– Mamã, hoje tive o melhor dia de escola de sempre!
– Uau! Que aconteceu de tão especial?
– Sabes, mamã, que eu descobri como ajudar meninos que não podem estar com a sua família? Enquanto Mariana falava excitada, saltitava à volta da mãe com uma alegria que não lhe cabia dentro do peito. Pousou a mochila no chão e tirou um panfleto que entregou à mãe, enquanto continuava na sua explicação:
– Sabias, mamã, que há pessoas que estão doentes e que não conseguem cuidar dos meninos enquanto não se curam? Não gostavas que um desses meninos viesse para nossa casa? E depois quando a família dele estivesse curada, vinha outro. Assim, era como se nós fossemos um hotel do coração! Não era giro? Vê o que está aí escrito.
Luísa parou para mostrar a Mariana que a escutara atentamente, e para pôr termo àquele sonho infantil. Pegou no panfleto ilustrado que retratava uma criança a ser recebida de braços abertos por uma família.
Os olhitos de Mariana captavam fixamente a expressão da mãe, tentando adivinhar se ela desenhava
o mesmo sonho.
– Mariana, tu sabes que essas famílias que cuidam desses meninos são famílias especiais, não sabes? Não pode ser uma família qualquer!
– Eu sei mamã, chamam-se “Famílias de acolhimento”. A senhora que foi lá à escola explicou tudo. São como a nossa família. Tu e o papá dizem que somos uma família especial! E é verdade!
Mariana não desistiria por nada! Desde aquela explicação da senhora convidada pela professora, que não pensava noutra coisa. Explicava à mãe tudo o que aprendera, e como arquitetara o plano, bem ao modo de uma menina de sete anos. Pensou a organização do quarto, a partilha dos brinquedos, roupas, tudo…
– Não podemos deixar os meninos sozinhos enquanto os papás deles estão doentes, não é, mamã?
Em todo o percurso de escola para casa, Mariana falava sem parar, recheando o seu sonho com enredos e desejos de menina. A chegada do pai mereceu novo impulso no seu entusiasmo, tentando a sua melhor versão de contadora de histórias.
Mas, dos pais, Mariana obteve silêncio. Não mostraram entusiasmo. Talvez queiram conversar como fazem nas coisas importantes, pensa. Aguarda inquieta.
No dia seguinte Mariana queria uma resposta dos pais. E no seguinte, e no seguinte. O panfleto que recebera na escola estava exposto sobre a mesa-de–cabeceira, como troféu, à espera…
Luísa e Pedro não puderam evitar falar sobre o sonho de Mariana.
– E se nos atrevêssemos a aderir a este projeto? Como seria?
Foi assim que os três se debruçaram sobre o site assinalado no panfleto e levaram a sério o projeto de Mariana. A procura de esclarecimento, a reflexão sobre o que mudaria no dia a dia de todos, o significado do que seria receber em casa uma criança para ser cuidada e amada, trouxe a Luísa, a Pedro e a Mariana uma ligação e uma admiração mútuas muito para além do que conheciam e os unia.
A decisão chegou, por fim – Os pais estavam do seu lado!
Os abraços pareciam insuficientes para expressar a felicidade de Mariana, que teria um hotel no coração! Queria que fosse hotel, porque assim podia receber muitos meninos e meninas, mesmo que fosse um menino de cada vez. Ia poder abrir-lhes a casa, a família, mas sobretudo o coração.
– É como se viessem passar férias felizes connosco! – comentava com os pais. Luísa, Pedro e Mariana iniciaram nesse dia uma viagem que lhes encheu a vida com experiências e possibilidades que nunca tinham sonhado.
E em todo o tempo, Mariana crescia e aprendia a mestria no acolhimento, nunca deixando vagar o seu hotel
no coração, sempre aberto e pronto a ser oásis que energiza e liberta.








