O bispo de Setúbal, Américo Aguiar, presidiu à missa exequial. Foto © Ricardo Perna/Diocese de Setúbal

“Perceber, levantar-se, servir e não passar ao lado”: assim sintetizou o bispo de Setúbal a vida de Eugénio Fonseca, que segunda-feira, 17 de agosto, foi sepultado depois da missa exequial, celebrada na Sé da cidade onde nasceu. Américo Aguiar evocou ainda a ligação do antigo presidente da Cáritas Portuguesa ao bispo Manuel Martins e pediu que o seu legado se transforme numa responsabilidade para a Igreja e para a sociedade. No final, um longo aplauso marcou a despedida.

“Reunimo-nos hoje com o coração apertado pela dor e pela saudade. Mas reunimo-nos, antes de tudo, como cristãos. E, por isso, reunimo-nos na esperança.” Foi com estas palavras que Américo Aguiar iniciou a homilia, perante familiares, amigos e representantes de inúmeras instituições e comunidades às quais o antigo presidente da Cáritas Portuguesa dedicou grande parte da sua vida.

Partindo das leituras da celebração, o bispo apresentou Eugénio como um cristão que procurou não passar ao lado das situações de pobreza, exclusão e injustiça. “Ser justo é ter fome e sede de justiça. É reconhecer a dignidade de cada pessoa. É não passar ao lado daquele que sofre. É deixar-se incomodar pela pobreza, pela exclusão, pela solidão e pela injustiça. É transformar a fé em responsabilidade”, afirmou.

Américo Aguiar recuperou depois uma história que remonta à infância de Eugénio. Teria cerca de dez ou 12 anos quando, no Cemitério da Piedade, percebeu que o jovem padre que ia presidir a um funeral não tinha consigo o necessário para celebrar a missa. Eugénio desapareceu e regressou pouco depois com tudo aquilo de que o padre precisava.

Para o bispo, o episódio é “uma pequena história que diz uma vida inteira”. Naquele rapaz já se encontrava “muito do Eugénio que todos conhecemos”: alguém que estava atento, percebia o que faltava, não ficava à espera que outro resolvesse e agia.

“Não bastava perceber. Era preciso fazer. Não bastava reconhecer um problema. Era preciso procurar uma resposta. Não bastava comover-se. Era preciso comprometer-se”, sublinhou.

E a expressão que, para Américo Aguiar, melhor resume a vida de Eugénio é “não passar ao lado”, porque “o justo não passa ao lado. O misericordioso não passa ao lado. Quem tem fome e sede de justiça não passa ao lado. O voluntário não passa ao lado. O cristão não pode passar ao lado.”

“Um filho espiritual de Manuel Martins”

O cardeal dedicou parte importante da homilia à relação de Eugénio Fonseca com Manuel Martins, primeiro bispo de Setúbal, que descreveu como uma “relação profundamente filial”.

“Eugénio reconhecia em D. Manuel um pai, um pastor, um mestre e uma referência que marcou profundamente a sua maneira de compreender a Igreja, a responsabilidade dos cristãos na sociedade e, sobretudo, a atenção aos pobres”, afirmou.

Nesse contexto, evocou a recente presidência de Eugénio da Fundação D. Manuel Martins, missão que tinha assumido com particular empenho na preparação das comemorações do centenário do nascimento do primeiro bispo de Setúbal.

“Eugénio estava empenhado na preparação das comemorações dos 100 anos do nascimento de D. Manuel Martins. Não chegou a concluir essa missão entre nós. Agora, essa missão fica também nas nossas mãos”, afirmou.

Para o bispo, a celebração do centenário deverá ser uma oportunidade para a Igreja e a sociedade voltarem a perguntar: “Onde estão hoje os pobres? Onde estão hoje os esquecidos? Que injustiças continuam a exigir de nós uma palavra?”

“Uma voz inquieta, talvez uma voz incómoda”.

A partir das Bem-aventuranças, Américo Aguiar reconheceu em Eugénio um homem marcado pela “fome e sede de justiça”, pela misericórdia e pela capacidade de construir pontes.

“Inquietava-o a desigualdade. Inquietava-o a pobreza. Inquietava-o a exclusão. Inquietava-o tudo aquilo que diminuía a dignidade de uma pessoa”, afirmou.

“Eugénio foi muitas vezes uma voz inquieta. Talvez, algumas vezes, uma voz incómoda”, acrescentou, considerando que “uma Igreja que leva verdadeiramente a sério as Bem-aventuranças precisa de homens e mulheres que não a deixem acomodar-se”.

No final, o bispo lembrou que Eugénio “já não precisa dos nossos títulos, dos nossos cargos ou dos nossos elogios”, mas da misericórdia de Deus. E deixou uma missão aos que ficam: “continuar a olhar para os pobres”, defender a dignidade de cada pessoa, promover o voluntariado, construir uma Igreja próxima, lembrar que “a caridade nunca dispensa a justiça” e “continuar a não passar ao lado”.

“Talvez a melhor homenagem que possamos prestar aos dois seja não transformar a sua memória num monumento. Mas fazer dela uma responsabilidade”, afirmou, referindo-se a Eugénio e Manuel Martins.

“Obrigado, Eugénio”, concluiu Américo Aguiar. “Obrigado pela Igreja que ajudaste a construir. Obrigado por tantas vezes nos recordares aqueles que não podíamos esquecer. Obrigado pelo serviço à Igreja de Setúbal, à Igreja em Portugal e a Portugal.”

No final da celebração, depois da saída do corpo da Sé, os presentes prolongaram a despedida com um longo aplauso, numa manifestação de reconhecimento e afeto por Eugénio Fonseca.

Entre os presentes estiveram, entre outras personalidades a antiga ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social Ana Mendes Godinho, o sociólogo e antigo secretário-geral da CGTP-IN Manuel Carvalho da Silva, o filósofo e professor universitário Viriato Soromenho-Marques, o vogal da direção da Confederação Portuguesa de Voluntariado Alfredo Abreu, a atual presidente da Cáritas Portuguesa, Rita Valadas, e o presidente da Cáritas Diocesana de Setúbal, Paulo Cruz.

Texto redigido por 7Margens, ao abrigo da parceria com a Fátima Missionária.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *