A prevalência do crime de violência doméstica é um dos indicadores de preocupação que sobressai do Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) de 2025, apresentado este ano. Apesar deste crime ter diminuído em Portugal pelo terceiro ano consecutivo, registaram‑se 29.644 ocorrências. “Vinte e sete pessoas morreram, das quais vinte e uma mulheres, quatro homens e duas crianças. Tivemos muitos milhares de participações num crime de terror”, afirmou o primeiro-ministro Luís Montenegro, a propósito destes dados.
A Cáritas Diocesana de Aveiro (CDA), organismo da Igreja Católica para o trabalho social, lida com quem sofre este tipo de violência. Dispõe de uma Estrutura de Atendimento a Vítimas de Violência Doméstica, que inclui apoio psicológico a crianças e jovens, assim como um gabinete de apoio à vítima no Departamento de Investigação e Ação Penal de Aveiro. A CDA coordena também a Rede Especialista em Intervenção com Vítimas de Violência Doméstica do concelho de Aveiro. Em declarações à Missão Press, Dora Graça, diretora da CDA e coordenadora do Núcleo de Atendimento às Vítimas de Violência Doméstica do distrito de Aveiro, revela que, no ano passado, “381 pessoas foram acompanhadas pela estrutura de atendimento”, entre as quais 104 crianças.
Outra das respostas da CDA é a Casa Abrigo para Homens Vítimas de Violência Doméstica, existente desde abril de 2020. A estrutura tem capacidade para 12 pessoas, que podem fazer-se acompanhar dos filhos. Segundo Dora Graça, “até dezembro de 2025, passaram por aquela casa cerca de 100 pessoas”. A estrutura assegura “o que faz parte das necessidades básicas da pessoa”, incluindo “acompanhamento psicológico”. O “objetivo é que a pessoa se autonomize e reintegre”, indica aquela responsável. Quem chega àquele espaço envolve-se na “gestão da casa”, o que inclui a limpeza e a confeção das refeições. “Sentimos que estas atividades são importantes para determinadas pessoas que chegam sem ter qualquer competência em termos de organização da sua vida e da gestão da casa”, refere a responsável.
Délcia Pereira é assistente social e técnica de apoio à vítima do Núcleo de Atendimento às Vítimas de Violência Doméstica. Explica que as pessoas atendidas nesta valência continuam a ser sobretudo mulheres, “maioritariamente portuguesas”, entre os 35 e os 55 anos e com filhos. A assistente social explica que, desde que a violência doméstica se tornou crime público, aumentou o número de vítimas que vai “à polícia pedir ajuda” e que “a grande maioria” chega à Cáritas “já com queixa apresentada”. Na sua atividade, a instituição apoia também os pedidos de apoio judiciário, ajudando as vítimas a aceder a um advogado e a compreender os seus direitos.
Quando as vítimas são imigrantes, o desamparo é ainda maior. “Se já é difícil para quem já tem uma retaguarda, para estas pessoas é ainda mais. E depois, mesmo que queiram regressar aos seus países, os progenitores não dão autorização às crianças porque os filhos são comuns, e as pessoas têm de ficar aqui sozinhas”, lamenta Délcia, que integra uma equipa que trabalha para proteger e amparar quem enfrenta esta realidade.
Texto: Álvaro Pacheco e Juliana Batista
Texto conjunto MissãoPress








