Cada Papa é um Papa, mas as comparações entre eles são inevitáveis. Há um ano, começaram logo por sobressair as diferenças de Leão XIV em relação ao seu antecessor: era óbvio que o novo Papa não tinha a urgência comunicacional nem a espontaneidade de Francisco, e de mozeta vermelha e estola dourada até fazia lembrar Bento XVI.
No entanto, foi sobretudo a Francisco que Leão XIV agradeceu e a quem citou em praticamente todas as alocuções públicas nos primeiros meses de pontificado. E desde cedo se percebeu que aquele que tinha sido um dos grandes legados do Papa argentino seria uma das prioridades do Papa norte-americano: a sinodalidade.
“Com todos vocês, irmãos e irmãs de Roma, da Itália, do mundo inteiro, queremos ser uma Igreja sinodal, uma Igreja que caminha”, disse logo no seu primeiro discurso. Ainda assim, muitos se admiraram quando decidiu chamar ao Vaticano todos os cardeais para um consistório extraordinário, dando-lhes como trabalho de casa a (re)leitura da exortação apostólica Evangelii Gaudium, documento inaugural e programático do Papa Francisco.
E eis que, no início de janeiro, ali estavam eles, todos juntos, a refletir sobre a missão da Igreja Católica e o papel da Cúria Romana, tendo ficado decidido que os consistórios de cardeais que até então se designavam “extraordinários” passariam a ser “regulares”. Um claro sinal de que o próprio Papa era sinodal.
Depois, nas suas catequeses semanais, Leão XIV empreendeu um esforço pedagógico notável: recuperar o Concílio Vaticano II e os documentos que dele saíram, não como um arquivo de memórias, mas como algo ainda por implementar no presente, e valioso para o futuro. Era Leão a colocar em prática o que Francisco lançara como inspiração.
Não um político, um pacificador
O mesmo se poderia dizer quanto à relação com a administração Trump. Recorde-se que um dos últimos documentos assinados por Francisco foi uma carta aos bispos dos EUA na qual tecia fortes críticas à política seguida pelo Presidente norte-americano no que diz respeito aos migrantes e refugiados. E Leão XIV não hesitou, ele próprio, em afirmar que as políticas de imigração dos EUA vão contra os ensinamentos da Igreja. Tampouco se inibiu de condenar a “diplomacia da força” após as operações militares na Venezuela e no Irão, defendendo o diálogo como o único caminho para a paz justa.
O embate atingiu o auge há três semanas, quando Donald Trump rotulou publicamente Leão XIV de “fraco no combate ao crime e péssimo em política externa”. Na sua resposta, o bispo de Roma procurou descolar do lugar em que Trump o pretendeu colocar – um rival – esclarecendo não ser um político e não pretender entrar em debate com ele. “Não lidamos com política externa na mesma perspetiva que ele talvez a entenda; eu acredito na mensagem do Evangelho, como um pacificador”, afirmou.
Já esta terça-feira, Trump voltou ao ataque direto: “Acho que [o Papa] está a colocar muitos católicos e muitas pessoas em perigo. Acha que é perfeitamente aceitável que o Irão tenha uma arma nuclear”, disse ao ser entrevistado no programa The Hugh Hewitt Show. Questionado pelos jornalistas sobre estas acusações, o Papa respondeu: “Há anos que a Igreja se pronuncia contra todas as armas nucleares, portanto, não há dúvida alguma a esse respeito. Espero simplesmente ser ouvido pelo valor da palavra de Deus”. Leão XIV recordou então o que havia dito desde o primeiro momento após a sua eleição, há um ano. “Eu disse: que a paz esteja convosco”.
E enquanto a Casa Branca vai gritando, o Papa vai agindo, consequente com as suas palavras: escolheu um imigrante que entrou clandestino nos EUA como bispo da Virgínia Ocidental, e agendou uma visita à ilha de Lampedusa para o dia 4 de julho. Significa isto que, precisamente no dia em que os EUA estarão a celebrar a sua independência, o seu filho mais ilustre na Igreja estará a abraçar migrantes e trabalhadores humanitários nos centros de acolhimento de uma ilha que é porta de entrada e símbolo da crise migratória. E que foi o destino da primeira viagem do Papa Francisco fora de Roma, em 2013.
Uma voz mais audível e clara
Curiosamente, naquela que foi a primeira grande viagem decidida por si (e não para cumprir a agenda que já havia sido pensada por Francisco), Leão XIV fez lembrar Francisco. Em África, a sua voz tornou-se, de repente, mais audível e clara, erguendo-se diante de dezenas milhares de pessoas, sem vacilar na presença de dirigentes políticos enriquecidos à custa da pobreza de povos coartados nas suas liberdades mais fundamentais.
