Todos os anos, a rede católica procura integrar crianças deslocadas devido à violência. Foto © WHO/Natalie Ridgard

As escolas católicas da diocese de Bunia, no nordeste da República Democrática do Congo (RDC), estão a preparar o regresso às aulas num contexto marcado por uma dupla ameaça: a epidemia de ébola que continua a alastrar pelo país e a violência que há cerca de oito anos desestabiliza a província de Ituri.

O ano letivo deverá começar em toda a RDC a 1 de setembro, mas, em Bunia, é preciso que as escolas consigam reforçar as medidas de prevenção contra o vírus de Bundibugyo, responsável pelo atual surto de ébola. A prioridade é garantir que as crianças possam regressar às aulas sem agravar os riscos sanitários.

Segundo os dados mais recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS), a epidemia de ébola é a maior alguma vez registada na República Democrática do Congo. Até 30 de julho, tinham sido confirmados 3.605 casos e 1.587 mortes no país. O surto, inicialmente concentrado na província de Ituri, já atingiu cinco províncias e 49 zonas de saúde.

Na diocese de Bunia, o padre Willy-Rogatien Dzaringa, coordenador diocesano das escolas católicas, explicou ao Vatican News que estão a ser reforçadas as medidas de prevenção, com a reativação e aumento do número de dispositivos para lavagem das mãos e a disponibilização de termómetros infravermelhos em cada escola.

Foram também designados responsáveis em cada estabelecimento para assegurar a transmissão diária de informação sanitária. A formação dos professores e restante pessoal educativo começou já no ano passado, quando surgiram os primeiros sinais da epidemia, e tem continuado durante as férias escolares.

Equipamento insuficiente

O problema, alerta o responsável, é que os recursos disponíveis estão longe de ser suficientes. “O financiamento para estes dispositivos para a lavagem das mãos, e especialmente para os termómetros infravermelhos, é absolutamente insuficiente”, lamenta o padre Dzaringa, citado pelo portal do Vaticano. Algumas escolas receberam equipamento através de organizações humanitárias, mas a quantidade disponível não responde às necessidades, sobretudo nas zonas rurais.

A sensibilização das famílias é outra das prioridades. A Associação de Pais das Escolas Católicas tem difundido informação através dos diferentes comités escolares, enquanto as paróquias, a rádio diocesana e outros meios locais procuram transmitir às famílias as medidas adotadas para proteger as crianças.

O esforço conta também com o apoio da Cáritas Diocesana, através da sua área de obras médicas.

A situação sanitária ocorre, porém, sobre uma crise humanitária mais antiga. “Durante aproximadamente oito anos, a insegurança, causada pelas diversas vagas de violência que temos vivido, tem desestabilizado as escolas”, explica o coordenador diocesano.

A violência tem provocado sucessivas deslocações de população e obrigado muitas crianças a interromper a frequência escolar. Todos os anos, a rede católica procura integrar crianças deslocadas, mas novos episódios de violência acabam frequentemente por provocar novas deslocações.

“Cada vez que conseguimos integrar um número mais ou menos significativo destas crianças no nosso sistema escolar, acontecem novos episódios de violência, obrigando alguns estudantes a abandonar novamente as suas escolas”, lamenta.

Crianças deslocadas continuam a ser acolhidas

Apesar das dificuldades, a diocese pretende continuar a receber crianças deslocadas nas suas escolas e manter as estruturas destinadas às populações deslocadas, de modo a conseguir uma recuperação mais rápida sempre que as condições de segurança o permitam.

A situação é particularmente preocupante porque o atual surto de ébola ocorre num contexto de deslocações populacionais, insegurança e dificuldades de acesso aos serviços básicos. A OMS alerta que estes fatores aumentam o risco de transmissão, nomeadamente em locais sobrelotados onde vivem pessoas deslocadas internamente. Ataques e problemas de segurança têm também dificultado o trabalho das equipas de resposta.

A OMS e os Centros Africanos de Controlo e Prevenção de Doenças (Africa CDC) apelaram, no início de agosto, a um reforço urgente da resposta comunitária ao surto, incluindo a deteção precoce de casos, o acompanhamento de contactos, o acesso aos cuidados de saúde e o apoio aos profissionais que estão na linha da frente.

Esperança nas vacinas

A população de Ituri deposita também esperança nos ensaios de vacinas contra o vírus de Bundibugyo. Ao contrário de outras formas de ébola, não existe atualmente uma vacina licenciada especificamente contra este vírus, embora estejam em desenvolvimento e avaliação várias opções.

“Estas campanhas de vacinação geram uma grande esperança para toda a população da província de Ituri”, afirma o padre Dzaringa, esperando que os resultados possam contribuir para travar uma epidemia que já provocou milhares de mortes.

O responsável critica, contudo, a distância entre os anúncios de financiamento e a realidade vivida no terreno. Recorda as visitas do ministro da Saúde congolês e de outros membros do Governo, incluindo a primeira-ministra Judith Suminwa, e os anúncios de milhões de dólares destinados à resposta à epidemia.

“Na prática, as coisas não parecem avançar e as pessoas continuam a morrer em grande número”, afirma.

O seu apelo dirige-se ao Governo congolês, à OMS e aos parceiros humanitários internacionais, incluindo a UNICEF: é necessário reforçar os esforços para controlar e erradicar a epidemia, de modo a que as crianças de Bunia possam iniciar e manter o ano letivo 2026-2027.

A urgência é ainda maior pela própria evolução do surto. Na última atualização disponível, a OMS registava 567 novos casos confirmados e 296 mortes numa única semana, os valores semanais mais elevados desde o início da epidemia.

Texto redigido por Clara Raimundo/jornal 7Margens, ao abrigo da parceria com a Fátima Missionária.