Quase um terço dos países que participam no Campeonato do Mundo de Futebol de 2026 está marcado por situações de perseguição ou discriminação religiosa. O alerta é da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), que aproveita a realização do maior evento desportivo do planeta para chamar a atenção para uma realidade que afeta milhares de milhões de pessoas em todo o mundo, mas nem sempre é visível.
Segundo os dados da organização católica, 14 dos 48 países presentes na competição integram a lista de Estados onde a liberdade religiosa é gravemente limitada. Três deles — Irão, Arábia Saudita e República Democrática do Congo — encontram-se na categoria mais severa, a da perseguição religiosa. Os restantes onze são classificados como países onde existem formas significativas de discriminação contra minorias religiosas.
O retrato resulta do mais recente Relatório sobre a Liberdade Religiosa no Mundo, publicado pela AIS em outubro passado [ver 7Margens], que identifica violações deste direito fundamental em 62 países. Destes, 24 registam situações de perseguição e 38 apresentam níveis elevados de discriminação. No conjunto, mais de dois terços da população mundial vive em contextos onde a liberdade de pensamento, consciência e religião enfrenta restrições mais ou menos severas.
Entre os participantes no Mundial, os casos do Irão e da Arábia Saudita continuam a suscitar especial preocupação. Em ambos os países, a legislação e as estruturas do Estado limitam fortemente o exercício da liberdade religiosa, sobretudo para os convertidos do islão e para membros de comunidades religiosas não reconhecidas oficialmente. Em alguns casos, estas restrições podem traduzir-se em penas de prisão ou noutras formas de repressão.
Na República Democrática do Congo, a situação assume contornos diferentes. A presença de grupos armados e jihadistas em várias regiões do país, especialmente no leste, tem provocado ataques contra comunidades religiosas e civis, agravando um clima de insegurança que afeta milhões de pessoas.
A lista dos países classificados pela AIS como marcados pela discriminação religiosa inclui ainda Egito, Turquia, Iraque, Jordânia, Argélia, Marrocos, Tunísia, Catar, Uzbequistão, Haiti e México. As situações variam de país para país: nalguns casos predominam restrições legais e administrativas; noutros, são a pressão social, a violência sectária ou a ação de grupos criminosos que condicionam a liberdade de crença e de culto.
O México, um dos anfitriões do Mundial, constitui um exemplo particularmente revelador, sublinha a fundação pontifícia. Embora a Constituição deste país garanta a liberdade religiosa, padres, religiosos e agentes pastorais continuam a ser alvo de ameaças e violência por parte do crime organizado em diversas regiões. Em muitos locais, a Igreja encontra-se entre as poucas instituições que denunciam abusos, corrupção e violência, tornando-se também alvo de represálias.
Para a AIS, a coincidência entre o Campeonato do Mundo e a divulgação destes dados oferece uma oportunidade para olhar além dos relvados e das classificações. A liberdade religiosa, recorda a organização, é um direito humano fundamental consagrado no artigo 18.º da Declaração Universal dos Direitos Humanos e inclui não apenas a liberdade de professar uma religião, mas também a de mudar de crença, praticá-la publicamente ou não seguir qualquer religião.
O relatório identifica ainda tendências preocupantes à escala global, como o crescimento dos nacionalismos religiosos, o reforço de regimes autoritários, a expansão da violência jihadista em algumas regiões de África e da Ásia e o aumento dos discursos de ódio dirigidos a minorias religiosas, incluindo cristãos, bahá’ís, judeus e algumas comunidades muçulmanas. Ao mesmo tempo, destaca o papel desempenhado por numerosas comunidades de fé na promoção da paz, da reconciliação e da ajuda humanitária em contextos de conflito.
Assim, enquanto milhões de adeptos acompanham os jogos do Mundial, a AIS convida a recordar outra competição, muito menos visível, mas decisiva para a dignidade humana: a da defesa da liberdade religiosa. E, nesse campeonato, conclui o relatório, demasiados países continuam longe de alcançar a vitória.
Texto redigido por Clara Raimundo/jornal 7Margens, ao abrigo da parceria com a Fátima Missionária.








