O livro, intitulado "Desarmada e desarmante – a paz é um dom", reúne as intervenções de Leão XIV sobre o tema da paz. Foto © Vatican Media

“A paz é o grande desejo que agita muitos corações, mas também é frequentemente ameaçada, pisada e desprezada” nos 103 estados que, de alguma forma, estão envolvidos numa guerra no planeta, afirma o Papa Leão, no prefácio a um livro publicado em Roma, de que é autor.

O livro, intitulado Desarmada e desarmante – a paz é um dom, reúne as intervenções deste Pontífice sobre o tema da paz, desde o primeiro dia em que, após a eleição, se dirigiu à multidão concentrada na Praça de São Pedro.

Numa nota introdutória à antologia, o Papa aproveita para apresentar cinco aspetos da paz que lhe são particularmente caros: a paz é uma responsabilidade; a paz constrói-se com a verdade; a paz procura testemunhas; e, enfim, a paz requer esperança.

Quanto à responsabilidade, o texto sublinha que a paz “se constrói com pequenos gestos diários: um sorriso, um insulto perdoado, uma palavra amável”, a começar pelas relações no quotidiano, “nas nossas famílias, nas nossas casas, nas nossas cidades, nos locais onde trabalhamos”.

“Se  – avisa Leão XIV – o nosso primeiro instinto quando nos deparamos com um problema, uma tensão, uma ofensa for o de julgar os outros, acusá-los e até condená-los, será inevitável que primeiro a indiferença e depois o ódio se instalem ao nosso redor. Há uma maneira de olhar para a realidade que destrói em vez de construir. A paz começa por mim. Começa por nós”. Sem isso, alerta a nota papal, com que autoridade poderemos exigir a paz dos poderosos?

Mas a paz também se constrói com a verdade. É que, adverte o Papa, mesmo quem faz a guerra diz fazê-lo em nome da paz. Ora, “especialmente após as terríveis consequências dos eventos de Hiroshima e Nagasaki, o recurso à guerra é cada vez mais uma ‘aventura sem regresso’, como enfatizou São João Paulo II”. E São Paulo VI afirmou em plena Assembleia Geral da ONU que aquilo que une as pessoas é “um juramento que deve mudar a história futura do mundo: nunca mais a guerra, nunca mais a guerra! A paz, a paz deve guiar o destino dos povos e de toda a humanidade!”.

Na era atómica, a verdade passa pela afirmação de que “não são as armas atómicas que geram a paz, mas sim o desarmamento”. E “esta verdade, que parecia clara nas últimas décadas, durante as quais assistimos a uma desescalada nuclear, foi obscurecida por uma corrida ao armamento que hoje assusta e aterroriza”. E, nesse quadro, a Igreja “levanta humildemente uma questão para todos hoje: a espécie humana deve continuar a habitar a Terra?”, questão que precisa de ser seriamente considerada, perante os cenários de “combinação do domínio cibernético com o rearmamento global”.

Acerca das testemunhas da paz, o Papa refere figuras que “promoveram a paz, vencendo a tentação da corrupção, socorrendo os pobres e promovendo a diplomacia”, citando os casos emblemáticos do Beato Floribert Bwana Chui, de Giorgio La Pira e de Dorothy Day. Mas não esquece pessoas comuns que simplesmente seguiram a sua consciência, dando o exemplo do oficial soviético Stanislav Petrov, que ajudou a evitar uma guerra atómica global em 1983, e que mostra “como a consciência de um homem pode valer o mundo inteiro”.

Finalmente, a paz requer esperança no futuro, “algo que o mundo busca hoje”. Aqui, Leão XIV começa por apontar a fonte dessa esperança, que é, para ele, a mensagem de Jesus, na medida em que “o dar a vida pelos outros vence a morte, o isolamento e a violência: ‘Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância’”.

O Papa termina o seu texto introdutório deste modo: “A quem corre o risco de cair na tentação do desespero diante das tantas guerras em curso no mundo, dirijo o convite que já o Papa Pio XI dirigiu a toda a Igreja: ‘Agradecemos a Deus por nos fazer viver em tempos difíceis. Agora, não é permitido a ninguém ser medíocre’. Que Deus nos guie pelos caminhos da não-violência. Que os que creem e as pessoas de boa vontade nunca deixem de atuar como construtores da paz. Que cada um faça da paz a causa da sua vida”.

Texto redigido por 7Margens, ao abrigo da parceria com a Fátima Missionária.

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