Dois padres e alguns ativistas juntaram-se a 11 migrantes que acabaram a dormir na rua em Treviso. Foto: Direitos reservados

Depois do despejo, na última semana, de dezenas de requerentes de asilo do abrigo improvisado onde costumavam pernoitar na cidade italiana de Treviso, a Igreja Católica local assumiu um papel de vanguarda na defesa da dignidade humana: dois padres juntaram-se aos 11 migrantes que ficaram sem teto e dormiram com eles na rua, em frente ao edifício da câmara municipal, para pressionar as autoridades a encontrar uma solução.

Os presbíteros em causa, Giovanni Kirschner e Francesco Filiputti, decidiram que a ação da Igreja não poderia limitar-se a emitir comunicados. Munidos de sacos-cama, os dois párocos locais pernoitaram no chão, lado a lado com os migrantes e alguns ativistas de defesa dos direitos humanos, naquele que foi apresentado como um protesto pacífico.

A iniciativa gerou um debate acalorado, com o prefeito da cidade, Mario Conte, a acusar publicamente os párocos de serem “exploradores políticos” do problema.  “Temos espaço limitado e recursos esgotados; já investimos muito e duplicámos o nosso espaço [para acolher migrantes]. Em certo ponto, temos que ser responsáveis. Não podemos deixar-nos levar por iniciativas precipitadas; devemos trabalhar em equipa, seguindo as diretrizes institucionais, porque este fenómeno corre o risco de atingir proporções insustentáveis”, afirmou o autarca, citado pela imprensa local.

O vigário da diocese, Mauro Motterlini, divulgou por sua vez uma declaração oficial sobre o assunto: “Precisamos de voltar a pensar juntos em como reduzir o sofrimento das pessoas“, escreveu. “Para isso, precisamos de moderar o tom, deixando de lado a agressividade e as exigências, onde quer que surjam”.

Depois de destacar o quanto a diocese e as paróquias fazem pelos imigrantes “que, devido às circunstâncias da vida ou apesar de trabalharem, não conseguem sequer encontrar um quarto para alugar”, o vigário fez questão de ressaltar que “essas iniciativas sempre foram realizadas com generosidade e recursos próprios, guiadas unicamente pela fidelidade ao Evangelho” e frequentemente em colaboração com as administrações públicas, particularmente as prefeituras, “que certamente ampliaram e aprimoraram suas intervenções ao longo do tempo”.

Enquanto a controvérsia em torno da questão do acolhimento fervilhava em Treviso, um empresário anónimo interveio esta terça-feira, 21 de abril, decidindo oferecer, por uma semana, alimentação e alojamento aos migrantes que dormiam sob as arcadas do centro da cidade desde domingo.

Tanto a identidade do empresário como as instalações escolhidas para resolver, pelo menos por alguns dias, a situação de emergência e as tensões, foram mantidas em segredo absoluto.

Sabe-se, no entanto, que a iniciativa teve como intermediária a presidente da associação Veneti Schiacciati dalla Crisi (Venezianos devastados pela crise), que gere um banco solidário numa igreja local e está envolvida em diversas iniciativas de beneficência há anos.

Os requerentes de asilo que ficaram na rua, na sua maioria paquistaneses, trabalham como agricultores, soldadores e pedreiros em empresas na região, e aguardam agora uma resposta definitiva das autoridades.

Texto redigido por Clara Raimundo/jornal 7Margens, ao abrigo da parceria com a Fátima Missionária.

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