Palestinianos observam os efeitos da destruição depois de o exército israelita ter bombardeado a Igreja de São Porfírio, na cidade de Gaza, a 20 de outubro de 2023. Foto © Omar El Qattaa/Amnesty International.

A Câmara dos Representantes dos EUA rejeitou, na sessão de dia 15 de julho, uma emenda para cortar 3,3 mil milhões de dólares de ajuda militar a Israel. O dinheiro chegará, portanto, a Telavive, mas os judeus norte-americanos pró-Israel não têm razões para ficar satisfeitos: um recorde de 103 deputados democratas (mais de metade dos 212 eleitos) votou a favor da emenda que retiraria a Israel o acesso àquela gigantesca soma inscrita no Programa de Financiamento Militar Estrangeiro.

A votação mostrou que o incondicional apoio ao Governo de Israel, uma constante de largas décadas, já não é uma realidade entre os eleitos do Partido Democrata. As ações das forças armadas israelitas em Gaza, na Cisjordânia e no Líbano corroeram a doutrina tradicional do partido em relação ao Médio Oriente e vieram questionar o alinhamento sem reservas do partido com o Governo de Telavive.

Apesar do “estrépito” político que a votação provocou, ela acaba por não ser uma surpresa absoluta. Uma sondagem recente realizada pelo Pew Research Center mostra que os eleitores do Partido Democrata são mais propensos a ver os israelitas e o seu Governo de forma mais negativa do que os republicanos.

Mas essa clivagem acontece também entre membros das várias religiões. Os judeus adultos são os que têm uma visão mais positiva do povo israelita (83%), seguidos pelos protestantes evangélicos brancos (74%). Os evangélicos brancos são os que têm uma visão mais favorável do Governo israelita (57%), muito acima dos católicos (34%), dos brancos não evangélicos (33%), dos protestantes negros (30%), dos americanos sem afiliação religiosa (17%) e dos muçulmanos (12%). Mesmo entre os judeus americanos adultos menos da metade (47%) tinha uma visão positiva do Governo de Netanyahu.

A jornalista Yonat Shimron descreve deste modo, no Religion News Service no dia 16 de julho, a evolução dos sentimentos da opinião pública nos EUA: “Um número crescente de americanos, incluindo um número cada vez maior de judeus americanos, passou a ver o Governo de Israel com desaprovação após a guerra em Gaza, com alguns chegando a classificá-la como genocídio. As ofensivas militares de Israel contra Gaza, iniciadas após o ataque do Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023 – que provocou 1.200 mortos –, resultaram em mais de 73.000 mortes, segundo as Nações Unidas.”

A política americana tem de mudar

Para exemplificar esta mudança de atitude, a jornalista cita um parágrafo da carta que o líder dos democratas na Câmara dos Representantes, Hakeem Jeffries, enviou aos eleitos do partido antes da votação da emenda, afirmando que ele votaria contra (permitindo que a ajuda militar chegue a Telavive), mas que não pressionaria os demais parlamentares a votarem como ele: “Para o bem de Israel e do povo palestino, a política americana no Oriente Médio precisa de mudar.”

Nancy Pelosi – democrata e ex-presidente da Câmara –, foi mais longe e votou a favor do corte da ajuda a Israel, afirmando: “O povo americano exige, com razão, o fim de um ciclo perpétuo de guerra, e o governo Netanyahu não pode manter o rumo atual; portanto, embora esta emenda seja mal concebida, voto ‘sim’ pela mensagem que ela transmite.”

Ao Religion News Service, o rabino Jonah Dov Pesner, diretor do Religious Action Center of Reform Judaism, o braço político de defesa dos interesses da maior denominação judaica do país, disse: “O comportamento do Governo israelita é confrangedor. Entendo que as pessoas estejam frustradas. Mas isso não significa simplesmente cortar a ajuda de forma sumária. É preciso ter uma conversa racional entre aliados e definir quais são as políticas corretas e sensatas para manter a segurança de todos.”

Já Dov Waxman, professor de estudos sobre Israel na Universidade da Califórnia em Los Angeles, afirmou que a divisão no Partido Democrata reflete exatamente a situação dos judeus americanos: “A posição dos democratas não destoa das opiniões de muitos – talvez até da maioria – dos judeus americanos. A ideia de enviar 3,3 mil milhões de dólares em ajuda militar a Israel, sem levar em conta o que aquele país está a fazer na Cisjordânia ou na Faixa de Gaza, é algo a que a maioria dos americanos – e pelo menos uma parcela significativa dos judeus americanos – também se opõe.”

Uma sondagem realizada no início deste ano entre os judeus americanos revelou que 70 por cento se opõem à assistência militar e financeira incondicional a Israel. Cerca de um quarto (26%) eram favoráveis a uma suspensão imediata dessa ajuda, enquanto os restantes (44%) preferiam que os EUA condicionassem a assistência militar e financeira à verificação de que Israel cumpre com as leis americanas. Mais de metade dos judeus americanos com menos de 35 anos (51%) desejava ​​a suspensão total da ajuda a Israel.

Por outro lado, quase um terço (31%) dos adultos americanos afirma que Israel cometeu um genocídio contra os palestinos em Gaza, enquanto dois em cada dez (21%) pensa o contrário, revela uma sondagem do centro de estudos AP-NORC da Universidade de Chicago divulgada no dia 7 de julho.

Tendo em conta uma porção de tempo mais alargada, o Pew Research Center comparou várias sondagens para concluir que, em 2023, três quartos (64%) dos americanos adultos olhava de modo favorável para o povo israelita, enquanto esse sentimento em relação ao povo palestiniano era partilhado apenas por menos de um terço (28%). Hoje a situação é completamente diferente: a maioria (52%) ainda é favorável ao povo israelita, mas 42 por cento exprime sentimentos favoráveis ao povo palestiniano.

Mais grave ainda para os interesses sionistas: o Governo de Telavive recolhe opinião favorável de apenas um terço (32%) dos americanos, tendo quase dois terços (62%) opinião contrária.

Texto redigido por Jorge Wemans/jornal 7Margens, ao abrigo da parceria com a Fátima Missionária.

 

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