Sobre Leão XIV, nascido em 1955 nos Estados Unidos da América (EUA), diz a biógrafa Elise Ann Allen, referindo-se ao Papa pelo nome de batismo, que “Robert Prevost era uma criança normal no South Side de Chicago naquela época. Cresceu numa família muito religiosa, frequentando escolas católicas e rezando o terço após o jantar. A sua família era muito envolvida na vida paroquial. Fazia as coisas normais que um menino fazia naquele tempo: brincava com os amigos, nadava e estudava. Mas havia sempre algo que o atraía para Deus, algo dentro dele que o impelia para a vida espiritual, tanto que brincava às missas em criança, entrou para o seminário menor muito novo e até sonhava ser missionário. Os seus vizinhos descreviam-no como um jovem especial, e alguns até previram que seria o primeiro Papa americano!”
Elise Ann Allen, jornalista do “Crux”, explica que “a vocação religiosa de Prevost começou muito cedo. Sabia que queria ser padre desde a adolescência, a única questão era qual o tipo: tinha de decidir entre ser padre diocesano ou ingressar numa ordem religiosa. No final, escolheu os Agostinhos”. As razões dessa escolha são identificáveis, acrescenta: “em primeiro lugar, porque já os conhecia bem. A sua mãe trabalhava numa escola dirigida pelos Agostinhos e os seus irmãos frequentavam as aulas lá, e costumavam convidar os padres da ordem para jantar. Assim, já estava familiarizado com eles. Mas também conheceu outras ordens religiosas. O que mais lhe chamou a atenção nos Agostinhos foi a ênfase na amizade, na vida em comunidade e também a vertente missionária. Sempre teve interesse em viajar pelo mundo e, desde cedo, se sentiu atraído pela vida missionária, pelo que acabou por escolher os Agostinhos”.
Esta vocação missionária vai ser evidente quando Prevost se instala em 1985 pela primeira vez no Peru, país sul-americano, onde o catolicismo se vive de uma forma diferente da dos EUA. Sublinha a biógrafa que a vivência no Peru e a forma como moldou o futuro Papa “é talvez a questão mais importante para compreender Prevost, agora Papa Leão XIV. O seu tempo no Peru foi fundamental para moldar toda a sua vida e ministério pastoral como sacerdote, como superior da sua ordem religiosa e, mais tarde, como bispo, cardeal, e agora será decisivo para o seu papel como Papa. A sua primeira missão pastoral foi no Peru, em meados da década de 1980, numa zona muito pobre, no meio de uma enorme crise social e económica nacional, com as ameaças terroristas do grupo Sendero Luminoso e muitas pessoas em completo desespero e sem esperança. Foi este contexto que o formou enquanto jovem sacerdote. Aprendeu a acompanhar as pessoas em crise e assim o fez durante o resto da sua experiência missionária e pastoral no Peru. Além disso, há também o elemento cultural de como a fé é vivida e expressa no Peru e na América Latina – o calor do povo, as suas devoções populares e como se unem como comunidade para celebrar momentos e festas importantes. A sua vida pastoral e até espiritual estão ligadas à sua experiência no Peru, e não é possível compreender Leão XIV sem compreender o seu tempo no Peru”.
Elise Ann Allen, ela própria americana, nascida em Denver, refere que o país de origem e a pátria adotiva (Prevost tem também nacionalidade peruana) confluíram na formação da personalidade. E ela própria conheceu Prevost quando visitou o país em 2018 e ele era bispo de Chiclayo, pois só em 2023 foi elevado a cardeal por Francisco: “Como o próprio Papa Leão me disse agora na nossa conversa, ele é ambos: a sua forma de pensar e o seu estilo de liderança são muito norte-americanos. É um pensador organizado e sistémico, e também um administrador muito capaz que governa metodicamente, o que é em parte personalidade, mas também certamente cultural, das suas raízes norte-americanas. Ao mesmo tempo, o Papa é muito sul-americano nos seus instintos – a sua visão e instinto pastoral em geral, a sua proximidade com o povo e a sua forma de viver a fé. A devoção popular do Peru marcou-o profundamente, assim como o calor e a hospitalidade do povo. Foi acolhido como um deles, como missionário, e esse sentimento nunca o abandonou – é possível ver os seus olhos brilharem quando está com o povo peruano.”
