Álvaro Pacheco | Diretor da Fátima Missionária

Durante cerca de um mês, o mundo vive a “febre” do Campeonato Mundial de Futebol com intensidade, garra e paixão – sobretudo nos países que conseguiram qualificar-se para esta prova. Este é o maior Mundial de sempre, com 48 países a disputar um desejado troféu. Algumas nações participam pela primeira vez e, como acontece ciclicamente no futebol e noutras modalidades, surgem por vezes surpresas vindas de onde menos se espera. Acontece no Mundial como nas ligas nacionais. Cabo Verde, por exemplo, estreante nesta competição, tem dado que falar por ter conseguido alcançar o impensável: empatar com a seleção espanhola, uma referência mundial. E, falando da nossa Taça de Portugal, que dizer da recente vitória do Torreense frente ao Sporting na final?

Há inúmeros momentos em que o desporto, e em particular o futebol, revela a capacidade humana de se entregar ao convívio, à alegria e à possibilidade de, por instantes, esquecer as dificuldades da vida.
O futebol mostra-nos como algo tão simples pode tocar o essencial da nossa condição: partilhar, completar-nos mutuamente, desfrutar da amizade e da presença do outro, em grupo, em equipa.

No dia em que a seleção portuguesa iniciou a sua participação no Mundial com um frustrante empate, vi uma imagem que me desarmou, vinda de Gaza – um lugar onde a miséria, a dor, o sofrimento, a injustiça, a prepotência e a exploração dos mais frágeis são quotidianas. Ver crianças a jogar à bola no meio dos escombros, de pés descalços sobre a terra batida, a saltar, correr, gritar e sorrir de alegria fez-me chorar. Como é possível, depois de tanto sofrimento e no meio de tanto “inferno”? E porque razão o mundo insiste em investir em guerras e destruição, quando um simples jogo de futebol nos recorda que fomos criados uns para os outros, porque somos uns dos outros.

Sim, sabemos que Deus nos criou com imensas capacidades, mas algumas só se revelam quando somos confrontados com a adversidade, com a cruz, com a dor e o sofrimento. É o caso daquelas crianças que, mesmo a viver no “inferno”, conseguem renascer através de um simples jogo de futebol – com uma bola que de bola pouco tem, mas que os faz sorrir, correr, saltar, partilhando momentos de alegria e lazer, permitindo-lhes esquecer, ainda que por instantes, a miséria e a destruição que as rodeiam e marcam o seu dia a dia. Creio que é por isso que os ingleses, inventores do futebol moderno, lhe chamam “the beautiful game”, isto é, “o jogo bonito”. Na vida, mais do que vencer, empatar ou perder, o importante é jogarmos juntos… como crianças.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *