente via um CD que orgulha a sua governação, uma recolha cultural enriquecedora do concelho. Mas Jaime e as pessoas da Fajã, testemunhavam mais: o poder da unidade, a força de um sonho coletivo, que, ao se concretizar, fez nascer uma grande família, capaz de destruir o silêncio e a solidão tristes da Fajã.

Todos naquele salão, sabem que há um novo projeto já em marcha: o segundo CD. E depois deste…algo será, mas não vai parar, porque manter viva e saudável esta nova família da Fajã, tornou-se uma necessidade de que todos cuidarão! Jaime olhou a janela. O sol a pôr-se no horizonte dourado cantava harmonia.

 

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *