O apoio americano a Israel é algo que vem dos anos 1960 e 1970, e foi muito importante na guerra do Yom Kippur. Continua a ser importante para a sobrevivência de Israel na região, sobretudo depois do ataque do Hamas de 7 de outubro, com mais de mil mortos e mais de 200 sequestrados?

Penso que não, porque Israel tem bombas atómicas, aparentemente, e um grau muito elevado de avanço tecnológico e económico. E porque está empenhado em conter o poder iraniano, Israel tem hoje com os Estados Árabes, de facto, muitos interesses comuns. Assim, embora a Arábia Saudita não tenha normalizado oficialmente a situação e alguns outros o tenham feito através dos Acordos de Abraão ou de tratados de paz pré-existentes, Israel está provavelmente mais bem implantado na região do que alguma vez esteve, mesmo com esta última guerra, que está obviamente a causar problemas. Os Estados Unidos da América (EUA) e Israel partilham alguns interesses na região, mas não exageraria a dependência de Israel em relação aos EUA.

Mas estes porta-aviões americanos perto da costa israelita são para que efeito?

Penso que os EUA não querem uma guerra mais alargada. Imagine o que aconteceria se, por exemplo, o Hezbollah atacasse Israel e, presumivelmente, houvesse uma crise com os Houthis, que já tentaram atacar navios no Mar Vermelho e com a marinha iraniana a entrar em ação no Golfo Pérsico. O que aconteceria à Europa se, apesar de não ter petróleo ou gás da Rússia, o fluxo do Médio Oriente fosse subitamente interrompido? O que é que isso faria à economia europeia? O que é que isso faria à economia dos EUA se a Europa enfrentasse uma grande crise energética? Portanto, analisámos todas estas questões e penso que se devem interpretar os porta-aviões americanos no Mediterrâneo como uma tentativa de evitar esse tipo de resultado.

O seu último livro trata da ideia de que não é o lobby judeu que responde pelo apoio dos EUA a Israel. O que explica então este forte apoio da administração Biden a Israel?

Penso que parte disso se deve ao empenho emocional do próprio presidente Biden em relação a Israel, que é algo que tem caracterizado a sua carreira ao longo de muitas décadas. Não é invulgar nos EUA encontrar não judeus que veem em Israel algo de que gostam muito e que querem proteger.

Pode explicar?

Se recuarmos historicamente, vemos que no século XIX muitos americanos do lado liberal do espetro político, de centro-esquerda ou teologicamente mais avançados, olhavam para os três grandes povos do mundo antigo, os gregos, os romanos, os judeus. E viam que, como se lê na poesia grega, a Grécia era abundante, fértil, rica. Lia-se Horácio, e a Itália era fértil. Os romanos eram virtuosos, tinham repúblicas. E lia-se a Bíblia e a terra vertia leite e mel. Os viajantes do século XIX iam a todos os três e viam pobreza, viam opressão, viam um povo que era oprimido. E havia essa ideia entre os americanos de que a América, o novo mundo, fazia parte de um grande movimento da humanidade em direção a uma restauração, até mesmo a um nível mais elevado do que alguma vez tínhamos visto antes. A ideia era que se os gregos, os romanos e os hebreus regressassem ao mundo as suas terras floresceriam. Estas nações oprimidas tornar-se-iam grandes. E toda a gente compreenderia então que a América está certa, que os princípios americanos podem renovar o mundo. Assim, os americanos lutaram na guerra grega pela independência contra os otomanos e depois a unificação italiana foi também uma grande causa nos EUA. E assim tiveram a mesma ideia sobre os judeus regressarem às terras da Bíblia e começarem a cultivar. Então, no final do século XIX, quando um movimento sionista começa a agitar-se entre os judeus, os americanos pensam “ótimo, estão finalmente a descobrir”. E quando eles estabelecem os kibutzim, a irrigação e assim por diante, a terra começa a ficar verde e os judeus começam a chegar. E os judeus, que antes eram considerados fracos e oprimidos, tornam-se fortes e saudáveis e ganham respeito. Muitos americanos viram nisto exatamente uma justificação das ideias americanas.

E quando se olha para Israel atualmente, uma democracia, isso ajuda ao apoio dos EUA?

Penso que a ideia de que Israel é uma democracia ajudou certamente. E também é interessante, porque muitas pessoas pensam em Israel como uma espécie de colónia europeia no Médio Oriente e, por isso, é uma democracia. Os países europeus são uma democracia, portanto, Israel é uma democracia nesse sentido. Mas se olharmos para a demografia de Israel, o maior grupo de judeus israelitas é, na verdade, do Médio Oriente, não são oriundos da Europa. São os descendentes, na sua maioria, de pessoas que foram expulsas dos países árabes nos anos 1940 e 1950 e do Irão. E, por isso, o facto de algumas pessoas olharem para a democracia israelita e dizerem que tem falhas, digo e penso que outros americanos poderão dizer que não pensam em Israel como uma Dinamarca dececionante, mas sim como um Iémen com grandes resultados.

