O padre João Felgueiras com alunos da Escola Amigos de Jesus, por ele criada. Foto (2015) © Carla Araújo.

Morreu na última sexta-feira, 3 de julho, aos 105 anos, o padre João Felgueiras, jesuíta, um “herói nacional de Timor-Leste”, terra que abraçou em 1971, acompanhando o povo e quem mais precisava de ajuda inclusive durante os anos da violenta ocupação indonésia (1975-1999).  “Padre João, se o Senhor Padre João não entrar no céu… ninguém mais lá poderá́ entrar!” – disse à sua cabeceira o então superior dos jesuítas, padre timorense Joaquim Sarmento, quando João Felgueiras esteve, há anos, internado no Hospital Nacional Guido Valadares. Uma verdade que qualquer timorense, qualquer pessoa que com ele tenha convivido, partilharia.

“Para uns considerado um pai, para outros o companheiro fiel que ficou ao lado do povo quando a guerra e a violência se instalaram, o padre João Felgueiras foi uma figura incontornável da história de Timor-Leste. Foi formador de seminaristas, capelão de doentes e presos, orientador e formador de jovens e refúgio dos mais frágeis. “Foi no apoio direto à população que procurava sobreviver à ocupação indonésia, desencadeada em 1975, que se destacou entre a população (…)” – lê-se na notícia publicada pelo Ponto SJ, o órgão dos jesuítas portugueses.

João de Vasconcelos Baptista Felgueiras descende de uma família da nobreza rural das Caldas das Taipas, Braga. Oitavo de nove filhos, João ficou sem pai quando tinha seis anos. Aos 21, ingressou no noviciado da Companhia de Jesus e fez os seus primeiros votos em 1944. Depois de estudar Filosofia e Teologia, foi ordenado padre no dia 30 de julho de 1950. Foi diretor espiritual no Seminário Menor da Companhia de Jesus e, entre 1967 e 1968, reitor do Seminário Menor da Imaculada Conceição (Cernache). No dia 22 de janeiro de 1971, partiu para Timor-Leste, onde também dedicou a sua vida à educação e à língua portuguesa.

“O padre João deu tudo o que podia dar” à Igreja de Timor, disse ao 7Margens em 2021 o arcebispo de Díli, o cardeal Virgílio do Carmo Silva: “O seu amor por Timor é de tal maneira incomensurável que, até além da vida sacrificada, não a poupou na defesa dos direitos dos timorenses à independência e no apoio dado à resistência armada no interior deste território. Com coragem abraçou a cruz que lhe foi atribuída (…) e por fim escolheu concluir a sua vida neste território timorense.”

Em Timor-Leste. O padre João Felgueiras apoiou a formação de seminaristas, foi capelão de doentes e presos, orientador e formador de jovens e refúgio dos mais frágeis. Criou também a Escola Amigos de Jesus, iniciada com um movimento debaixo das árvores em Lahane e culminando na sua institucionalização como uma escola formal.

Testemunhos e encontros

Dele disse o constitucionalista Pedro Bacelar Vasconcelos ao 7MARGENS, após uma visita concretizada em 2024 em que encontrou “aquela figura frágil e imponente do alto dos seus 103 anos completos”: “É impressionante a energia que mantém este homem de pé. Inquieto, procura refazer os antecedentes do nosso reencontro. Afável, partilha as dores de familiares perdidos, as memórias de amigos comuns e de lugares distantes. (…) Mas foi da vida que falámos, serenamente. Das carências, da resignação, dos projetos, da esperança. E não me deixou sair sem eu lhe garantir que iria visitar a obra educativa mais recente, onde acolhem mais de um milhar de crianças e jovens timorenses, construída com teimosa determinação e a ajuda de inúmeros beneméritos: a Escola Amigos de Jesus.”

Em 2021, falando a este jornal, o padre Joaquim Sarmento referia-o como: “Homem santo, que só́ abre a boca para falar de Deus e dos valores mais sublimes. Cada conversa é uma expressão autêntica de uma profunda devoção, um tratado sobre a vida espiritual, uma rica interioridade vivida com intensidade e detalhes, um reconhecimento honesto e humilde do amor de Deus.”

Já antes, em 1993, no Timor-Leste ocupado, o repórter Adelino Gomes o tinha clandestinamente entrevistado para o jornal Público. Entrevista que Adelino Gomes descreveu assim, uns anos depois: “Sentado, de olhos meio fechados, voz sussurrada, fala para o microfone que lhe estendo.  E diz: ‘Quero dizer a Mário Soares, a Durão Barroso, aos outros ministros: Como podemos abandonar milhares de timorenses? (…) Portugal devia ser mais forte. O Governo parece pedir por favor, quando fala do caso. (…) Que o Governo jamais reconheça a integração na Indonésia. (…) A Indonésia foi condenada [pelo Conselho de Segurança] em 1975. Podemos admitir que o criminoso seja compensado? Não teríamos feito tanto quanto este povo fez, se tivéssemos sido invadidos por espanhóis ou franceses. Nem teríamos vivido com tão profunda fé esta experiência histórica.”

Em 2014 é a vez do Papa Francisco visitar o território. Feliz com as inúmeras crianças e jovens sorridentes que encontra por onde quer que passe, ao entrar no salão da nunciatura de Díli, em Timor-Leste, na manhã de terça-feira, 10 de setembro, a primeira coisa que fez foi abraçar o padre João Felgueiras. Assim que chegou, dirigiu-se imediatamente a ele: “Agradeceu-lhe e abraçou-o. O padre João estava muito emocionado”, contou o padre jesuíta Nuno da Silva Gonçalves, diretor da revista La Civiltà Cattolica e membro da comitiva papal nessa viagem ao Sudeste Asiático e Oceânia.

O padre João Felgueiras recebeu em 2002 do Presidente da República Portuguesa, Jorge Sampaio, o grau de Grande Oficial da Ordem da Liberdade, e em 2016 do Presidente da República Democrática de Timor-Leste, Taur Matan Ruak, a Medalha de Mérito. Já em 2022, Marcelo Rebelo de Sousa distinguiu-o novamente, desta feita com a Grã-Cruz da Ordem de Camões. O funeral decorei na última. segunda-feira, dia 6 de julho, na catedral de Dili. Citando Adelino Gomes: “Pelo exemplo, pela tenacidade, e pela inspiração, obrigado barak, padre João Felgueiras.”

Texto redigido por Jorge Wemans/jornal 7Margens, ao abrigo da parceria com a Fátima Missionária.

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