A Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Braga defendeu este mês que o descanso e as férias não devem ser entendidos como um luxo ou uma mera interrupção do trabalho, mas como um direito essencial à dignidade humana e uma “questão de justiça”.

Numa mensagem intitulada Férias: descanso, justiça e recomposição da vida, o organismo arquidiocesano recorda que o tempo de descanso permite recuperar espaços tantas vezes sacrificados pela pressão laboral: a família, a amizade, a cultura, a natureza, o silêncio, a oração, o cuidado e a interioridade.

“Num tempo marcado pela pressa, pela produtividade e pela pressão permanente, importa afirmar com clareza: a pessoa é mais importante do que o trabalho”, sublinha a Comissão no texto enviado ao 7Margens, reconhecendo, ao mesmo tempo, o trabalho como uma dimensão essencial da realização humana, da participação social e da independência económica.

A mensagem cita a encíclica Magnifica humanitas, publicada por Leão XIV a 15 de maio, na qual o Papa afirma que o trabalho “não é um mero instrumento”, mas “expressa e enriquece a dignidade da nossa vida”. Precisamente por isso, sustenta a Comissão, o trabalho “não pode absorver toda a existência”: quando ocupa um lugar excessivo, ficam feridas a dignidade pessoal, a vida familiar e a própria qualidade da sociedade.

Um direito conquistado pelos trabalhadores

O organismo da Arquidiocese de Braga lembra ainda que as férias remuneradas, o descanso semanal e a redução dos horários de trabalho não surgiram espontaneamente nem resultaram de uma “concessão generosa dos poderes económicos ou políticos”, tendo sido conquistados através da luta persistente dos trabalhadores.

“Estas conquistas sociais devem ser protegidas, valorizadas e tornadas efetivas para todos”, apela a Comissão, convocando também a Constituição Pastoral Gaudium et spes, do Concílio Vaticano II, e a encíclica Laborem exercens, de João Paulo II, para sustentar que o repouso pertence à dignidade do trabalhador e à justiça das relações sociais.

O descanso, acrescenta ainda o texto, não protege apenas cada pessoa individualmente. Protege também as famílias, a educação dos mais novos e a vida em sociedade. As férias podem, por isso, tornar-se um tempo em que “a presença volta a ter lugar”, através da mesa partilhada, da conversa sem pressa, da visita a quem está sozinho, do encontro com os amigos ou do cuidado dos mais frágeis, sugere o organismo católico.

Para os cristãos, esta necessidade de parar encontra uma expressão regular no domingo, entendido não apenas como um dia sem trabalho, mas como tempo de escuta da Palavra, celebração da Eucaristia, encontro comunitário, vida familiar e atenção aos outros.

Mas a mensagem alarga o olhar a outras tradições religiosas, numa sociedade plural e multicultural. O sabbath judaico, a oração quotidiana e semanal dos muçulmanos ou a meditação budista são  igualmente apresentados como exemplos de práticas que interrompem “a lógica da pressa e da produção” e recordam a necessidade humana de silêncio, gratuidade e contemplação.

Perante vidas cada vez mais saturadas de ruído, notificações e urgências, a Comissão Justiça e Paz de Braga propõe ainda que as férias sejam aproveitadas para uma “verdadeira higiene da atenção”, com espaço para o silêncio, a leitura, o estudo aprofundado e o debate ponderado.

“Defender as férias, o descanso semanal e, para os cristãos, a vivência plena do domingo é defender a dignidade humana”, conclui a mensagem. “É afirmar que a economia deve estar ao serviço da pessoa, e não a pessoa ao serviço da economia.”

Texto redigido por 7Margens, ao abrigo da parceria com a Fátima Missionária.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *