Venerado por hindus, budistas, jainistas e seguidores da tradição bön, o monte Kailash é um dos lugares mais sagrados dos Himalaias. A tragédia que atingiu o Nepal e o Tibete na última semana afetou várias localidades da rota de peregrinação até à montanha, numa região particularmente vulnerável ao aquecimento global.
De facto, entre as zonas afetadas pela enxurrada de lama e detritos, desencadeada na quarta-feira, 26 de agosto, pelo colapso de um glaciar a mais de 5.000 metros de altitude encontra-se Syabrubesi, que é ponto de partida de vários percursos de montanha e de peregrinações em direção ao Kailash. E, entre as centenas de mortos e milhares de desaparecidos, mais de cem seriam peregrinos.
A região ganha particular importância nesta altura do ano, quando milhares de pessoas percorrem a rota de peregrinação antes do encerramento sazonal da fronteira chinesa. E, como assinala o jornal La Croix, este ano a afluência seria ainda maior: é que, segundo o calendário zodiacal tibetano, 2026 é o “ano do Cavalo”, considerado especialmente favorável à peregrinação. E, de acordo com a tradição, uma volta ao Kailash realizada agora teria um mérito espiritual equivalente a 13 voltas num ano normal.
A montanha sagrada para quatro religiões
Com 6.638 metros de altitude, o Kailash é venerado por diferentes tradições religiosas. Para os hindus, é a morada dos deuses Shiva e Parvati. Para os budistas tibetanos, está associado a Chenresig, manifestação da compaixão. Os jainistas acreditam que Rishabhanatha, o primeiro dos 24 mestres da sua tradição, alcançou ali a iluminação. Já a tradição bön, anterior ao budismo tibetano, vê na montanha um símbolo da alma.
Nas proximidades encontram-se os lagos Manasarovar e Rakshastal, igualmente sagrados. A região é também uma das grandes reservas de água da Ásia, estando nas proximidades as nascentes de rios como o Indo, o Sutlej, o Brahmaputra e o Karnali.
O próprio percurso de peregrinação é carregado de significado. A circum-ambulação do Kailash, chamada kora pelos budistas e yatra pelos hindus, percorre cerca de 52 quilómetros e demora normalmente três dias. O ponto mais elevado é o passo de Drolma La, a 5.636 metros de altitude.
Hindus e budistas fazem o percurso no sentido dos ponteiros do relógio, enquanto seguidores do bön e jainistas caminham no sentido contrário. Alguns peregrinos realizam toda a viagem prostrando-se no chão a cada três passos, num ritual que pode prolongar a caminhada por quase um mês.
Segundo a tradição budista, uma única volta à montanha pode apagar os pecados de uma vida inteira. Já 108 circum-ambulações abririam o caminho para o nirvana, um estado de paz, liberdade, e felicidade plenas.
A passagem pelo lago Manasarovar é também uma etapa importante. Os hindus mergulham tradicionalmente nas suas águas, enquanto os budistas costumam beber um pouco delas.
O caminho difícil – e vulnerável – até ao sagrado
Seja como for, chegar ao Kailash é sempre uma viagem exigente. Peregrinos provenientes da Índia e do Nepal passam por localidades como Simikot e Hilsa, atravessam a fronteira e seguem depois para Purang e Darchen, onde começa o circuito em torno da montanha.
A fronteira chinesa é sujeita a controlos rigorosos e, antes de iniciarem a caminhada, os peregrinos precisam de se adaptar à altitude, tendo em conta que Darchen se situa já a cerca de 4.575 metros.
A catástrofe atingiu precisamente vários destes pontos de passagem, nuns Himalaias cada vez mais marcados pelo aquecimento global. O recuo dos glaciares e a alteração dos padrões de precipitação aumentam o risco de cheias repentinas nesta região, deslizamentos de terras e formação de lagos instáveis nas zonas de montanha.
Ao mesmo tempo, a peregrinação ao Kailash tem vindo a crescer, aumentando a circulação de pessoas numa zona remota e particularmente exposta aos riscos naturais.
A catástrofe coloca, por isso, uma questão que ultrapassa a emergência atual: como continuar a garantir o acesso a um dos grandes lugares sagrados da Ásia num território cuja própria geografia está a ser transformada pelas alterações climáticas?
Para as comunidades religiosas que todos os anos percorrem o caminho até ao Kailash, a montanha permanece um lugar de peregrinação e oração. Mas a tragédia destes dias lembra que mesmo os lugares que há séculos são considerados sagrados não estão imunes às profundas transformações que atingem o planeta, e que a sua preservação passa também pela proteção dos frágeis ecossistemas que os rodeiam.
Texto redigido por Clara Raimundo/jornal 7Margens, ao abrigo da parceria com a Fátima Missionária.








