Sandra González, conhecida como Betsy, tem 47 anos e nasceu na Colômbia, um país marcado por um conflito armado que teve início na década de 1960, envolvendo forças estatais, guerrilhas, grupos paramilitares e cartéis de droga, e que deixou mais de 260 mil mortos em 60 anos, segundo um relatório do Centro Nacional Colombiano de Memória Histórica (CNMH).
Foi neste contexto que o pai de Betsy desapareceu em Neiva, Huila, quando ela era criança. “A partir daquele momento, a minha mãe dedicou-se durante os anos 80 à procura dele. Como filha, eu fiquei praticamente sozinha. A minha mãe estava tomada pela dor, pela procura do meu pai e pelo desespero de não saber o que tinha acontecido. Naquele tempo, quase ninguém denunciava formalmente um desaparecimento porque havia muito medo. Havia repressão de um lado e do outro. As famílias tinham receio das consequências”, disse Betsy, em declarações à FÁTIMA MISSIONÁRIA. Estima-se que os desaparecidos sejam 117 mil, de acordo com o CNMH.
Na comunidade onde vivia, a guerrilha “era uma presença constante”. Dois dos seus irmãos entraram nas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), um dos principais grupos envolvidos no conflito. A família foi também vítima da repressão militar. “Em Balsillas, o exército queimou a nossa casa”, recorda. O sofrimento da mãe após o desaparecimento do pai, os irmãos envolvidos no conflito e a destruição da casa marcaram profundamente a sua infância. Foi nesse contexto que, em 1992, com apenas 13 anos, Betsy entrou para as FARC. Ali formou-se como auxiliar de enfermagem e prestava serviços de saúde. O seu companheiro – hoje marido – era paramédico, e juntos apoiavam militares e civis.
“Atendíamos combatentes, mas também população civil. Muitas vezes chegavam pessoas feridas, doentes, mordidas por serpentes, vítimas de acidentes na selva ou de situações próprias da vida rural e da guerra”, conta. A sua tarefa era “tentar salvar vidas em condições extremamente difíceis” e com “poucos recursos”.
Adaptar-se à vida militar foi duro. “Nunca gostei de armas. Sempre tive medo. Ainda tenho. Mas, naquele contexto, por fazer parte de uma organização armada, tinha de carregar uma arma. Era uma obrigação. Para mim, isso foi muito difícil, porque aquilo que eu queria fazer era cuidar da vida, não carregar uma arma.”
As limitações eram constantes. “Foram muitas as pessoas que morreram enquanto tentava ajudá-las.
Muitas vezes eu sabia o que era necessário fazer, mas não tinha medicamentos, ferramentas e condições. Havia bloqueios militares e logísticos. Estávamos em zonas de selva, em contextos de confrontação, e muitas vezes não havia como evacuar uma pessoa ou prestar o tratamento adequado. Sentia muita impotência.”
Betsy esteve na guerrilha 24 anos, até 23 de junho de 2016, data em que o governo colombiano e as FARC anunciaram um acordo de paz. Como membro da organização paramilitar, Betsy integrou o grupo de signatários deste processo. “Deixar as armas foi um processo coletivo, geral e consensual”, afirma, explicando que ficou claro que “a guerra não era a solução”. O conflito “deixava muitas vítimas, quase sempre pobres”. Além disso, “numa mesma família podia haver um filho na guerrilha e outro no exército” pelo que “era uma luta entre pessoas do mesmo povo, mas que estavam colocadas em lados diferentes da guerra”. Com o tempo, compreenderam também que estavam a alimentar o sistema daqueles que “vendiam armas e lucravam com o conflito”.
O acordo de paz foi, para ela, “uma das melhores coisas” que aconteceu à Colômbia, porque abriu a possibilidade de se “reencontrar” com a família e de se “reconstruir o tecido social que tinha sido rompido pelo conflito armado”. Mas, dez anos depois, muito continua por fazer. “A Colômbia continua a ser um país muito atravessado pela guerra. Muitos territórios vivem situações difíceis. Nos últimos anos, a segurança complicou-se muito em várias regiões. Muitas pessoas voltaram às armas. Surgiram novos grupos armados.” Betsy afirma que “falta cuidar melhor dos direitos humanos e dos direitos humanitários.”