E ser um Estado judeu e uma democracia, mas com 20 por cento de população árabe, também é uma espécie de milagre?

Sim. É perfeito? Não. Mas, certamente, se formos a Israel, encontraremos entre os árabes, entre os árabes israelitas, um vasto leque de opiniões, desde pessoas que se consideram palestinianas e que se identificam com a causa palestiniana, até pessoas que se consideram israelitas árabes e que têm um forte sentimento de ligação ao Estado de Israel. É interessante que quando estavam a ser discutidas algumas negociações sobre as fronteiras de um possível Estado palestiniano, alguns políticos israelitas sugeriram que certas partes de Israel que têm uma maioria árabe fossem unidas ao Estado palestiniano, como parte de trocas territoriais. Houve grandes movimentos de protesto entre esses árabes israelitas porque, de facto, eles queriam ficar. Não querem mudar de Estado. Portanto, mais uma vez, isso não quer dizer que tudo seja perfeito e que não haja tensões. É óbvio que existem.

Qualquer solução para o conflito israelo-palestiniano dependerá dos EUA?

Não tenho tanta certeza, mas certamente de mais ninguém. No entanto, também não sei se os EUA seriam capazes de o fazer. Quando olho para a história destes conflitos e para o meu livro sobre a relação EUA-Israel, o que se verifica é que quase nunca se consegue que um conflito profundo entre duas nacionalidades seja resolvido com base na justiça ou no direito, porque cada lado tem uma visão fundamentalmente diferente dos princípios de justiça que devem ser aplicados. Uma vez, na Roménia, ouvi alguém dizer-me: “Bem, tem de compreender, os magiares são apenas intrusos. Só chegaram cá no século IX d.C”. Cada um tem a sua própria opinião sobre o que está certo ou errado. Olho, por exemplo, para o Azerbaijão e a Arménia. Houve muitas lutas, obviamente, e derramamento de sangue entre arménios e turcos, mas depois a União Soviética impôs estabilidade no Cáucaso. E enquanto a União Soviética existiu, não houve um verdadeiro conflito entre o Azerbaijão e a Arménia. Mas quando esse poder se desvaneceu, quando a União Soviética entrou em colapso, voltámos ao conflito quase imediatamente. Portanto, nesse sentido, se os EUA, se uma potência imperial externa fosse tão poderosa e tão determinada que dissesse: “Muito bem, vamos impor a paz e quem atacar a paz está a atacar-nos e nós responderemos”, então poderíamos imaginar uma potência externa a impor uma paz. Mas, francamente, nem os EUA nem qualquer outro país alguma vez estiveram dispostos ou foram capazes de aceitar essa responsabilidade. E essa é, penso, uma das razões pelas quais nunca vimos um acordo israelo-palestiniano.

Quando as pessoas falam da solução dos dois Estados, é um slogan fácil, mas quando olhamos para a realidade, para o regresso dos refugiados, para o estatuto de Jerusalém, é tudo muito complicado.

É extremamente complicado. Continuo a acreditar que a solução de dois Estados é a solução para o problema. A solução que é mais do interesse dos judeus israelitas e dos árabes palestinianos e que está mais de acordo com os princípios dos EUA, com a Carta das Nações Unidas e tudo o resto. Mas é extremamente difícil de alcançar. Depois pergunta-se: e a solução de um Estado único? Se imaginarmos que, depois do que acabou de acontecer em Gaza, os israelitas aceitariam viver num Estado único com o Hamas, claro que não. Assim, a única coisa que é menos prática do que a solução de dois Estados é a solução de um Estado. Penso que temos de continuar a apontar para uma solução de dois Estados, mas também temos de compreender que a atual guerra a fez recuar consideravelmente. Entre a espécie de fraqueza política da administração palestiniana na Cisjordânia e a franca adesão ao terror por parte do Hamas, não temos, de ambos os lados, um grupo que possa assumir a responsabilidade de construir um Estado palestiniano. Então, como é que vamos daqui até lá? Penso que vai implicar uma nova geração de palestinianos a repensar as suas próprias opções. Vai envolver os países árabes que querem muito entrar na disputa, no interesse da estabilidade regional e do seu próprio desenvolvimento. E penso que, além disso, há potências externas amigas, sejam elas os EUA, os europeus ou outras, que também gostariam de ver esta questão resolvida. Mas não vai ser rápido. Penso que é necessário, e espero que deste conflito surjam os elementos de uma abordagem mais construtiva que possa reabrir o caminho para uma verdadeira solução de dois Estados.

 

Texto: Leonídio Paulo Ferreira, jornalista do DN