A biógrafa, correspondente em Roma do “Crux”, analisa a eleição de Prevost a 8 de maio de 2025, no segundo dia do Conclave. Calcula-se que mais de 100 dos 133 votantes escolheram o americano. Afirma Elise Ann Allen: “Penso que o que foi mais decisivo para os cardeais na escolha de Prevost como melhor candidato foi a combinação de dois fatores: a sua personalidade e o seu percurso. Prevost é norte-americano, mas foi missionário, pároco, diretor de uma casa de formação, canonista, superior geral de uma ordem religiosa internacional, bispo e teve também experiência em Roma como cardeal e membro da Cúria Romana. Portanto, ele tinha tudo em termos de experiência, mas também em termos da visão global necessária para um Papa assumir esse papel hoje. A sua origem americana foi também atraente, no sentido em que seria levado a sério no panorama global numa altura em que a geopolítica está a mudar e exige uma voz e uma direção decisivas da Igreja. É também visto pessoalmente como um homem humilde, quieto, gentil e nada impositivo, com a capacidade de reunir pessoas de diferentes origens e perspetivas para dialogar. A sua formação agostiniana, com a sua ênfase em viver uma vida comunitária unificada e harmoniosa, foi vista como atraente e necessária numa sociedade polarizada.”
Sobre uma eventual continuidade em relação a Francisco, o argentino Jorge Mario Bergoglio, Papa entre 2013 e 2025, a vaticanista diz que “o que vemos com o Papa Leão é uma mudança de tom, mas não de direção. Leão deixou consistentemente claro, desde a sua primeira saudação na varanda da Basílica de São Pedro, que está empenhado em dar continuidade às reformas do Papa Francisco e em levar avante a sua visão de sinodalidade, mas fá-lo-á à sua maneira, com o seu estilo único. O Papa Francisco era ousado, enquanto o Papa Leão é calmo; o Papa Francisco era impulsivo, enquanto o Papa Leão é reflexivo e ponderado; Francisco contornou o sistema que queria reformar, enquanto Leão prefere trabalhar com ele e através dele. Portanto, a visão será a mesma, mas a forma de implementação será única para Leão”.
Quando Prevost era criança, os EUA, país de maioria protestante, elegeram o primeiro presidente católico, John Kennedy, e ainda houve na época polémicas sobre a relação entre a Casa Branca e o Vaticano. Hoje a implantação do catolicismo nos EUA é crescente e o católico Joe Biden foi eleito presidente em 2020 já sem grande debate sobre a sua fé. Contudo, haver um primeiro Papa americano traz expectativa sobre a relação com o presidente Donald Trump. Sobre o tema, Elise Ann Allen esclarece que “o Papa Leão já deixou claro que têm visões muito diferentes sobre a imigração, mas isso não é novidade e já era de esperar. Os ensinamentos da Igreja Católica, e especificamente a sua doutrina social, não estão facilmente alinhados com muitas políticas do governo dos EUA. O que é inevitável é que haverá divergências entre o Papa Leão XIV e Donald Trump, mas Leão também deixou claro, inclusive na nossa conversa, que não tem qualquer intenção de entrar em conflito. É alguém que deseja dialogar e que manterá sempre essa porta aberta. Defenderá a posição e os ensinamentos da Igreja, mas comunicará esta mensagem de forma respeitosa, procurando o envolvimento e o diálogo, e não de forma crítica ou que cause alienação”.
Sobre se teremos um Papa peregrino, a biógrafa diz que “é esperar para ver”, mas depois da visita ao Líbano e à Turquia, Leão XIV já anunciou uma ida a vários países africanos em abril, incluindo Angola, e também a Espanha, em junho. O Peru poderá ser igualmente um destino ainda em 2026. E quanto a uma próxima visita a Portugal, nomeadamente a Fátima? “Acho que isso é inevitável. O Papa Leão tem uma forte devoção mariana e, como todos os seus antecessores, visitará certamente Fátima, e não creio que demore muito tempo a fazê-lo. O Papa Francisco visitou Fátima por duas vezes, incluindo em 2023 para a Jornada Mundial da Juventude. Leão também visitará Portugal, certamente, e é claro que visitará Fátima. É um lugar com uma grande história com os Papas e uma relação única com o papado, dados os ‘segredos’ e as profecias a eles associados, pelo que Leão continuará certamente a prestar atenção a um lugar tão importante para o catolicismo e para a devoção popular”, diz a jornalista do “Crux”, publicação dedicada ao Vaticano e à Igreja Católica, que começou por ser um projeto ligado ao Boston Globe. A biografia do Papa foi agora publicada em Portugal pela editora “Alma dos Livros”.
Leonídio Paulo Ferreira, jornalista do DN
Foto Vatican Media








