A Amnistia Internacional denunciou quarta-feira, 10 de junho, “o apoio tácito ou explícito da comunidade internacional aos crimes israelitas, incluindo genocídio e apartheid, ou a sua incapacidade de agir com determinação para os impedir”, que “encorajou as autoridades israelitas a intensificar uma campanha brutal para deslocar à força os palestinianos e expandir o seu controlo sobre as terras na Cisjordânia”.
Esta afirmação acompanha um novo relatório, no qual a organização detalha “como as autoridades israelitas estão a acelerar a anexação através de uma campanha estatal de limpeza étnica que visa as comunidades beduínas e pastoris palestinianas na [denominada] Área C da Cisjordânia ocupada, enquanto cometem o crime contra a humanidade de transferência forçada”.
Para além de já ter denunciado a prática de genocídio na Faixa de Gaza, este extenso e documentado relatório de 149 páginas expõe “como o governo israelita fez da anexação formal um objetivo político explícito”. Segundo o documento “Eliminar tudo o que é palestiniano: a limpeza étnica de Israel contra as comunidades beduínas e pastoris da Cisjordânia” (disponível em inglês), Israel está “a implementar a agenda nacionalista religiosa do movimento dos colonos”.
A Amnistia Internacional indica que as autoridades israelitas aceleraram “a expansão dos colonatos e a apropriação de terras”, aumentaram “o apoio financeiro e logístico aos colonatos” e armaram os colonos, “permitindo assim uma campanha brutal – sancionada pelo Estado – de violência por parte dos colonos e de deslocação forçada de palestinianos da Área C”.
“Nos últimos três anos e meio, as autoridades israelitas aceleraram uma campanha de limpeza étnica patrocinada pelo Estado na Cisjordânia, desalojando, desapropriando e transferindo à força comunidades palestinianas. Isto não é obra de intervenientes desonestos ou do que a comunidade internacional tem repetidamente rotulado como colonos extremistas, organizações ou um ou dois ministros. O que estamos a testemunhar é uma anexação deliberada e liderada pelo Estado, em total violação do direito internacional, a desenrolar-se perante os olhos do mundo inteiro”, afirmou Agnès Callamard, secretária-geral da Amnistia Internacional, citada no comunicado divulgado esta quarta-feira.
“O nosso relatório revela que estes abusos não são o resultado de algumas ‘maçãs podres’. A violência dos colonos é uma componente central de uma campanha de limpeza étnica sancionada pelo Estado, fundamental para a manutenção do sistema de apartheid de Israel”, apontou a responsável.
A investigação da Amnistia Internacional mostra que os palestinianos estão a ser forçados a abandonar as suas terras ancestrais, privados dos seus meios de subsistência e aterrorizados para que fujam das suas casas, num contexto de aumento sem precedentes dos ataques de colonos, abertamente tolerados e ativamente facilitados por um governo israelita que se vangloria da sua intenção de anexar formalmente vastas áreas de território palestiniano.
As comunidades em todo o Vale do Jordão e nas Colinas do Sul de Hebron que enfrentam as deslocações continuam a resistir, determinadas a permanecer nas terras que habitam há gerações. A Amnistia Internacional apela à comunidade internacional para que aja com urgência para as proteger.
No entanto, apesar das obrigações legais claras dos Estados de agir para pôr fim à ocupação ilegal de Israel e ao seu sistema de apartheid, a comunidade internacional tem repetidamente falhado na ação.
“A comunidade internacional tem sido cúmplice ou demasiado passiva face às repetidas e graves violações do direito internacional por parte de Israel e ao seu desrespeito pelas resoluções da Assembleia-Geral e do Conselho de Segurança da ONU. Deve sinalizar claramente que a era da aquiescência tácita à limpeza étnica e à anexação por parte de Israel chegou ao fim”, sublinhou Agnès Callamard.
De acordo com a Amnistia Internacional, esta área constitui mais de 60 por cento da Cisjordânia ocupada e tem sido, há muito, central para os esforços de Israel, no sentido de controlar a terra e a demografia, dados os seus recursos naturais, pastagens e terras agrícolas vitais, e a população palestiniana relativamente pequena.
