Ilustração: David Oliveira | Texto: Teresa Carvalho

Aida desejava, rezava e idealizava a chegada do pai com tanta esperança, que tudo o resto era irrelevante.
Era o sonho de o abraçar e de ser abraçada por ele, a fantasia daquilo que conversariam, o orgulho de chegar a qualquer lugar ao lado do pai, ou até, quem sabe, apoiada no braço do pai.

– De certeza que nunca mais nos vamos separar – dizia Aida em frente do espelho a fazer de conta que era a voz do pai e não apenas o seu coraçãozinho de adolescente a forçar a realização do seu desejo.

Num país bem distante, também Bruno sonhava. A história de Bruno era pintada de escuro. Procurou uma realidade melhor noutro país, mas, também aí, sozinho, nada lhe foi fácil. Teve notícias que a filha, que não via há sete anos, precisava e desejava o regresso do pai, única alternativa a um acolhimento em instituição. Bruno não teve dúvidas: era tempo de regressar.

Bruno chegou ao aeroporto. Não tinha Aida à espera. Nem irmãos, nem pais, nem amigos, nem ninguém. Vinha de surpresa e queria começar de novo. Tem Aida como prioridade. Faz questão de compensar os muitos anos que não pôde conviver com a filha, mesmo reconhecendo que não sabe nada sobre como educar uma adolescente, para além de que não tem meios próprios para a sustentar. Precisa rapidamente de conseguir trabalho.

O pequeno espaço que conseguiu arrendar, não correspondia ao seu desejo, mas possibilitava a sonhada experiência de ser pai e respondia à urgência de Aida ter uma família. Foi assim que pai e filha puderam iniciar um percurso conjunto, partilhando a vida, e encontrando a realidade um do outro.

No primeiro mês de trabalho, Bruno conseguiu apenas o suficiente para as despesas diárias. Não conseguiu pagar a renda. Se não conseguisse resolver a situação, teria uma ação de despejo, conforme indicação do senhor Manuel, proprietário do pequeno estúdio. Não aceitaria atrasos.

Aida apercebeu-se da aflição do pai. Uma coisa ela sabia: nada a afastaria deste homem a quem amava desde sempre. Procurou uma amiga que sabia que a poderia ajudar e contactou com a técnica do serviço que a acompanhava a pedir o apoio de que necessitavam. Na semana seguinte, Bruno e Aida estavam num apartamento a sério, com a renda paga, com um apoio que lhes permitia viver sem ansiedade até que o pai recebesse o vencimento que lhes permitiria continuar juntos.

Debruçados sobre a janela, lado a lado, pai e filha viam o entardecer daquele sábado, olhando na mesma direção do sol a escorregar no horizonte com a promessa de um novo amanhecer. Desta janela, pai e filha podem agora olhar o hoje e o amanhã, aconchegados no amor que tanto precisavam descobrir e aprender, sentindo o abraço caloroso que aconchega bem mais do que o melhor sonho de Aida.

Quem passa na rua, vê uma luz pisca-pisca a bailar na janela. É a primeira árvore de Natal de Aida e de Bruno. E sentem-na como um presente do Menino que há muitos, muitos anos, não teve lugar na hospedaria! Olhando a estrela reluzente que substitui o sol posto, Aida e Bruno agradecem ao Menino e a quem trouxe até eles o seu presente amoroso!