O padre Crépin Martial Monga, vigário da paróquia de São João Baptista, em Zémio, no leste da República Centro-Africana, foi assassinado a tiro na noite de segunda-feira, 29 de junho, por homens armados ainda não identificados. A informação foi divulgada esta quarta-feira, 1 de julho, pela Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), que destaca o trabalho que o presbítero vinha desenvolvendo em prol da reconciliação na região, num contexto de forte tensão entre o exército governamental, mercenários russos ligados ao grupo Wagner e diferentes grupos armados que disputam o controlo do território.
Segundo a informação divulgada, homens armados entraram no complexo paroquial da igreja de São João Baptista e dispararam sobre o padre. Em declarações ao canal italiano TV2000 citadas pela AIS, o bispo de Bangassou, Aurélio Gazzera, admitiu que Crépin Monga, “provavelmente não foi morto por acaso, mas porque estava a fazer uma obra de paz”. Para o prelado, trata-se de “uma perda tremenda para a comunidade local e para toda a diocese”.
A Agência Fides acrescenta que o padre – nascido em 1990, em Bangassou, e ordenado há apenas cinco anos – coordenava o Comité Local para a Paz e a Reconciliação de Zémio (CLPR), um organismo que reúne representantes das comunidades locais, autoridades civis e outros intervenientes para promover o diálogo e prevenir a violência. Numa região onde o Estado tem escassa presença e os grupos armados condicionam a vida quotidiana, a Igreja Católica tem desempenhado um papel determinante na mediação de conflitos e na proteção das populações.
A mesma ideia é retomada numa carta de homenagem publicada por Aurélio Gazzera nas redes sociais e assinada pelo padre Jean-Marie Muanda, da arquidiocese de Bangui. O texto recorda que o padre assassinado trabalhou “incansavelmente” e dedicou-se “de corpo e alma à paz e à reconciliação”, considerando-o uma “testemunha do Evangelho” cuja vida poderá continuar a dar “frutos de paz e reconciliação duradoura nesta terra da África Central”.
O funeral do Padre Crépin realiza-se esta quarta-feira, 1 de julho, na catedral de Bangassou. “Depois de um dia muito longo, e uma viagem muito longa [desde Zémio] por estradas mais que terríveis, depois de cinco horas de moto e oito horas de carro, conseguimos trazer os restos mortais do padre Crépin para Bangassou”, partilhou o bispo na sua página de Facebook.
Uma região mergulhada na crise e tanto por fazer
O assassinato acontece numa região onde a violência armada se prolonga há mais de quinze anos e a situação humanitária continua a agravar-se.
Em janeiro, o bispo Aurélio Gazzera alertava para a existência de cerca de 20 mil deslocados internos na região de Zémio, dos quais mais de dois mil viviam em situação de pobreza extrema. A alimentação, o acesso aos cuidados de saúde e à educação constituíam já então preocupações centrais da diocese.
Em declarações à Agência Fides, o bispo explicava que a população continua a sofrer os ataques e a presença sucessiva de diferentes grupos armados, entre os quais o LRA (Exército de Resistência do Senhor), as várias milícias Séléka, a UPC (Unité pour la Paix en Centrafrique) e, mais recentemente, a milícia Azandé Ani Kpi Gbé, criada inicialmente para proteger as populações locais, mas que acabou por alimentar a violência.
Segundo a mesma agência, a situação de segurança deteriorou-se nas últimas semanas na província de Haut-Mbomou, com um recrudescimento dos confrontos armados e novas deslocações de população para a vizinha República Democrática do Congo.
O isolamento da região agrava ainda mais as dificuldades. A estrada entre Bangassou e Zémio, com cerca de 300 quilómetros, pode demorar até 17 horas a percorrer devido à degradação das infraestruturas.
A situação na República Centro-Africana é analisada no mais recente Relatório da Fundação AIS sobre a Liberdade Religiosa no Mundo, que identifica mais de uma década de conflito civil como um dos fatores que mais contribuíram para a deterioração das relações entre comunidades cristãs e muçulmanas.
Segundo o relatório, os confrontos entre as milícias anti-Balaka e os antigos grupos Séléka provocaram profundas fraturas sociais e mantêm um clima de insegurança em vastas regiões do país, onde a presença do Estado continua a ser muito limitada.
Aurélio Gazzera esteve em Portugal em 2015 para apresentar o Relatório sobre a Liberdade Religiosa no Mundo desse ano e, numa mensagem enviada à fundação em 2022, recordava que o apoio internacional permite manter escolas, creches e projetos de formação, mas também dar visibilidade ao sofrimento de populações frequentemente esquecidas.
“Pela República Centro-Africana há sempre muito trabalho a fazer e é sempre necessária a ajuda de todos”, afirmava então. “O trabalho é mesmo muito e é mesmo necessário o empenho de todos: na oração, material e económico e ao nível da informação – no compreender o que acontece nesta parte do mundo, que parece sempre longínqua, mas o mundo é pequeno.”
Texto redigido por 7Margens, ao abrigo da parceria com a Fátima Missionária.








