Intervenção do padre Fernando Domingues foi dedicada ao contexto e desafios da missão em Portugal

Missionários de países em desenvolvimento que trabalham em países desenvolvidos tendem a gerar alguma “confusão” nas comunidades cristãs que os acolhem, devido ao “modelo colonial da missão ainda muito presente atualmente”, onde persiste a ideia de que são os países do norte global a apoiar o sul. A reflexão foi apresentada pelo padre Fernando Domingues, Missionário Comboniano, aos participantes do Curso de Missiologia, que decorre em Fátima até sábado, 29 de agosto.

Numa formação dedicada ao contexto e desafios da missão em solo português, o antigo Superior Provincial dos Missionários Combonianos em Portugal disse que, em breve, partirá para Moçambique. A sua próxima missão levou uma mulher da sua terra natal – Calvão, no município de Vagos, distrito de Aveiro – a entregar-lhe 50 euros para ele “dar lá àqueles pobrezinhos”. O religioso que já esteve em missão nos bairros pobres de Nairobi, no Quénia, agradeceu o gesto e explicou aos formandos o que está por detrás daquela atitude.

“Está ainda presente a ideia de que eles não têm nada, são pobrezinhos e não têm cultura nem religião. Já nós temos meios, tecnologia, dinheiro, cultura e religião.” Esta visão motivou esteve na origem de diversos comportamentos: “A missão é nós levarmos para lá os bens que temos. Na mentalidade das pessoas daqui, os outros eram como uma espécie de ‘saco vazio’ onde nós podíamos ir e encher com as coisas boas que nós tínhamos. A missão era vista de forma unidirecional. É daqui para lá. É levar coisas, ideias, religião, etc.”

No entanto, essa forma de olhar para missão continua presente na “mentalidade das pessoas aqui da nossa terra” e, talvez, “também na mentalidade de alguns missionários e missionárias ainda hoje”. “É interessante que esta mentalidade continua, de alguma maneira, ainda forte entre nós, mesmo 60 anos depois do Concílio Vaticano II”, referiu.

O missionário sublinha que “se fez muito bem”, mas há várias questões se levantam. “Partilhámos o nosso progresso, a tecnologia, levámos para lá os nossos costumes, a nossa maneira de viver, a cultura, a fé, a civilização cristã, as nossas procissões e tradições religiosas. Mas hoje, alguém começa a perguntar: e as tradições culturais e religiosas deles? Não tinham valor nenhum? Têm valor ainda hoje? Será que Deus não estava lá a trabalhar na fé? Porque é que aqueles em Moçambique ou Angola deviam assimilar a cultura portuguesa?”

O religioso acrescenta que, atualmente, é importante ter em conta que “as comunidades cristãs das Igrejas podem enriquecer-se umas às outras e ajudar-se mutuamente, de tal maneira que hoje o modelo da missão já não é unidirecional — a missão que vai de um lado para o outro — mas é um modelo circular”. “Todas as Igrejas, à medida que crescem e se tornam maduras, podem receber missionários e enviar missionários, de maneira que a experiência de uma igreja enriquece a experiência da outra, e a outra Igreja pode enriquecer-nos também. O modelo circular da missão é aquilo que a Igreja nos propõe hoje.”

 

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