Padre Marcelo Oliveira denuncia crimes cometidos contra mulheres e meninas | Foto: DR

Os ataques contra civis no leste da República Democrática do Congo (RDC) estão a aumentar, num conflito que se arrasta há décadas e que continua alimentado por rivalidades políticas, tensões étnicas e pela disputa pelo controlo dos vastos recursos minerais do país. A região, rica em ouro, diamantes e coltan – essencial para a produção de ‘smartphones’ e computadores – tornou-se um dos epicentros da atividade de grupos armados como o M23, as Forças Democráticas Aliadas (ADF), ligadas ao Estado Islâmico, e várias milícias locais.

Marcelo Oliveira, um padre português que pertence à congregação dos Missionários Combonianos e que vive há vários anos na RDC, afirma que as mulheres e as meninas estão entre as principais vítimas do conflito. “As mulheres são usadas para violências sexuais e mesmo para escravidão”, e há “crianças que nascem fruto das violações”, denunciou o religioso, numa mensagem enviada para a Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), em Lisboa. O sacerdote descreve uma “realidade triste, com pessoas que sofrem e com mulheres que são obrigadas a gerar crianças”. Segundo o missionário, as vítimas ficam com traumas para o resto das suas vidas. “Vão continuar a sofrer por falta de apoio e de atenção, e o silêncio é aquilo que reina”, lamenta.

Um relatório publicado no início de maio pela Amnistia Internacional, intitulado “Nunca tinha visto tantos
corpos”, confirma este cenário devastador. O trabalho de investigação indica que os ataques contra civis incluem raptos e trabalhos forçados, recrutamento e utilização de crianças, além de abusos e crimes adicionais contra mulheres e raparigas, como casamentos forçados e violência sexual.

“Os civis no leste da RDC têm sofrido uma brutalidade generalizada às mãos dos combatentes das ADF. Têm sido mortos, raptados e torturados numa campanha desumanizante de abusos”, disse Agnès Callamard, secretária-geral da Amnistia Internacional. “Os combatentes das ADF invadiram comunidades e quintas, atacaram instalações médicas e saquearam e incendiaram casas. A violência das ADF está a contribuir para uma crise humanitária crescente. Os ataques do grupo aumentaram as deslocações e perturbaram os serviços básicos, incluindo o acesso a alimentos, cuidados de saúde e educação”, acrescentou a responsável.

Segundo a Amnistia, a 8 de setembro de 2025, na aldeia de Ntoyo, “combatentes das ADF disfarçaram-se de civis e misturaram-se entre os enlutados que assistiam a um velório antes de atacarem repentinamente as pessoas”. “A onda de ataques – com martelos, machados, catanas e armas de fogo – deixou mais de 60 mortos, na ausência das forças de segurança.” Uma mulher que sobreviveu a um dos vários ataques relatados questionou: “O que fizemos para merecer estas coisas que nos estão a acontecer? Quanto mais teremos de sofrer até que isto acabe?”

Entrevistas realizadas pela Amnistia revelaram que as ADF concediam “esposas” – por várias vezes – aos combatentes como incentivo ao recrutamento, uma prática descrita como sistemática nos acampamentos do grupo. O trabalho de investigação conduzido pela organização de direitos humanos mostrou ainda que “as mulheres e meninas foram submetidas a longos períodos de violência sexual e física”.

O padre português recorda que este problema foi apresentado por Judith Suminwa Tuluka, primeira–ministra da RDC, na 70ª sessão da Comissão da Condição da Mulher das Nações Unidas, que decorreu em Nova Iorque, a 9 de março. Na sua intervenção, a responsável afirmou que a violência “infligida às mulheres não pode, de modo algum, ser banalizada ou colocada no invisível” e que é necessário “reconhecê-la e combatê-la de maneira determinante”. Apesar de ser um apelo lançado ao mundo a partir das “tribunas da ONU”, o missionário indica que “o silêncio” é o que fica depois. “O que se faz depois de tudo isto, não sei. Não sei qual é a posição da ONU em relação a todas estas realidades. O que se faz depois? Se calhar, pouco ou nada”, lamentou.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *