A destruição total da Igreja de São Luís de Monfort e da missão católica de Meza, em Cabo Delgado, ocorrida há cerca de uma semana e atribuída a grupos terroristas ligados ao autodenominado Estado Islâmico, motivou uma forte tomada de posição da comunidade muçulmana local. Num comunicado enviado à Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), a Comunidade Islâmica de Moçambique (CIMO) condenou firmemente a violência e a “instrumentalização do Islão para fins de terror”.
O ataque resultou na destruição de símbolos históricos da presença católica na região — a igreja datava de 1946 — e no rapto de cerca de 22 jovens. Até ao momento, não há ainda informações sobre o paradeiro destes civis, o que gera um clima de incerteza e dor na população local. Para além da igreja, os insurgentes destruíram também infraestruturas sociais básicas, incluindo a escola primária local, deixando a comunidade de Meza sem espaços de culto e educação.
No comunicado, a que a Fundação AIS teve acesso, a CIMO “condena de forma firme e inequívoca todos os atos de violência perpetrados contra populações civis, bem como a destruição de espaços religiosos, independentemente da sua filiação confessional”, e exprime a sua “solidariedade para com a comunidade católica e todas as famílias afetadas”.
Os responsáveis da CIMO reiteram ainda que “nenhuma fé deve ser utilizada como justificação para a violência, o medo ou a divisão entre os muçulmanos” e apelam à união de todos os moçambicanos, líderes religiosos e instituições, para fortalecerem as “mensagens de tolerância, coesão social e responsabilidade coletiva”.
António Juliasse, bispo de Pemba, reagiu com gratidão à mensagem dos líderes muçulmanos, classificando-a como um “sinal de esperança”. Para o prelado, este gesto é um símbolo prático da “fraternidade humana” defendida pelo Papa Francisco, ajudando a distinguir a verdadeira fé islâmica daqueles que se servem dela para espalhar o ódio.
“A Sagrada Escritura ensina-nos que Deus é Amor; devemos, portanto, amar Deus que nos criou e amar os nossos irmãos sem qualquer distinção”, afirma o bispo, citado pela Fundação AIS, recordando que os princípios do Islão que estudou enquanto seminarista — paz, justiça e preservação da vida — são os mesmos partilhados pelos cristãos católicos.
Mas enquanto o diálogo inter-religioso se fortalece, o drama humano continua. O padre Eduardo Paixão, diretor da Rádio Sem Fronteiras, confirmou que o silêncio sobre os jovens raptados pode indicar diversas situações: desde negociações em curso com as famílias até à intenção dos terroristas de integrarem os jovens no grupo para trabalhos forçados. “Toda esta incerteza vem acrescentar ainda mais dor e sofrimento à população local”, lamenta.
Texto redigido por 7Margens, ao abrigo da parceria com a Fátima Missionária.








