O Papa Leão XIV durante "um momento de reflexão silenciosa" na visita à Grande Mesquita de Argel. Imagem captada da transmissão vídeo dos canais oficiais.

“Não tenho medo da Administração Trump nem de proclamar abertamente a mensagem do Evangelho, que é o que acredito ser a minha missão e a missão da Igreja”, afirmou o Papa Leão aos jornalistas que o acompanhavam, segunda-feira,13 de abril, a bordo do avião que rumava à capital da Argélia, na primeira etapa da longa viagem ao continente africano. As palavras do Papa surgiram em resposta a um invulgar e contundente ataque que o Presidente dos Estados Unidos da América lhe dirigiu, na sua rede Truth Social.

Numa mensagem publicada no serão de domingo, Trump escreveu que o Papa Leão XIII é “fraco no combate ao crime e péssimo em política externa”. E desfiou, a seguir, uma série de críticas ao Papa por condenar decisões do líder dos EUA – ele que “está a fazer exatamente aquilo para foi eleito, com uma vitória esmagadora” [escrita com maiúsculas].

Terminou acusando Leão XIV de ser “um político” que “cede à esquerda radical”, argumentando: “Se eu não estivesse na Casa Branca, Leo não estaria no Vaticano.”

Mais tarde, falando aos jornalistas na Base Aérea Andrews, Trump reconheceu não ser fã do Papa Leão, entendendo que ele “não está a desempenhar bem o seu papel” e que é “uma pessoa muito à esquerda”.

Nos comentários que fez no avião para Argel, no início da sua viagem que o levará ainda aos Camarões, Angola e Guiné Equatorial, o bispo de Roma procurou descolar do lugar em que Trump o pretendeu colocar – um rival – esclarecendo não ser um político e não pretender entrar em debate com ele. “Não lidamos com política externa na mesma perspetiva que ele talvez a entenda; eu acredito na mensagem do Evangelho, como um pacificador”, afirmou.

“Não creio – observou também – que a mensagem do Evangelho deva ser deturpada como alguns estão a fazer. Continuo a manifestar-me veementemente contra a guerra, buscando promover a paz, o diálogo e o multilateralismo entre os Estados, para encontrar soluções para os problemas. Muitas pessoas estão hoje a sofrer, muitas vidas inocentes foram perdidas, e acredito que alguém precisa de se levantar e dizer que existe um caminho melhor.”

Quem se mostrou desolado com as declarações do Presidente dos EUA sobre o Papa foi o líder da Conferência dos Bispos Católicos dos EUA, o arcebispo Paul S. Coakley, de Oklahoma: “Lamento profundamente que o Presidente tenha optado por escrever palavras tão depreciativas sobre o Santo Padre”, escreveu ele, em comunicado.

“O Papa Leão XIV não é seu rival; tão pouco é um político. Ele é o Vigário de Cristo, que fala a partir da verdade do Evangelho e em prol do cuidado das almas”, esclareceu o arcebispo.

Presidente do Irão também reage

O Presidente do Irão, Masoud Pezeshkian, condenou também as declarações de Trump sobre o Papa, considerando-as um ‘insulto’. Em particular, o dirigente insurgiu-se contra um ponto do texto do líder americano em que este considerou – “falsamente” – que o chefe da Igreja Católica Romana seria “apoiante de um Irão com armas nucleares”.

Dirigindo-se a Leão XIV, Pezeshkian escreveu na rede X: “Em nome da grande nação do Irão, condeno o insulto a Vossa Excelência e declaro que a profanação de Jesus, o profeta da paz e da fraternidade, é inaceitável para qualquer pessoa livre”.

A este propósito, vale a pena convocar palavras do padre jesuíta Antonio Spadaro, próximo do Papa Francisco, que exerce hoje as funções de subsecretário do Dicastério para a Cultura e a Educação do Vaticano, num artigo que escreveu para a UCA News, a propósito da palavra (esperança) com que Leão XIV comentou o cessar-fogo na guerra contra o Irão.

Dizia Spadaro, em jeito de esclarecimento, que algumas pessoas enquadram estes pronunciamentos “como um duelo – Leão versus Trump”. “Esse quadro está errado. É redutor. E, olhando mais de perto, beneficia aqueles que querem retratar o Papa como um rival político a ser derrotado”, sublinhou.

