Ilustração: David Oliveira | Texto: Graça Alves

A vida inteira cabe num abraço. E não precisa de palavras. Os abraços seguram-se no silêncio, apoiados apenas pelo bater dos corações que acertam o passo. Penso ser essa a música do mundo, a que permite à vida aguentar-se, mesmo quando as mortes vão rondando a nossa esperança.
As palavras atrapalham nos abraços. Como as pancadinhas nas costas que distraem do mais importante: o estar assim, numa unidade perfeita com o coração do outro, aproximando o nosso silêncio do silêncio do outro, deixando o nosso silêncio falar no coração do outro.

É por isso que os abraços salvam e aquecem a alma de todos os frios, protegem-na da dor das lágrimas desnecessárias. Só um abraço de verdade é capaz de entregar o melhor de nós ao melhor do outro. Sem intermediários. De coração a coração. E os corações não mentem: ou amam, ou não; ou aceitam, ou não; ou perdoam, ou não.

Com abraços, agradecemos. Com abraços, perdoamos. Com abraços, chegamos à vida de alguém. Com abraços, nos despedimos. Com abraços, rimos e choramos. Com abraços, chegamos e partimos. Com abraços, somos para o outro. O abraço é a definição mais completa do “nós”.
Dentro dos abraços, a solidão não existe. Todos os espaços do coração ficam preenchidos, nesse ato de ter o outro nos braços e não há lugar para os vazios do mundo e das coisas de nada que nos ocupam tanta vida.

A verdade, porém, é que nem sempre é fácil caber no abraço do outro. Nem sempre os corações entendem a ciência do silêncio. Nem sempre é fácil o nosso coração aceitar a corda de outro coração. Essa aceitação é exigente, porque nela cabe a aceitação dos mistérios do amor. E os mistérios do amor implicam outras palavras para além de “eu”, ou de “meu”, ou de “mim”.

A sintaxe dos abraços é complexa. Mas bonita. E salva.
Os abraços salvam. É isso.
– Escreves sobre este abraço, Graça?
– Escrevo.
Promessa feita. Missão cumprida.

 

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