As eleições presidenciais do passado mês de junho revelaram uma nação dividida. Abelardo de la Espriella, um empresário milionário de extrema direita apoiado por Donald Trump, venceu por uma margem estreita o senador Iván Cepeda, um filósofo e defensor dos Direitos Humanos de esquerda. La Espriella tomou posse a 7 de agosto. Antes dessa data, apresentou propostas como a construção de mega-prisões onde os detidos receberiam “pão e água”, operações militares contra campos de narcotráfico com o apoio dos Estados Unidos da América e de Israel e a redução do aparelho de Estado em 40 por cento.
Betsy deseja que o novo presidente “respeite” o acordo de paz. “Espero que compreenda que existe um acordo
construído de forma dialogada e conciliada, e que esse acordo não pode ser esquecido nem tratado com repressão. Também espero que não haja repressão contra quem pensa diferente. Pensar diferente não pode colocar a vida de uma pessoa em risco.
Espero que o governo proteja os direitos humanos, a economia do campo, os territórios, a Amazónia e as populações que historicamente foram mais afetadas pela guerra.” A experiência na selva deu-lhe conhecimentos profundos. “Aprendi muito na área da saúde, tanto com a medicina alopática como com a medicina tradicional. Aprendi com a selva, com as plantas, com a natureza e com as pessoas que tinham conhecimentos antigos sobre o cuidado da vida”.
A riqueza do departamento colombiano de Caquetá
Os saberes ancestrais que adquiriu na selva permitem-lhe hoje extrair óleos e essências de plantas aromáticas e medicinais únicas do bioma amazónico e desenvolver produtos que já foram apresentados em Portugal. Mas Betsy – atualmente gestora da Associação de Mulheres Produtoras da Paz e da Cooperativa Multiactiva para el Buen Vivir y la Paz del Caquetá – não é a única empreendedora sustentável.
A ela junta-se Yina Bailón, representante da ChocoAmazónic, uma empresa dedicada à produção e transformação do cacau amazónico, que destaca que a comercialização destes produtos permite aos europeus conhecer chocolates com inclusão de frutos amazónicos como o “açaí, copoazú, coco, arazá e derivados de ervas aromáticas”. Já Daisy Bermeo, representante da Associação de Mulheres Rurais da Colômbia e de Caquetá, trabalha com a canangucha (ou buriti), um fruto amazónico a partir do qual se extraem óleos essenciais e uma farinha sem glúten.
Estas mulheres desenvolvem estes produtos no âmbito do projeto “Caquetá Eco”, ativo em territórios amazónicos do departamento de Caquetá. O processo que deu início à conceção destes produtos começou após a assinatura do acordo de paz, que foi seguido da chegada da cooperação internacional. São, aliás, o Instituto Camões, o Instituto Marquês de Valle Flor e a ONG colombiana Red Adelco, que tornam o projeto “Caquetá Eco” uma realidade.
Betsy explica que territórios que “estiveram associados à guerra, à pecuária extensiva, à economia ilícita e ao abandono” hoje dão origem a produtos amazónicos, alguns deles resultados de etapas longas e exigentes.
“No caso das essências, levamos cerca de cinco anos a desenvolver este trabalho e a aprender como extrair industrialmente derivados de plantas únicas do território amazónico”, conta. O projeto “Caquetá Eco” envolve famílias camponesas, cooperativas, associações e comunidades que participam nos diferentes processos produtivos, com fábricas comunitárias que operam com energia solar fotovoltaica, garantindo uma produção limpa num território com graves deficiências no setor elétrico.
Foi no âmbito do projeto “Caquetá Eco” que estas mulheres estiveram em Portugal, de 31 de maio a 7 de junho, e participaram no “Fórum internacional Amazónia e biodiversidade”, que decorreu na Câmara de Comércio e Indústria, em Lisboa. A viagem incluiu visitas a empresas portuguesas, permitindo um intercâmbio de conhecimentos sobre transformação agroindustrial e as exigências do mercado europeu. Ao cruzarem fronteiras, estes produtos amazónicos levam consigo a mensagem de que Caquetá já não é um território de guerra, mas um espaço de biodiversidade, resiliência e vida.
Texto: Carlos Andrés Erazo Giraldo e Juliana Batista