E explicou de imediato que aquilo que realmente está em jogo é “algo completamente diferente: é o Papa a lutar contra a guerra. Não contra um presidente, mas contra uma forma de pensar. Contra a própria ideia que torna a guerra possível”.

O articulista lembrou ainda as palavras do Papa sobre a ameaça de Trump de “obliterar” o Irão e a civilização ligada a este país, considerando que “ameaçar um povo inteiro é inaceitável”. “Estas – notou Antonio Spadaro – não são as palavras de um mediador que enfia cuidadosamente a linha na agulha entre interesses conflituantes. São as palavras de alguém que escolheu um lado – o lado dos inocentes”.

E é de novo a paz e a urgência da sua construção que guia a mais longa viagem papal, que esta segunda-feira, 13, começou na Argélia. “Venho como um irmão”, começou por dizer à chegada à capital, Argel.

Especialmente na visita ao Monumento dos Mártires em Argel, que recorda os mártires da guerra pela independência face à França, onde depositou uma coroa de flores, o líder católico saudou uma multidão calculada em cerca de 5.000 pessoas abrindo com o tradicional As-salamu alaykom! (A paz esteja convosco!).

A violência nunca terá a última palavra

Nesta sua primeira alocução e naquela que é a primeira visita de um Papa à Argélia, Leão enalteceu a hospitalidade e fraternidade do povo “forte e jovem”, como teve a oportunidade de experimentar enquanto religioso, segundo relata o Vatican News.

Referindo-se ao monumento que acabara de visitar, o Papa salientou que a verdadeira luta pela libertação só será definitivamente vencida quando se tiver finalmente conquistado a paz dos corações: “Sei como é difícil perdoar. Todavia, enquanto os conflitos continuam a multiplicar-se em todo o mundo, não se pode acrescentar ressentimento ao ressentimento, de geração em geração”.

“O futuro pertence aos homens e às mulheres de paz. Por fim, a justiça triunfará sempre sobre a injustiça, e a violência, apesar das aparências, nunca terá a última palavra”, disse Leão XIV.

Diante do monumento, o Papa referiu que Deus deseja a paz para todas as nações: uma paz que não é apenas ausência de conflito, mas expressão de justiça e dignidade”. E acrescentou: “Esta paz, que permite enfrentar o futuro com o coração reconciliado, só é possível através do perdão.”

Noutro momento da visita, no discurso perante as autoridades políticas, a sociedade civil e o corpo diplomático, Leão denunciou o tráfico de seres humanos e os novos colonialismos no continente africano: “Há milénios, o mar e o deserto são locais de enriquecimento mútuo entre os povos e as culturas. Ai de nós, se os transformarmos em cemitérios onde morre a esperança! Libertemos do mal estas imensas bacias de história e futuro.”

“Multipliquemos os oásis de paz, denunciemos e eliminemos as causas do desespero, combatamos quem lucra com a desgraça alheia! São ganhos ilícitos os daqueles que especulam com a vida humana, cuja dignidade é inviolável”, acrescentou ainda.

Na terceira etapa da visita, o Papa Leão foi à Grande Mesquita Djama’a al-Kebir, de Argel, onde disse que os crentes de diferentes religiões podem “aprender a respeitar-[se] mutuamente, a viver em harmonia e a construir um mundo de paz”. Perante Mohamed Mamoun Al Qasimi, reitor deste que é o terceiro maior complexo muçulmano do mundo, e na presença do arcebispo de Argel, cardeal Jean-Paul Vesco, o Papa visitou a mesquita durante 10 minutos, depois de ter tirado os sapatos e fazendo um “momento de reflexão silenciosa” diante do miḥrab, o nicho que indica a direcção de Meca, como informou o Vaticano.

No livro de honra, o Papa Leão deixou escrito: “Que a misericórdia do Altíssimo preserve em paz e liberdade o nobre povo argelino e toda a família humana”. E numa curta intervenção improvisada, evocou Santo Agostinho, bispo do século IV, autor das Confissões, que nasceu e morreu no actual território argelino (nessa altura parte do Império Romano) e patrono da ordem a que Prevost pertencia antes de ser Papa: “Buscar Deus e reconhecer também a imagem de Deus em cada criatura, filho de Deus, em cada homem e mulher criados à imagem e semelhança de Deus.”

Texto redigido por 7Margens, ao abrigo da parceria com a Fátima Missionária.

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