O conflito em Gaza está a deixar uma marca profunda na população mais vulnerável, apontou a Cáritas Jerusalém. O número de pessoas com deficiência aumentou significativamente, afirmou Anton Asfar, secretário-geral da organização à agência de notícias católica italiana SIR (Servizio Informazione Religiosa): “Pelo menos 41.844 feridos necessitam de reabilitação a longo prazo e cerca de 25% são crianças, o que significa mais de 10 mil menores com deficiências graves diretamente relacionadas com a guerra.”
Depois do Papa Leão XIV ter apelado para que a ajuda humanitária chegue à população do território palestiniano ocupado, a Cáritas Jerusalém descreveu (na quarta-feira, dia 27 de maio) um quadro dramático da situação sanitária e ambiental. “Desde o anúncio do cessar-fogo, estamos paralisados, a tentar salvar vidas com os recursos disponíveis da Cáritas”, completou o responsável no artigo da SIR, também citado pelos sites de informação Religión Digital e Unisinos.
As crianças estão entre as muitas vítimas e de forma particularmente violenta. “Infelizmente, Gaza tem o maior número de crianças amputadas da história moderna”, afirmou o secretário-geral da Cáritas. Neste contexto, o acesso a cuidados e assistência é cada vez mais difícil. “Estamos a lutar para fazer entrar na Faixa dispositivos de assistência e equipamento médico e vivemos uma escassez contínua de recursos, sobretudo de medicamentos”, denunciou a organização, reiterando a urgência de corredores humanitários eficazes e contínuos.
As palavras da Cáritas inscrevem-se na linha do apelo do Papa, que pediu à comunidade internacional um compromisso concreto e duradouro para apoiar a população de Gaza. Um pedido que, à luz dos dados, parece cada vez mais urgente: sem intervenções imediatas, a crise sanitária e ambiental corre o risco de se transformar numa catástrofe irreversível.
Destruição de infraestruturas civis
Segundo o SIR, nos últimos dois anos, o conflito desencadeou uma crise sistémica que afeta todos os aspetos da vida quotidiana: casas destruídas, insegurança alimentar, acesso limitado à saúde, escolas fechadas e perda de meios de subsistência. Anton Asfar sublinha que a infraestrutura de água, saneamento e gestão de resíduos está amplamente destruída, enquanto a falta de recursos impede mesmo a manutenção do que resta. O resultado é um contexto em que toda a população está exposta ao risco de epidemias, num território marcado por danos ambientais sem precedentes no solo, nos recursos hídricos e no litoral.
A crise hídrica é especialmente grave. “As reservas de água potável já são extremamente limitadas, enquanto a destruição dos sistemas de saneamento e o uso de soluções improvisadas contaminaram o aquífero do qual depende grande parte da população. As áreas marítimas também estão comprometidas”, notou o secretário-geral da Cáritas. “As consequências já são evidentes: as doenças infecciosas estão em ascensão, incluindo diarreia aguda, que aumentou 36 vezes, e casos de icterícia aguda relacionados com a hepatite A.”
Falta de água e saneamento, lixo acumulado
Esta crise da água e saneamento é agravada pela acumulação do lixo. “A Faixa de Gaza está a afundar-se no lixo”, descreveu a Cáritas, explicando que, desde outubro de 2023, o colapso do sistema de gestão de resíduos transformou montes de lixo e entulho em focos de doenças. “Há insetos e roedores que proliferam e espalham doenças graves, como o hantavírus, a leptospirose, a salmonelose, a febre por mordedura de rato e a peste bubónica, agravando ainda mais um sistema de saúde já à beira do colapso”, destacou o responsável da organização em Jerusalém.
A escassez de energia também está a obrigar a população a queimar plástico para cozinhar, com graves consequências para o meio ambiente e a saúde. “O ar está cada vez mais poluído, as doenças respiratórias estão a aumentar e dioxinas, substâncias altamente tóxicas e cancerígenas, estão a ser libertadas para o ar”, denunciou Anton Asfar. No setor alimentar, a situação também é crítica. A destruição da vegetação atingiu níveis quase totais: “A Faixa perdeu 97% das suas árvores frutíferas, 95% dos seus arbustos e 82% das suas culturas anuais, tornando impossível qualquer produção de alimentos em larga escala. Nesse contexto, mais de 500 mil pessoas enfrentam a fome.”
A política deliberada, intencional e clara de destruição de civis e infraestruturas civis, como os sistemas de água e saneamento, energia ou das plantações, entre outros aspetos, por parte de Israel, levou organizações como a Amnistia Internacional e a Human Rights Watch a declararem que o Estado israelita está a promover o genocídio na Faixa de Gaza.
Texto redigido por 7Margens, ao abrigo da parceria com a Fátima Missionária.








