Estudo da empresa de sondagens britânica YouGov sobre a reação em relação à imigração em França, Alemanha, Itália, Espanha, Dinamarca e Polónia mostra uma atitude maioritariamente crítica em relação aos estrangeiros, com uma tendência geral para as populações europeias acreditarem que existem mais imigrantes ilegais do que legais nos seus países, embora isso não corresponda à realidade.
Divulgado no final de 2025, e incidindo sobre seis países da União Europeia, incluindo os cinco mais populosos, o estudo avança a seguinte conclusão: “Aproximadamente metade da população de cada país inquirido (45-53 por cento) apoia um cenário em que não só não é permitido nenhum novo imigrante, como um grande número de imigrantes recentes é obrigado a abandonar o país”.
Os dados mostram a crescente hostilidade em relação à imigração na Europa, mas o YouGov também revela como o tema gera reações contraditórias. Por exemplo, mesmo quando há opinião negativa da imigração, prefere-se que esta continue se a alternativa for uma falta generalizada de mão de obra.
Esta desconfiança da imigração coincide com um forte aumento desta na última década e meia, pois em finais de 2025 o número de imigrantes na União Europeia atingiu um recorde de 64,2 milhões. Os cálculos são do Centro de Investigação e Análise sobre Migração da Fundação Rockwool de Berlim. Em 2010, seriam 40 milhões os imigrantes no espaço europeu. A Alemanha é o país com mais imigrantes, cerca de 18 milhões para uma população de 84 milhões.
Portugal também bate recordes, e até foi o membro da União Europeia onde mais cresceu percentualmente a entrada de imigrantes entre 2012 e 2023, de acordo com dados divulgados pela Pordata. O país não é ainda daqueles com maiores percentagens de estrangeiros, pois serão entre 10 e 15 por cento, muito longe do Luxemburgo (47 por cento de estrangeiros) ou mesmo da Alemanha (22 por cento).
Os dados da Pordata revelam também que Portugal é o segundo país mais envelhecido da União Europeia, depois da Itália. A natalidade há muito deixou de garantir a substituição das gerações e a tradição de emigração acentua o desequilíbrio entre população ativa e idosos, com repercussões no funcionamento da economia e na sustentabilidade da segurança social. Para fomentar o crescimento da economia, até recentemente o país facilitava a entrada de mão de obra estrangeira, situação que está a ser revertida, por decisão do governo, agora mais regulador.
O Relatório de Migração e Asilo 2024 apontava para 1,5 milhões de imigrantes em Portugal legalizados, com os brasileiros a serem a nacionalidade mais representada, seguidos dos indianos e angolanos. Ucranianos e cabo-verdianos fecham o grupo dos cinco mais.
Os distritos de Lisboa, Faro, Setúbal e Porto concentram 1,1 milhões de estrangeiros, mas os imigrantes encontram-se um pouco por todo o país. É o caso de algumas zonas rurais, em que os trabalhadores estrangeiros são essenciais na agricultura, mas onde o choque cultural é maior.
Por toda a Europa, há forças políticas com um discurso anti-imigração que têm vindo a influenciar leis mais restritivas. Às necessidades da economia contrapõe a questão da identidade nacional, gerando um debate que não é esclarecedor, com informação falsa a circular nas redes sociais. A questão da imigração islâmica tem sido especialmente debatida, por causa das diferenças culturais.
Nesse contexto, numa recente entrevista à Lusa, o Patriarca de Lisboa afirmou que o aumento dos estrangeiros em Portugal não colocava em causa a matriz cristã da sociedade portuguesa. Rui Valério criticou inclusive os católicos que se manifestam contra os imigrantes. O catolicismo e a cultura cristã são “forte promotor da mentalidade universalista”, sublinhou. O Patriarca admitiu, porém, que “o fenómeno da imigração apanhou-nos a todos de surpresa e não fomos preparados para ele”. E deu o exemplo da sua freguesia natal, Urqueira, em Ourém, onde se vê a presença de “irmãos e irmãs de outros países, de outras tradições, com outros hábitos de rezar e de viver a sua fé”, mas acrescenta que nada pode “justificar ou legitimar fenómenos de intolerância, que são inadmissíveis, ou fenómenos de exploração vergonhosa do trabalho de imigrantes”.
