Mario Rigby caminhou 12 mil quilómetros de uma ponta à outra de África, aventura a que chamou Crossing Africa. Esteve mais de dois anos a descobrir o continente de onde tem noção de serem oriundos muitos dos antepassados, ainda que ao certo não saiba de que região ou país. “Voei de Toronto (Canadá) para a Cidade do Cabo em novembro de 2015 e apanhei um avião de volta no Cairo em março de 2018”, conta Mario Rigby, hoje cidadão canadiano mas nascido nas Ilhas Turcas e Caicos, um pequeno arquipélago das Caraíbas sob administração britânica. Aos 36 anos, exibe um físico de atleta de alta competição, o tipo que se imagina obrigatório para enfrentar a dureza de cruzar um continente onde a geografia colocou desertos, savanas, florestas tropicais e até montanhas de grande altitude, como o Monte Quénia (que Rigby subiu) ou o Quilimanjaro.

“A cor da minha pele, o facto de ter antepassados africanos, não enganou ninguém. Olhavam para mim e pensavam logo que era americano. Era só verem a roupa ou ouvirem o meu inglês. Mas é curioso que quando alguns diziam que eu era africano me atribuíam a países de outras geografias. Por exemplo, na África do Sul diziam que eu era da Nigéria, do Gana, da Serra Leoa ou algo do género. Imaginavam que eu fosse da África Ocidental”, conta Rigby, que esteve em Portugal e foi palestrante do Glexx Summit, organizado pela segunda vez em Portugal – Lisboa, São Miguel e Pico – pela empresa portuguesa Expanding World, de Manuel Vaz, que tem uma parceria com o Clube de Exploradores de Nova Iorque, ao qual pertencem astronautas, mergulhadores, alpinistas e aventureiros (no bom sentido) como este canadiano.

A pista da África Ocidental até faz algum sentido, pois foi do Golfo da Guiné, do Congo e de Angola que foram transportadas como escravas as populações das quais descende a maioria dos negros do continente americano, e isto do Canadá ao Brasil, passando por Estados Unidos da América, Cuba ou Colômbia, mas a África Ocidental foi exatamente a parte do continente que Mario não cruzou. Mas há que descobrir a explicação para a escolha do trajeto, pois se a Cidade do Cabo é um ponto de partida óbvio, já a capital do Egito para destino final tinha alternativas, como Tânger, em Marrocos, ou Tunes, capital tunisina. “A rota escolhida foi a mais fácil pela logística, só isso”, explica com toda a naturalidade Rigby, quando deveria substituir a ideia de mais fácil pela de menos difícil. Mas, explica, rota mais fácil apesar de tudo pela topografia, pela estabilidade política dos países, pela facilidade na obtenção de vistos, talvez ainda pela possibilidade de seguir a linha da costa se fosse necessário (e houve um desvio para visitar a ilha de Zanzibar, de passado árabe, chegou até a ser um sultanado, e hoje parte da Tanzânia).

“Também era a rota que provavelmente me mostraria mais diversidade, mas o mais importante mesmo foi ser a mais barata, porque quando comecei não tinha patrocinadores”, acrescenta este canadiano que se preparou através de caminhadas cada vez maiores, até que foi de Toronto a Montreal a pé e concluiu que do ponto de vista físico estava preparado.

Rigby admite que a língua inglesa foi importante para decidir o caminho. “Também falo alemão, mas não me pareceu que ajudasse muito”, nota, e de facto na rota escolhida nem sequer a Tanzânia, que foi colónia da Alemanha até final da Primeira Guerra Mundial, tem hoje gente a falar o idioma. Mais facilmente o suaíli seria útil nessa parte oriental de África que se estende do norte de Moçambique até ao Quénia. Em Moçambique, país de língua oficial portuguesa, sentiu algumas dificuldades de comunicação tentando o pouco espanhol que fala, mas pior mesmo foram os disparos por cima da cabeça que aconteceram quando passou numa zona controlada pelos antigos guerrilheiros da Renamo. “Não era contra mim pessoalmente, mas como estava rodeado de soldados do governo dispararam contra nós. Durou cerca de 20 minutos”. Esse momento na antiga colónia portuguesa foi o único em que teve transporte motorizado, 100 quilómetros, “por imposição das autoridades”, explica.

