Ecrã exibe informações sobre a bolsa de valores em Xangai. Orçamento de defesa da China é muito superior ao do Japão | Foto: Lusa

Sanae Takaichi, no poder desde outubro de 2025, é a primeira mulher a chefiar um governo japonês. É também uma discípula do falecido Shinzo Abe, que foi o primeiro chefe de governo a insistir na necessidade urgente de rearmamento do Japão, apesar do pacifismo inscrito na Constituição pós-1945. A lei fundamental foi imposta pelos Estados Unidos da América (EUA), que ganharam a Segunda Guerra Mundial e ocuparam o arquipélago, depois de lançar as bombas atómicas sobre Hiroxima e Nagasáqui.

Agora, com Donald Trump como presidente americano, o Japão, que se tornou depois de 1945 um aliado dos EUA, é mesmo incentivado a gastar mais em defesa, para conter a ascensão da China, e a primeira-
-ministra sente-se reconfortada nas suas convicções. E provavelmente não foi uma coincidência que dias depois de receber Trump em Tóquio, Takaichi tenha declarado no parlamento que um eventual ataque chinês a Taiwan poderia trazer perigos para o Japão e obrigar a uma intervenção armada. Claro, a reação chinesa foi imediata, com o Japão a ser acusado de estar “a brincar com o fogo”.

A ultrassensibilidade chinesa tem que ver mais com o estatuto de Taiwan do que com um eventual militarismo japonês, pois o orçamento de defesa da China é muito superior ao do Japão. O próprio PIB chinês, que ultrapassou o japonês em 2010, é atualmente quatro vezes superior.

O que irritou Pequim foi Tóquio ameaçar vir em socorro da ilha que desde 1949 se comporta como uma província chinesa rebelde. Derrotados na guerra civil chinesa, os nacionalistas refugiaram-se em Taiwan e mantiveram aí a República da China, que um dia pretendia contra-atacar e derrotar os comunistas na República Popular da China. Com o tempo, Taiwan foi ganhando identidade própria e a preferir o status quo a qualquer ideia de reunificação.

Mas em Pequim a intenção do presidente Xi Jinping é de uma reunificação a bem ou a mal e qualquer promessa de ajuda a projetos independentistas é vista como ofensiva. Geralmente são os EUA os criticados por apoiarem Taiwan, desta vez foi o Japão. O mesmo Japão que quando se modernizou na segunda metade do século XIX, teve uma guerra com a China em 1895 que ganhou e lhe deu Taiwan como colónia. Só com a derrota japonesa na Segunda Guerra Mundial, os exércitos japoneses, que ocupavam também parte da China Continental, abandonaram Taiwan.

Takaichi segue a linha de Abe, mas está longe de ser uma voz isolada sobre a necessidade de contrariar a China. Como explicava o historiador britânico Christopher Harding, “havia a esperança, talvez há uns dez anos, de que a China e o Japão pudessem ser não só fortes parceiros comerciais, o que de facto são, mas mais do que isso. A China e o Japão realizam atualmente cerca de 300 mil milhões de dólares em comércio bilateral anualmente. Portanto, existe uma relação económica muito importante. Mas, há uma década, creio que havia a expetativa de que a China e o Japão também pudessem ser parceiros políticos na Ásia Oriental, que quase pudessem governar a região em conjunto com os países mais pequenos. Acho que isso parece agora muito improvável. Creio que o que as pessoas no Japão pensam agora é que a China, por si só, irá controlar a Ásia. Talvez não como potência imperial, mas certamente com o seu poderio militar e económico a dominar o resto da Ásia. Assim, para a opinião pública no Japão, é cada vez mais aceitável que o Japão gaste mais em defesa e que as forças de autodefesa japonesas tenham um pouco mais de liberdade sobre a forma como podem operar. E penso que foi isso que preocupou os chineses recentemente, quando a primeira-ministra Takaichi fez os seus comentários sobre Taiwan. Na China, não querem realmente que os japoneses deem qualquer tipo de apoio moral aos ativistas pró-independência em Taiwan”.

Ora, apesar de a tensão sino-nipónica ter acalmado, Taiwan é mesmo um potencial rastilho de uma guerra alargada na Ásia, e por isso exige cautelas tanto aos seus governantes, procurando não provocar a China, como às potências aliadas, não parecendo que instigam a rebelião da ilha.

Robert D. Kaplan, repórter e ensaísta americano, em entrevista recente fez um claro alerta: “Todos podemos discutir sobre a guerra na Ucrânia. Todos podemos discutir e argumentar sobre a guerra em Gaza. Mas essas guerras não mudaram o nosso mundo da forma que uma guerra no Pacífico mudaria. Lembre-se, a Primeira Guerra Mundial mudou o mundo. As pessoas não eram as mesmas depois dela. Deixe-me explicar melhor: a guerra na Ucrânia continua há quase quatro anos, mas não afetou muito as contas bancárias das pessoas. Quando as pessoas olham para as suas poupanças e para os seus investimentos, não mudou nada. O mesmo acontece com a guerra em Gaza. Não mudou nada. Mas se tivéssemos uma guerra no Pacífico entre as duas ou as três maiores economias do mundo, e falo dos EUA, da China e do Japão, por causa de Taiwan, ou por causa do Mar do Sul da China, o que for, as pessoas olhariam para as suas contas bancárias, para os seus investimentos, e veriam uma queda dramática. Os mercados financeiros mundiais incorporaram o impacto das guerras na Ucrânia e em Gaza. Mas não poderiam fazer o mesmo para uma guerra no Pacífico. Isso mudaria o nosso mundo. Os mercados iriam declinar dramaticamente. E os bancos centrais não teriam os meios para corrigir. Porquê isso? Porque teríamos uma guerra entre as duas ou as três maiores economias do mundo. Os EUA, a China e o Japão são as maiores economias”.

Takaichi, que chegou a primeira–ministra depois da demissão de Shigeru Ishiba, por ser a nova líder do Partido Liberal Democrata, anunciou agora que pretende organizar eleições antecipadas no Japão em fevereiro. Será um teste à sua popularidade, e também às políticas de investimento público para estimular a economia e de reforço dos gastos em defesa. A tensão com a China parece, entretanto, ter mesmo baixado, mas isso não significa que os japoneses, sem se terem tornado belicistas, não desejem hoje umas forças armadas que possam dissuadir eventuais ameaças chinesas. E também servir de dissuasão à Coreia do Norte, um vizinho sempre hostil e imprevisível.

As relações entre China e Japão têm pelo menos dois mil anos, e o mais antigo documento a referir o Japão data da dinastia Han. Ao longo dos séculos, a civilização chinesa foi influenciando a japonesa, mas houve momentos de choque, como quando os mongóis, que dominavam a China, tentaram invadir o Japão, no século XIII. Ou quando no século XVI, o Japão tentou conquistar a Coreia e teve de enfrentar a China da dinastia Ming. Depois, entre 1895 e 1945, sucederam-se as guerras que ainda hoje envenenam as relações sino-japonesas.

Texto: Leonídio Paulo Ferreira, jornalista do DN

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