Também numa entrevista ao DN, quando foi publicado em Portugal o livro ‘Como funciona realmente a migração – Um guia factual sobre a questão que mais divide a política’, o sociólogo holandês Hein de Haas abordou este tema do crescimento do número de estrangeiros e se a origem fazia diferença: “É mais fácil a integração quando se fala a mesma língua. Mas, ainda assim, vemos que, mesmo em caso de grandes diferenças culturais, se as condições forem as certas em termos de trabalho para os adultos e de escolas para as crianças, e assim se evitar a segregação, a integração pode ser muito bem-sucedida. Mas claro que é um grande desafio. Não há motivo para que os governos não recebam bem os novos imigrantes vindos de países não lusófonos ou de países não cristãos, e devem procurar garantir que se possam integrar na sociedade portuguesa. Porque, se os políticos se tornarem hostis em relação aos novos imigrantes, isso não vai fazer com que se vão embora, vai, sim, criar problemas. Se não se sentirem bem-vindos, começam a transformar-se dentro do seu grupo. Foi isso que aconteceu, em parte, com alguns grupos em França, por exemplo, ou na Alemanha, pessoas que eram muito bem-vindas quando o seu trabalho era necessário, mas, quando houve recessão, enfrentaram problemas por causa da pobreza e segregação. E aconteceu principalmente porque os políticos não foram capazes de aceitar o facto de que esses novos imigrantes também precisavam de ser integrados na sociedade. Se os tratarmos somente como trabalhadores, e não como pessoas com famílias, então colocamo-nos a nós próprios em perigo como sociedade. Por outro lado, como testemunha a história, vimos uma incrível capacidade dos imigrantes para se adaptarem, especialmente quando os filhos crescem, e isso é realmente importante. Temos de garantir que, uma vez que os imigrantes têm filhos, as crianças vão para as escolas juntamente com filhos de portugueses, porque isso fará deles uma parte da própria sociedade”.
Portugal, pela sua história de império global e por uma tradição de emigração, tem tido um debate muito intenso sobre as vantagens e desvantagens da imigração, que no passado foi essencialmente de população culturalmente próxima, sobretudo das ex-colónias africanas e do Brasil. A comunidade ucraniana foi a exceção, porém integrou-se bem.
Num discurso no início deste ano no Parlamento Europeu, o então presidente Marcelo Rebelo de Sousa, sublinhou a diversidade de raízes, etnias e culturas que formaram a população para destacar que “não há portugueses puros, há portugueses diversos na sua riqueza cultural”. Uma forma de travar o racismo e a xenofobia.
Não é só na Europa que o debate sobre a imigração se faz. Nos Estados Unidos da América (EUA), o discurso do presidente Donald Trump tem sido a favor de barreiras aos imigrantes. Discordando dessa política, o Papa Leão XIV, ele próprio americano e que já teve trocas de palavras ásperas com Trump, nomeou há semanas um antigo imigrante ilegal como bispo de uma diocese nos EUA. Evelio Menjivar-Ayala, atualmente bispo auxiliar em Washington, D.C., será bispo da diocese de Wheeling–Charleston, na Virgínia Ocidental. Natural de El Salvador, Menjivar-Ayala emigrou para os EUA em 1990, fugindo da guerra civil.
Cerca de metade dos americanos (52 por cento) dizem que Trump está a fazer demasiado para deportar os imigrantes que vivem ilegalmente no país, segundo um estudo da Pew feito em abril. São 15 por cento os americanos que, pelo contrário, acham que a Administração está a fazer pouco para deportar os ilegais. Os restantes 33 por cento acham que o esforço governamental para expulsar os indocumentados é o adequado.
Numa altura em que Europa e EUA são os grandes destinos de emigração, com a África, a Ásia e a América Latina ainda a terem excedentes demográficos, Hein de Haas, na referida entrevista, explicou semelhanças e diferenças entre as várias vagas migratórias. “Por volta do início do século XX, a imigração foi muito maior do que é agora, mundialmente, porque foi um tempo em que os europeus partiram em grande número para a América, não só para os EUA, mas também para a Argentina ou para o Brasil, e outros países. Foi um grande movimento transatlântico. Em termos relativos, foi um movimento muito mais massivo do que o atual. Claro que há mais imigrantes em termos absolutos agora, mas a população mundial também é muito maior. Então, em termos de importância em geral, realmente estamos bem aquém dessa antiga vaga de imigração”, sublinhou o professor nas Universidades de Amesterdão e de Maastricht.
Hein de Hass analisa a mudança de paradigma, pois a Europa que era um continente de emigrantes, passou a ser um continente de imigrantes, um Eldorado para gente: “Durante os últimos quatro ou cinco séculos, foram os europeus que se mudaram para outros países, especialmente na América, mas também, depois, países na Ásia e em África. Isso mudou completamente nos últimos 50 anos, porque a Europa, com a descolonização, teve a primeira onda de um fenómeno que lhe era completamente novo, que foi receber pessoas de outros continentes”. O processo continua e parece imparável, e alimentará o debate sobre que Europa teremos, mais diversa de certeza.
Texto: Leonídio Paulo Ferreira, jornalista do DN