Rigby fala alemão porque a família mudou-se era ele criança para a Alemanha e aí teve a primeira experiência de se sentir diferente, pois eram poucos os negros no país, até porque a principal fornecedora de migrantes à principal economia europeia tem sido tradicionalmente a Turquia. Voltaram os Rigby depois às Caraíbas brevemente, seguindo para o Canadá e fixando-se em Hamilton, no Ontário. Jovem adulto, Mario ainda foi estudar para Londres (Reino Unido), mas acabou por regressar ao Canadá. Aí, já cidadão, tornou-se personal trainer e trabalhou numa rede de ginásios. Num daqueles momentos em que sentiu que precisava de parar um pouco para pensar na vida começou a caminhar. Uns poucos quilómetros todos os dias, dentro de Toronto. Depois os 500 quilómetros até Montreal e o resto da história é aquela que foi contar em Ponta Delgada (Açores), no Teatro Micaelense, e que aqui relata. O arquipélago quase a meio caminho entre a Europa e a América maravilhou-o ao ponto de ter posto já imagens no seu site, que merece uma visita. As fotografias da travessia de África, que me mostra no telemóvel, são de uma diversidade incrível, “e não só testemunham a simpatia das pessoas como destroem estereótipos como o da insegurança e o da miséria”.

Mario fala um pouco das Caraíbas
e de como o tráfico de escravos e todo o sistema esclavagista acabou por anular ao fim de séculos a identidade tribal nos descendentes. Por isso, quando assume a sua africanidade, não se sente de lugar nenhum em especial, de nenhuma tribo. E essa foi uma das descobertas mais curiosas que diz ter feito quando subia África: “Qualquer que fosse o país, a nacionalidade, as pessoas tinham sempre a sua tribo, a língua dos pais, que nalguns casos juntavam a outras línguas africanas ou à língua oficial, deixada quase sempre pelo colonizador europeu.”

Na África do Sul, onde o sentimento de orgulho pela derrota do regime racista branco do Apartheid é muito forte, Mario diz ter encontrado uma africanidade “muito ocidentalizada ao ponto de me lembrar as Caraíbas”. Na Etiópia também sentiu a força da africanidade, mas diferente: “Quando cheguei à Etiópia foi uma espécie de choque cultural. Tantas tribos e culturas diferentes – os amara, os tigrinos, os oromo – mas todos orgulhosos de terem sido o único país do continente a resistir à colonização”.

No Malawi, onde fez 90 quilómetros de kayak no lago que dá nome ao país, sentiu, ao contrário da África do Sul e da Etiópia, “as pessoas de cabeça baixa, demasiado dependentes de ajudas estrangeiras, de ONGs e instituições de caridade. Também no Sul do Sudão senti o mesmo. Populações demasiado dependentes, que viram o seu modo de vida tradicional afetado pela seca e pela guerra”.

Na mochila, Mario levava tâmaras, frutos secos e noodles instantâneos. Mas muitas vezes comia refeições que lhe eram oferecidas. “A generosidade era enorme. Ofereciam também por vezes lugar para dormir. Eu metade das vezes dormi na minha tenda. Às vezes num pequeno hotel”. Sobre quanto gastava por dia, confessa nunca ter feito os cálculos. Na África do Sul tudo era mais caro, no Malawi menos. Mas admite que uma média de cinco dólares, ou euros por dia é bem provável. E foi duas vezes assaltado, a primeira na África do Sul por uns miúdos e depois na Etiópia. Volta a falar desses dois países para dizer que foi também “onde se via a discrepância entre ricos e pobres. E muita gente a viver em bairros de lata”. Rigby conta ainda que apanhou malária logo na primeira metade do seu Crossing Africa.

África do Sul, Moçambique, Malawi, Tanzânia, Quénia, Etiópia, Sudão e Egito. “Quando entrei na Tanzânia fui apresentado à cultura muçulmana. E descobri que havia muita irmandade entre muçulmanos e cristãos. No Ocidente as notícias são sempre sobre o lado mau do Islão, sobre a violência, diz-se até que são nossos inimigos. Não senti nada disso, senti o oposto até. Na verdade eram as pessoas mais hospitaleiras. Voltei a sentir isso no Sudão. Eles queriam partilhar comigo a sua cultura e a sua religião, mas nunca tentaram converter-me. Queriam apenas tratar-me como um convidado”, conta o caminhante. E prossegue: “Também achei interessante a descoberta da África branca. Comecei a vê-la no norte do Sudão e logo depois no Egito. E senti que havia racismo entre o povo árabe e os negros africanos. Foi muito evidente. Os árabes olhavam de cima para os negros. E os negros eram os mais pobres nos países árabes. Comigo não eram assim, mas o modo como eu me vestia ou falava indicava que era de fora. Trataram-me bem”.
Da longa viagem, mais de dois anos, leva grandes recordações: o lago Malawi, a subida ao Monte Quénia, a costa do Índico, as Pirâmides, mas sobretudo destaca o sorriso das crianças. “Na África Oriental têm o coração tão puro”, sublinha. Foi a sua primeira viagem a África e logo inesquecível. Rigby diz também estar otimista sobre o futuro do continente. “São muito jovens. E vi muita inovação em África, muita criatividade. Porque as pessoas têm poucos recursos e portanto têm de ser imaginativas”.

Texto: Leonídio Paulo Ferreira, jornalista do DN

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