Pelo menos 117 comunidades palestinianas, predominantemente beduínas e de pastores, enfrentaram deslocações totais ou parciais, entre janeiro de 2023 e abril de 2026, de acordo com o OCHA – o departamento das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários. Até ao final de abril de 2026, pelo menos 5910 pessoas tinham sido deslocadas à força, de acordo com dados da ONU.
Isto ocorreu num contexto de um aumento sem precedentes de atos de violência por parte de colonos apoiados pelo Estado, denunciou a organização de defesa dos direitos humanos.
Até ao final de abril de 2026, os colonos israelitas tinham estabelecido 363 postos avançados na Cisjordânia ocupada, segundo a ONG Peace Now. Destes, 212 foram criados desde 2023, com as autoridades israelitas a encorajá-los ativamente e a não tomar praticamente nenhuma medida para os desmantelar, apesar de serem ilegais, tanto ao abrigo da lei israelita como do direito internacional.
Entre eles, contam-se dezenas de postos avançados de pastoreio, que são utilizados pelos colonos para se apropriarem de vastas áreas de terra palestiniana. Isto vem somar-se às apropriações de terras pelo governo israelita. Quase 58 por cento das terras na Área C não estão registadas e, em fevereiro de 2026, as autoridades israelitas já tinham confiscado metade dessas terras não registadas, através de declarações de propriedade estatal.
Relatório é “sinal de alerta” para líderes mundiais
A secretária-geral da Amnistia Internacional defendeu que, “para os líderes mundiais que enquadraram a anexação e a violência dos colonos como atos isolados de colonos ou ministros ‘extremistas’ e impuseram sanções limitadas contra alguns indivíduos ou organizações, o relatório da Amnistia deve ser um sinal de alerta: estas medidas limitadas são lamentavelmente insuficientes para fazer face à campanha estatal de limpeza étnica e às violações sistémicas, que têm vindo a aumentar rapidamente perante os olhos da comunidade internacional”.
“Aos líderes mundiais que afirmam repetidamente opor-se à anexação, mas nada fazem para a impedir: saibam que a vossa inação está a alimentar diretamente crimes contra a humanidade e tem consequências globais que corroem ainda mais a ordem internacional baseada em regras”, disse Agnès Callamard.
“Os Estados, particularmente aqueles com influência sobre Israel, incluindo os Estados Unidos da América (EUA), o Reino Unido, a Alemanha, bem como a Itália e outros países da União Europeia e árabes, devem proibir imediatamente todo o comércio, investimento e qualquer forma de cooperação ou assistência financeira que contribua para a ocupação ilegal de Israel, o sistema de apartheid e a limpeza étnica dos palestinianos”, disse ainda Callamard.
“Além disso, todos os Estados devem impor sanções específicas, incluindo proibições de viagem e congelamento de bens, contra os responsáveis israelitas diretamente implicados nestes atos, incluindo o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, a ministra dos Colonatos e Missões Nacionais, Orit Strock, e o ministro da Defesa, Israel Katz.
A Amnistia Internacional investigou 27 comunidades beduínas e de pastores na Área C, que foram deslocadas à força, entre 2023 e 2025, ou que estão em risco de deslocação.
A equipa de investigação entrevistou 45 palestinianos de 12 comunidades, que foram deslocados ou estão em risco de deslocação, bem como 19 advogados, ativistas que testemunharam incidentes de violência por parte de colonos, jornalistas e representantes de ONG israelitas e palestinianas.
A organização também verificou mais de 420 vídeos e imagens e realizou análises de declarações oficiais do governo, acordos, legislação, mudanças na governança, registos judiciais, mapas, imagens de satélite, relatórios da ONU e da sociedade civil, e outros materiais de fontes abertas.
A organização partilhou as suas conclusões com as autoridades israelitas a 13 de maio. Segundo a Amnistia Internacional, o Ministério da Defesa respondeu a 23 de maio, afirmando que as suas forças respondem a incidentes de violência por parte de colonos, detendo suspeitos, quando necessário, e investigando casos em que as forças possam ter falhado no cumprimento de ordens ou na intervenção para impedir a violência dos colonos. As provas documentadas pela Amnistia Internacional apresentam uma realidade diferente, concluiu a organização.
Texto redigido por 7Margens, ao abrigo da parceria com a Fátima Missionária.








