Laura Fernández, candidata da direita, ganhou as eleições presidenciais costa-riquenhas de 1 de fevereiro com 48,3 por cento dos votos, ultrapassando a fasquia dos 40 por cento o que lhe permitiu evitar uma segunda volta, segundo a lei nacional. O segundo candidato mais votado foi o social-democrata Álvaro Ramos, com 33,5 por cento. No discurso de vitória, Fernández prometeu ser fiel ao legado do presidente cessante Rodrigo Chaves e lutar contra a criminalidade violenta, que está a aumentar naquele país, considerado um dos mais estáveis da América Latina. Também falou de uma terceira república, uma ideia herdada de Chaves, e que pode passar por uma revisão da Constituição de alcance incerto.
Com apenas 39 anos, Fernández é um caso de ascensão política meteórica. Nascida em Puntarenas, na costa do Pacífico, estudou ciência política na Universidade da Costa Rica e era funcionária pública até o presidente Chaves apostar nela em 2022 e entregar-lhe pastas ministeriais, a última das quais foi de ministra da presidência. Os rivais especulam que Chaves vai estar nos bastidores a gerir o país, e que a possível revisão constitucional pode incluir o fim da interdição de mandatos consecutivos para se ser presidente.
Mas não são só as críticas de excessiva dependência de Chaves que se fazem ouvir. Fernández é também atacada pela sua intenção de construir uma prisão de alta segurança inspirada na que o presidente Nayib Bukele ergueu em El Salvador. A promessa de mão dura com a criminalidade organizada é, porém, uma das explicações da sua vitória nas presidenciais, e também o seu partido, o Partido do Povo Soberano, venceu facilmente as legislativas realizadas no mesmo dia.
O número de gangues explodiu nos últimos anos, a taxa de homicídio tem subido, e o governo está a ser pressionado para dar uma resposta eficaz aos grupos envolvidos no narcotráfico. O sucesso de Bukele em El Salvador – que passou de país com a pior taxa de homicídios nas Américas para aquele com a melhor, permitindo finalmente a aposta bem sucedida no turismo – é sedutor para outros governantes, mesmo que na Costa Rica a situação nunca tenha atingido os extremos salvadorenhos.
Tradicionalmente a Costa Rica é descrita como um país excecional numa América Central com um passado de guerras civis, ditaduras e criminalidade. Visitado pela primeira vez pelos europeus em 1502, quando na sua quarta viagem às Américas Cristóvão Colombo lá esteve, a colonização pelos espanhóis demorou ainda meio século por causa da hostilidade das populações indígenas e também ausência de minas de ouro e prata. No século XIX, quando se deu o ciclo de revoltas contra a Espanha, a Costa Rica integrou de início, em 1821, o Império Mexicano, depois a Federação da América Central (juntamente com Honduras, Nicarágua, El Salvador e Guatemala) e por fim, em 1838, obteve a sua própria independência.
Com a introdução do café e da banana, o país passou a ter uma agricultura próspera, virada para a exportação. Mas ao fim de um século de independência, uma curta mas sangrenta guerra civil, em 1948, mergulhou o país numa onda de violência que, assim que terminada, levou a uma decisão rara, a extinção das forças armadas.
Com a Constituição de 1949, nasceu a Segunda República agora em teoria posta em causa. Mas diga-se que tem sido uma Segunda República bem sucedida, mesmo com a degradação securitária dos anos mais recentes, que ameaça afetar a imagem internacional do país e prejudicar o setor turístico, muito popular pela aposta no ecoturismo, aproveitando uma natureza exuberante.
“Vamos continuar a fazer rugir a nossa economia jaguar”, prometeu a presidente eleita ao ainda presidente Chaves, numa referência ao felino que habita as florestas tropicais do país, mas também à taxa de crescimento de 4,2 por cento do Produto Interno Bruto em 2025. A economia é um dos pontos fortes da Costa Rica, que começou por ser exportadora de produtos agrícolas (e ainda hoje se veem nos mercados das grandes cidades europeias e norte-americanas os ananases e as bananas oriundos do país), mas diversificou e agora vende para fora produtos médicos, tecnológicos e outros bens manufaturados. E, claro, tem no turismo um ponto forte, pois em 2024 recebeu 2,7 milhões de visitantes. A Costa Rica é desde 2021 membro da OCDE, muitas vezes descrita como o grupo dos países mais desenvolvidos. E tem os Estados Unidos da América (EUA) como principal parceiro comercial.
O ex-presidente Oscar Arias, que em 1987 recebeu o Prémio Nobel da Paz por ajudar a pôr fim à guerra noutros países da América Central, tem sido das vozes mais críticas da dupla Fernández/Chaves, dizendo que os ditadores começam por se revelar quando querem mudar a Constituição. “Não à ditadura”, foi a resposta de Chaves, enquanto Fernández se declarou “uma democrata convicta”.
No discurso de vitória, a nova presidente, além de agradecer a Deus, comprometeu-se com a defesa do Estado de Direito e tudo ir fazer por “uma Costa Rica mais próspera e justa”. Desafiado a cooperar, o candidato derrotado, o social-democrata Ramos, do Partido da Libertação Nacional, desejou a Fernández “que Deus lhe dê muita sabedoria para governar”, e que a oposição decidirá em função das propostas feitas.
A tradição de um só mandato presidencial é antiga na América Latina, basta ver o caso do México, que não admite sequer mandatos não consecutivos. Noutros casos, como o Chile, já houve situações em que um presidente saiu no final do primeiro mandato, e mais tarde voltou, cumprindo um segundo mandato, mas não consecutivo. Mas em vários países, foram feitas mudanças constitucionais para permitir dois mandatos consecutivos (como nos EUA), o que por vezes gerou suspeitas de tentativa de eternização no poder.
O ainda presidente Chaves é hoje um político popular, apesar de alguns problemas com a justiça, e tendo 64 anos é difícil para muitos costa-riquenhos imaginar este doutorado em economia por uma universidade dos EUA afastar-se por completo dos destinos do país.
Por seu lado, Fernández, católica convicta, que foi à missa no dia da eleição, terá de afirmar a sua liderança mesmo que seguindo a linha do antecessor. A seu favor, no atual contexto geopolítico das Américas, joga a boa relação da Costa Rica com os EUA, tendo em conta que o presidente Donald Trump, interpretando à sua maneira a Doutrina Monroe, quer o chamado hemisfério ocidental dentro da sua área de influência.
Chaves foi um dos presidentes, juntamente com os de El Salvador e do Panamá, a negociar com
Trump a possibilidade de receber, enquanto escala, imigrantes ilegais extraditados dos EUA.
A sintonia do seu partido com as ideias de Trump é também outro dos motivos para algumas vozes criticarem esta que é a segunda mulher presidente da Costa Rica, que terá agora de provar o seu compromisso com a democracia e com a busca de prosperidade e justiça social num país que, apesar de problemas como a crescente criminalidade, continua a ser um caso de sucesso.
Texto: Leonídio Paulo Ferreira, jornalista do DN








