Chegada do Papa aos Camarões. Foto retirada do vídeo. © Vatican Media Live

“Bem-aventurados os pacificadores!”, exclamou Leão XIV no Encontro pela Paz que reuniu toda a comunidade local, composta por diferentes religiões, por francófonos e anglófonos e que decorreu na manhã de dia 16 na Catedral de São José, em Bamenda, no Oeste dos Camarões. Falando numa terra de violentos confrontos armados, o bispo de Roma sustentou: “O mundo está sendo devastado por um punhado de tiranos, mas permanece unido graças a uma multidão de irmãos e irmãs que se apoiam mutuamente!”

No segundo dia de visita aos Camarões, o Papa interveio em inglês num encontro pela paz em que também usaram da palavra um chefe tradicional Mankon (povo que doou o terreno em que a Catedral foi erguida), um pastor presbiteriano, um imã e uma freira católica. O conjunto destas intervenções permitiu destacar o movimento inter-religioso que procura pôr fim ao conflito regional e cuidar das suas muitas vítimas.

“Vós que tendes fome e sede de justiça, vós que sois pobres, misericordiosos, mansos e puros de coração, vós que chorastes, vós sois a luz do mundo!”, continuou Leão XIV ao elogiar o movimento pela paz. Falando contra a interferência da religião na propagação dos conflitos, o Papa foi, mais uma vez, muito severo: “Mas ai daqueles que manipulam a religião e o próprio nome de Deus para obter ganhos militares, econômicos e políticos, arrastando o que é sagrado para as trevas e para as profundezas mais obscuras!”

O Bispo de Roma pediu uma “mudança decisiva de rumo” que leve ao fim do conflito e da exploração da terra e do seu povo para depois referir “o ciclo de desestabilização e morte sem fim” desencadeado por “aqueles que saqueiam os recursos destas terras” e que “investem grande parte dos lucros em armas”. É “uma subversão da criação de Deus que toda a consciência honesta deve denunciar e repudiar”. Contra tal ciclo infernal há que desenvolver a fraternidade geradora de paz que “não é algo que se inventa”, pelo contrário, “é algo que se abraça, acolhendo o nosso próximo como irmãos e irmãs”. “Ninguém escolhe os seus irmãos e irmãs: temos simplesmente de nos acolher uns aos outros”, concluiu o Papa.

Enorme expectativa rodeava as palavras de Leão XIV neste Encontro Pela Paz do qual se espera possa nascer um forte impulso para o início de negociações que ponham termo à violência entre as guerrilhas separatistas anglófonas – os chamados “Amba Boys” – e as forças governamentais. Desde o início dos confrontos no Noroeste do país em 2016 estima-se que mais de 6.500 pessoas terão sido mortas e quase 700.000 viram-se obrigadas a abandonar as suas terras.

Este conflito desencadeado pela minoria de língua inglesa que se sente discriminada pela maioria de língua francesa que governa o país veio juntar-se aos ataques dos insurgentes das milícias muçulmanas Boko Haram que no extremo Norte dos Camarões já mataram mais de 3.000 pessoas e obrigaram 250.000 a fugir da região.

Oito milhões de católicos

Em Bamenda, disse Pina Uwimana, do movimento dos Focolares, à enviada da agência Vatican News, Francesca Sabatinelli, “refugiaram-se todos aqueles que fugiram das suas aldeias, pessoas que fugiram sem nada, que vieram morar aqui e que aqui não encontraram nada, pois na cidade muitas vezes falta a luz, falta a água, mas, acima de tudo, falta trabalho”.

À repórter da Vatican News Uwimana garantiu que o Papa foi esperado como alguém que veio “para rezar a fim de obter os dons da paz, da reconciliação, o dom da vida” e para “promover o diálogo”. Para ela, quase toda a gente em Bamenda segue uma fé e “a religião nunca é o ponto de rutura, mas é apenas uma questão de idioma”.

Precisamente na missa no aeroporto de Bamenda, o Papa denunciou que, além do ódio e da violência, há “ainda o mal causado pelo exterior, por aqueles que, em nome do lucro, continuam a pôr as mãos no continente africano para o explorar e saquear”.

