Ilustração: David Oliveira | Texto: Teresa Carvalho

Carlinhos não nasceu num berço de ouro: a sua realidade era bem distinta. Não só porque não sabia o que era conforto e cuidados, mas sobretudo, porque só em dias muito especiais, distantes no tempo, conseguia acender a esperança de que talvez o pai e a mãe gostassem dele. Do que Carlinhos se lembra e guarda com maior ternura, é dos chamamentos da mãe, em tom arrastado, e da sua corrida a corresponder-lhe:
– Anda cá, meu filhote lindo, vem ao colinho da mãe.
Carlinhos lembra-se de ficar ali no colo, quase imóvel, a receber beijinhos, mesmo que viesse sempre aquele cheiro parecido ao da garrafa que o pai e a mãe costumavam usar para matar a sede.
Queria que aquele momento não acabasse nunca. A mãe dizia coisas tão bonitas… e até adormecia com ele ao colo.

Depois vieram lá a casa umas senhoras e levaram-no para uma casa onde havia outros meninos. E foi aí que cresceu. Cresceu tanto que até já sabe ler e escrever.
E agora, nos dias em que se encontra com a mãe, que só pode ser quando ela não tem aquele cheiro igual ao da garrafa, a mãe não consegue dizer-lhe aquelas coisas lindas de que ele tem tantas saudades: meu filhote lindo, és o querido da mamã… mas não faz mal, porque a mamã passa-lhe a mão na cabeça, e faz-lhe massagens na mão. Carlinhos fica tão aconchegadinho e quietinho, a fingir estar no colinho da mamã, a sentir tudo, sem perder nada. Era o máximo que podia ter!
Um dia, disseram-lhe que estavam a procurar uma outra família para ele, como aconteceu com a Sarita e com o António, seus amigos lá do colégio. Será que alguém o quereria? Gostariam dele? E se não gostassem?

Num outro canto do universo, Bruno fora embalado e aprendera, desde menino, aquilo a que ele chamava o milagre maior chamado amor, e sonhava poder partilhá-lo com alguém que precisasse dele. Depois de quatro anos de candidatura a adoção, teve a feliz notícia: foi selecionado para ser pai de um menino de sete anos.
O dia do encontro entre ambos teve tons de magia. Bruno não sabe descrever, porque suplanta todas as emoções até aí experimentadas ou até sonhadas, mas Carlinhos explica bem: “É como se eu já gostasse dele desde sempre!”

Bruno não conseguiu dormir na primeira noite em que Carlinhos ficou aos seus cuidados no hotel. Passou a noite a ver a sua respiração, os movimentos durante o sono, a cobri-lo quando se destapava, a sonhar um futuro a dois, absorto com a felicidade e responsabilidade de lhe ter sido confiada a vida deste menino que aceitara ser seu filho, e com quem sentia existir já uma ligação tão especial, capaz de mudar para sempre o seu universo.

Ao acordar, a primeira visão de Carlinhos foram os olhos de Bruno a sorrirem para si, com brilho de encantamento. Saltou-lhe para o colo e acomodou-se num abracinho sem fim… confessando de mansinho ao ouvido: abafaste-me com o teu cobertor! Eu vi, quando estava a dormir! Obrigado, Papá!
Era o milagre maior a acontecer também na vida de Carlinhos. E ele, atento a cada sinal, a cada pormenor, retribuía extasiado, com toda a sua ternura de menino feliz.
O caminho a dois acabara de ser inaugurado, aberto a todas as possibilidades que ambos queriam e haveriam de construir, embrulhados no milagre maior que os protegerá de qualquer intempérie!

 

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