Há livros que depressa ficam desatualizados e há aqueles que nunca perdem atualidade. Memórias Missionárias em Cabo Delgado, de D. Luiz Fernando Lisboa, pertence ao segundo grupo. Primeiro, porque a vocação à missão não é de ontem, de hoje ou de amanhã, mas de sempre. Segundo, porque o testemunho de vida e missão de quem tem gastado a sua vida assim fala mais do que muita teologia sobre o assunto. Terceiro, porque a situação social e política de Cabo Delgado (Moçambique) permanece inalterada, sem que se vislumbrem progressos reais para uma paz que humanize e que respeite a dignidade daquele povo.
Luiz Fernando Lisboa revela ao leitor de que forma o ardor missionário habita o seu coração desde cedo, sendo belo perceber o percurso que o leva até Moçambique. Ali chegado, não se vê como um missionário que chega para ensinar, mandar e decidir. Tampouco está ali para dar bens materiais e ir embora. Num dos primeiros encontros que ele tem na Missão de Metoro, há quem lhe pergunte quando chegará a hora da distribuição de coisas a que eles estavam habituados há anos. “Nós não viemos aqui para dar coisas (…); nós viemos aqui para estar com vocês, para rezar com vocês, para trabalharmos juntos, para a evangelização e, enfim, para participar do cotidiano de vocês” (página 58). Chegava até junto daquela gente um novo modo de missão, que começaram por estranhar, mas que se revelou essencial para todo o trabalho desenvolvido, pois, como afirma o autor do livro, “a Igreja moçambicana, se ela existe e está de pé, é graças aos leigos e leigas” (58). O protagonismo dos leigos na Igreja Católica, de que tanto se fala, tem em Moçambique sólidas raízes. Durante a leitura destas memórias, muitas foram as vezes em que senti que a Europa tem muito a aprender com África, no que respeita a este assunto, algo que se traduz em responsabilidade e liderança e não em vaidade ou promoção de egos.
O fervor missionário deste bispo brasileiro não deixa o leitor indiferente e ele revela-nos que o segredo da missão e/ou de qualquer relação de um padre com a sua comunidade passa por conhecer, escutar e aprender com as pessoas “para depois saber como ajudá-las, a partir das suas realidades, das suas necessidades” (63). Não se trata, então, de oferecer coisas, por mais necessárias que sejam, mas de ajudar a entender que juntos podem e devem lutar por aquilo que faz falta e que é de cada qual por direito.
Quando, nos dias de hoje, vemos e ouvimos falar tanto de “empoderamento” feminino, D. Luiz define-o com grande precisão ao escrever que essa capacitação de uma mulher “é lembrar de que você não vai deixar de ser uma mulher moçambicana (…) não vai abandonar a sua cultura, mas vai acrescentar a tudo isso, a fim de ajudar sua família e as outras mulheres” (76). Esta ideia defendida pelos missionários passionistas marcava a diferença, pois, numa região onde só existiam catequistas homens, por exemplo, as mulheres foram compreendendo que não existem lugares para elas e outros para os homens, pois todos os lugares e ministérios pertencem a ambos.
Por outro lado, quando se julga que uma missão se resume à pregação, a partir da experiência do então padre Luiz, temos a demonstração de que o trabalho social e cultural é crucial, pois ele foi “percebendo que o povo ainda não estava livre. Era necessário que ele encontrasse caminhos para reivindicar seus direitos, maior participação nos destinos da nação” (79). Aquela gente tinha de entender que era preciso fazer mais e, para tal, necessitava de possuir conhecimento que lhe era vedado. Nesse sentido, Luiz Lisboa organizou vários momentos de formação de lideranças e não só, a fim de que existisse também formação em Cidadania a partir da Constituição do país e da Declaração Universal dos Direitos Humanos, entre outros documentos. Ele acreditou que só assim cada qual poderia ver o outro como irmão e entender que “ninguém é superior a ninguém” (96).
Viajando pelas páginas do livro, é possível vislumbrar um pastor sereno, amigo e justo, que colocou o bem do povo confiado à sua guarda acima do seu bem-estar e conforto. Ele foi o rosto e a voz de um povo massacrado e martirizado, que não baixou a guarda perante as injustiças e atrocidades, mas denunciou-as corajosamente. Foi assim como padre e mais ainda como bispo de Pemba.
Se a província de Cabo Delgado ainda vai sendo falada atualmente, deve-o muito a este homem, feito bispo por Francisco e, muito possivelmente, também salvo por ele, já que muitos queriam a sua voz incómoda silenciada.
Ler as memórias de D. Luiz Lisboa é percorrer os anos da sua infância e juventude, é observar os passos que foi dando na concretização da sua vocação, é ver o padre que ficou incrédulo com a nomeação de bispo – “eu quase caí das pernas” (117) – e é testemunhar a humanidade que coloca em tudo o que faz e naquilo que é. [ver outro texto no 7Margens]
Memórias Missionárias em Cabo Delgado

Autor: Luiz Fernando Lisboa
Organização e estudos: Patricia Teixeira Santos, Nuno de Pinho Falcão, Keith Valéria Barbosa, Camila Castro de Souza
Edições CNBB [Conferência Nacional dos Bispos do Brasil].
Brasília, 2025, 216 páginas.
Texto: Adriano Batista, professor.