Também a “corrupção moral, social e política, ligada sobretudo à gestão da riqueza” tem sido um obstáculo ao desenvolvimento, a par de “numerosas formas de pobreza”, uma “crise alimentar em curso”, a falta de acesso à educação e à saúde e a “grande migração para o estrangeiro, em particular dos jovens”.

Neste cenário, o Papa Leão pediu que os crentes sejam actores da mudança necessária: “Este é o momento para mudar, transformar a história deste país. Hoje, não amanhã; agora, não no futuro.” E acrescentou: “Chegou o momento de reconstruir, de recompor o mosaico da unidade, combinando as diversidades e as riquezas do país e do continente, de edificar uma sociedade onde reinem a paz e a reconciliação.”

Dois colonizadores (Reino Unido a Noroeste e França a Sul), duas grandes religiões (48% de cristãos e 30% muçulmanos, estes concentrados sobretudo no Norte do país), com os cristãos divididos entre 26 por cento católicos e 22 por cento protestantes uma elevada incidência da pobreza (40% da população) e uma população extremamente jovem (média de 18 anos), faz dos Camarões não apenas um lugar de grandes contrastes e conflitos, como também uma imagem perfeita do que é hoje a realidade de boa parte dos países africanos.

Neste país de 30 milhões de pessoas, a Igreja Católica é uma instituição de enorme relevo que reúne oito milhões de pessoas. São 34 bispos, 3.100 padres, 3,330 religiosas, 26.700 catequistas e 2.170 seminaristas que gerem quase 2.000 escolas com 400.000 alunos, 600 centros sociais, incluindo 44 hospitais.

O Papa é acompanhado na visita aos Camarões, e depois na que realizará à Guiné Equatorial, pelo núncio apostólico nestes dois países, o português José Avelino Bettencourt.

 Os desafios da Igreja Católica em África

O périplo africano do bispo de Roma continua amanhã com a deslocação a Douala, no Golfo da Guiné, uma das maiores aglomerações urbanas do país e considerada a capital comercial dos Camarões, onde celebrará missa no Japoma Stadium e visitará o Hospital Católico Saint Paul. De volta a Iaundé, encontra-se com académicos na Universidade Católica da África Central.

No sábado, 18 de abril, despede-se dos Camarões celebrando missa às 9h30 no Aeroporto de Iaundé-Ville, e parte para Angola, país que visita entre 18 e 21 de abril, dia em que voa para o último país desta viagem: a Guiné Equatorial, onde permanecerá entre 21 e 23 de abril, visitando Malabo, Mongomo e Bata.

África é atualmente o continente em que o catolicismo cresce mais depressa, um quinto (288 milhões) dos católicos de todo o mundo são africanos. Mas este forte crescimento não esconde profundas tensões. Quer dentro do catolicismo, quer com outras religiões e com os costumes culturais locais. A abertura do Papa Francisco aos homossexuais foi contestada por muitos dos bispos do continente que, de forma pública ou mais velada, apoiam a interdição da homossexualidade e a sua repressão policial que vigoram em vários países africanos. Formalmente, o Simpósio das Conferências Episcopais de África e Madagáscar declarou que estava fora de causa qualquer prática que se pudesse assemelhar a uma bênção das uniões de pessoas do mesmo sexo.

Apesar da importância dos leigos, e sobretudo das leigas, detêm na manutenção e expansão das atividades da Igreja e na animação vida eclesial, um forte clericalismo impera na esmagadora maioria das igrejas locais, movimentos e instituições católicas, com fraca adesão ao processo de sinodalização da igreja.

Outra questão que atravessa a Igreja Católica em África é a poligamia, anteriormente condenada como impedindo o acesso aos sacramentos, mas apresentada em documento recente elaborado pela mesma conferência episcopal [ver 7Margens] como tendo dado origem a várias práticas pastorais não baseadas na simples exigência do seu abandono para um homem se tornar católico.

Finalmente, em alguns países africanos a Igreja Católica vive uma enorme sensibilidade a ‘concorrência’ de congregações evangélicas e pentecostais muito conservadoras e bastante ancorados nos valores culturais tradicionais africanos. Daí provém uma resistência intrínseca a qualquer renovação que possa ser conotada como abertura a “valores e costumes ocidentais” vigentes nas antigas metrópoles coloniais.

Texto redigido por Jorge Wemans/jornal 7Margens, ao abrigo da parceria com a Fátima Missionária.

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