Na prisão de Bata ou nos bairros degradados de Luanda, o Papa não usou apenas palavras de conforto espiritual. Denunciou o “neocolonialismo extrativo” que trata o continente africano como uma mina e os seus jovens como resíduos. E ao defender o “direito a não emigrar” — que passa necessariamente pela justiça social e pelo fim da corrupção local e internacional —, colocou o dedo na ferida das democracias ocidentais e das ditaduras africanas.
Já naquela que foi a sua primeira exortação apostólica, Dilexi te, Leão XIV unira a sua voz à de Francisco para pedir “uma Igreja que caminha pobre com os pobres”. O tema havia sido escolhido pelo seu antecessor, o título também, e as primeiras ideias terão sido alinhavadas por ele nos últimos meses de vida. Mas Leão XIV não só aceitou esta herança como a fez sua.
E reconhecendo que “a condição dos pobres representa um grito que, na história da humanidade, interpela constantemente a nossa vida, as nossas sociedades, os sistemas políticos e económicos e, sobretudo, a Igreja”, o novo Papa expôs o facto de esse grito sair da boca de cada vez mais pessoas, sem que muitos, mesmo na Igreja, consigam escutá-lo. Mas assegurou não ter dúvidas: “Mesmo correndo o risco de parecer ‘estúpidos’, é tarefa de todos os membros do Povo de Deus fazer ouvir, ainda que de maneiras diferentes, uma voz que desperte, denuncie e se exponha”. Com o seu jeito sereno e diplomático, Leão XIV tem vindo a cumprir essa tarefa.
Muitas decisões por tomar
Sim, tornou-se bastante óbvio desde o início que Leão XIV queria seguir pelo caminho aberto por Francisco. O que não lhe retirou a liberdade de tomar as suas próprias opções, nem sempre consonantes com as do seu antecessor.
Enquanto Francisco preferiu viver na Casa Santa Marta, Leão escolheu regressar ao Palácio Apostólico; se na Quinta-feira Santa Francisco ia sempre a uma cadeia e lavava os pés a 12 reclusos, Leão decidiu, neste primeiro ano, lavar os pés dos padres da diocese de Roma; e se para Francisco não existiam férias, Leão já deve ter passado mais tempo em Castel Gandolfo só nestes 12 meses do que o seu antecessor ao longo de 12 anos de pontificado.
Adotou também uma postura bastante mais conciliadora em relação à Missa Tridentina, tendo autorizado a celebração da eucaristia segundo este rito tradicional na Basílica de São Pedro, naquele que foi visto por muitos como um gesto para diminuir as tensões cismáticas na Igreja Católica.
E recentemente, no voo de regresso da sua viagem a África, o Papa já deixou claro o seu “não” a bênçãos formalizadas de casais homossexuais – que poderiam causar “mais desunião do que unidade” na Igreja – e sublinhou que questões como “justiça, igualdade, liberdade de homens e mulheres e liberdade religiosa” devem ter precedência sobre as relacionadas com a sexualidade, por serem “maiores e mais importantes”…
Mas a verdade é que a maioria das grandes decisões de Leão XIV ainda está por vir, nomeadamente no que diz respeito aos frutos do Sínodo. O novo Papa deu luz verde à plena implementação do “Documento Final do Sínodo” e ao planeamento de uma assembleia eclesial em 2028. Os grupos de estudo sinodais que foram estabelecidos para examinar os temas complexos têm vindo a publicar lentamente os seus relatórios. Muitas das questões doutrinárias e estruturais levantadas pelo processo sinodal são aqui abordadas: reforma do direito canónico, participação das mulheres, questões pastorais e morais relativas à família, sexualidade, etc. Importa agora, além do conteúdo dos relatórios, perceber que apropriação fará dele Leão XIV.
Importará também ler com atenção aquela que será a primeira encíclica escrita pelo seu próprio punho, e que poderá ser conhecida já na próxima semana, quando se evocam os 135 anos da Rerum Novarum, de Leão XIII. É dado como certo que será um documento de forte cunho social e que se intitulará Magnifica Humanitas (Humanidade Magnífica), mas, em rigor, muito pouco se sabe dela.
Seja como for, uma coisa Leão XIV já provou ao longo deste ano: é possível dar continuidade a quem nos antecede e simultaneamente trilhar o próprio caminho, estar preso a uma raiz e não deixar de ser livre, reconhecer o valor da tradição e mesmo assim ser profeta.
Texto redigido por Clara Raimundo/jornal 7Margens, ao abrigo da parceria com a Fátima Missionária.








