“O mundo está a ser devastado por um punhado de tiranos.” A afirmação do Papa Leão na catedral em Bamenga (Camarões), em 16 de Abril, foi uma das ideias relevantes da importante viagem do Papa Leão a África (que incluiu ainda Argélia, Angola e Guiné Equatorial). Paz, defesa dos direitos humanos, justiça económica e social, fim das guerras, da corrupção e da “rapina de recursos” por líderes, grupos, empresas ou países sem escrúpulos foram temas essenciais da primeira viagem decidida e desejada por Leão XIV. A par do apelo aos crentes – católicos, outros cristãos, muçulmanos – a que sejam “profetas da paz, da justiça, do perdão e da solidariedade” e a que aprofundem a liberdade, a reconciliação e a democracia.
Nos seus discursos, o Papa condenou ainda o investimento em armas, o uso e instrumentalização da religião para fazer a guerra, e pediu a “superação das desigualdades entre privilegiados e desfavorecidos”. Diante de um continente onde se registam conflitos (mais latentes ou mais graves) e cujos recursos são delapidados, Leão deu sinais concretos do papel dos crentes na construção de sociedades pacíficas e solidárias: enalteceu o diálogo inter-religioso na Argélia e o papel do Movimento pela Paz nos Camarões que junta cristãos e muçulmanos, esteve com crianças vítimas de conflitos, visitou presos e abrigos para os mais velhos, pediu (em Angola) a reconciliação da sociedade civil.
De África se espera, quase só, que nos dê recursos para as baterias dos nossos aparelhos, tantas vezes explorados com recurso a escravatura infantil, por exemplo no Congo. Ao mesmo tempo, o catolicismo cresce no continente (mais de 280 milhões de fiéis em 2024), mas com as ambiguidades de uma sociedade ainda patriarcal, injusta e muito moralista e hierarquizada. Por isso também foi importante o apelo do Papa a que a Igreja ajude a que “cresçam os espaços de liberdade” e “participe do desenvolvimento integral desta terra, da sua renovação, da sua transformação” para que as suas riquezas sejam “uma bênção para todos”. África espera, enfim, alguém que escute, console e encoraje. Ou, como dizia o Papa: “Cristo ouve o clamor do povo e renova a nossa história, erguendo-nos de cada queda, consolando-nos em cada sofrimento e encorajando-nos na nossa missão”.
*O autor escreve segundo a anterior norma ortográfica








