Depois da Ucrânia ter sido invadida pela Rússia, a 24 de fevereiro de 2022, o padre Luca, que estava em missão na Polónia, visitou o território ucraniano dezenas de vezes. Em que contexto surgiram essas viagens?
Quando a guerra eclodiu, milhões de pessoas foram forçadas a fugir. Muitas delas entraram na Polónia, onde encontraram um acolhimento caloroso. Também nós, Missionários da Consolata, oferecemos os nossos serviços. Após o fim da crise de refugiados na Polónia, as notícias vindas da Ucrânia continuavam preocupantes. O conflito intensificava-se por todo o país, dificultando a vida daqueles que lá permaneciam. Certo dia, recebi um convite para viajar até à Ucrânia vindo do padre polaco Leszek Kryza, que é diretor de um gabinete de ajuda humanitária para os países da antiga União Soviética – que inclui a Ucrânia – da Conferência Episcopal Polaca. Essa viagem foi a primeira de muitas. Mensalmente, começámos a distribuir ajuda por todo o país, viajando, principalmente, ao longo das linhas de frente da guerra. Isso continuou ininterruptamente por três anos. Essa ajuda foi possível graças a uma rede de solidariedade que continua ativa até hoje. Entre esses benfeitores, há portugueses.
Que realidade revelaram essas deslocações?
As viagens permitiram-me distribuir ajuda, conhecer o país e as histórias de tantas pessoas. A ajuda material é sempre necessária, ainda mais hoje. Em 2024, falou-se de uma queda de 60 por cento na ajuda recebida em comparação com o início do conflito. A população mais próxima da Rússia é a que mais sofre. Os combates diários, cada vez mais intensos, impedem a vida normal. Nesses lugares, sem a ajuda de organizações humanitárias ou da própria Igreja, seria impossível sobreviver muito tempo. Um dos problemas é a grande quantidade de refugiados que deixam as suas casas na parte leste do país para se deslocarem para lugares, aparentemente, mais seguros. A capital, Kiev, registou a chegada de aproximadamente 500 mil cidadãos vindos da frente de batalha. Conseguimos distribuir alimentos, medicamentos, cobertores, fogões para o inverno e geradores elétricos num país onde o fornecimento de energia elétrica depende exclusivamente deles. Graças à generosidade de benfeitores, podemos aliviar tanto sofrimento. Como sacerdote, vi-me muitas vezes a rezar pela paz, a participar em inúmeros funerais, a consolar aqueles que perderam um ou mais entes queridos e a celebrar missa com os fiéis sob o lançamento de mísseis ou drones.
O padre Luca é o diretor nacional das recém-criadas Obras Missionárias Pontifícias (OMP) na Ucrânia. Esperava esta nomeação?
O serviço inesperado que iniciei este ano – estabelecer a primeira liderança nacional das OMP na Ucrânia – tem as suas raízes, em parte, no meu serviço anterior. Trabalhei durante muitos anos na liderança nacional das OMP na Polónia, como secretário nacional. Certo dia, os responsáveis pelo Dicastério para a Evangelização, ao qual as OMP estão vinculadas, disseram: “Ainda não estamos presentes na Ucrânia, mas devíamos estar.” A partir daí, iniciou-se um processo que culminou na minha nomeação como diretor nacional, a 25 de março de 2025.

Padre Luca Bovio foi recebido pelo Papa Leão XIV em Roma | Foto: DR
Como foi o momento em que se encontrou com o Papa?
A eleição de Leão XIV ocorreu poucos dias antes da assembleia geral dos diretores das OMP polacas, que acontece todos os anos, em maio. Fomos um dos primeiros grupos a ter a honra de ser recebidos pelo novo Papa. Apertando a sua mão, apresentei-me, agradeci-lhe pelas suas orações e o seu compromisso com a paz, e disse: “Esperamos encontrar-nos um dia em Kiev.” Ele sorriu, olhou para o céu e apertou-me a mão firmemente.
Como surgiu a ideia de levar uma relíquia de São José Allamano para a Ucrânia?
Visitei a co-catedral da diocese de Kharkiv-Zaporíjia muitas vezes e, durante a missa matinal, reparei que o bispo auxiliar, Jan Sobilo, fazia uma pausa diária em oração diante de numerosas relíquias de santos guardadas numa capela lateral. Como o fundador dos Missionários e Missionárias da Consolata foi canonizado recentemente, achei significativo trazê-lo a este santuário. Assim, no último verão, os Missionários da Consolata doaram uma relíquia à comunidade local, que a acolheu com alegria e fé. A partir deste santuário, os fiéis rezam a Deus com fé todos os dias, enquanto os soldados russos estão a apenas 15 quilómetros da cidade.
Como é viver num país em guerra?
A maioria dos residentes consegue desenvolver uma certa capacidade de coexistência com a guerra; digamos que desenvolvem uma forma de resiliência que lhes permite seguir em frente mesmo depois de quase quatro anos. As sirenes soam com bastante frequência, às vezes todos os dias. Elas são ativadas automaticamente quando uma ameaça aérea é detetada. Basta um avião militar russo levantar voo para que o sistema seja acionado. Felizmente, nem todos os alarmes são seguidos de explosões. No entanto, os procedimentos exigem que os alunos se dirijam a abrigos subterrâneos e que os visitantes de centros comerciais se retirem. Os canais do Telegram funcionam bem e conseguem reportar um possível ataque com algumas horas de antecedência, dando aos cidadãos tempo para se abrigarem em refúgios ou estações de metro. Os ataques ocorrem normalmente durante a noite e o seu número está a aumentar, tanto em intensidade como na quantidade de drones e mísseis utilizados. Recentemente, mais de 400 drones e dezenas de mísseis balísticos foram detetados numa única noite. Durante esses ataques, é importante que as pessoas se afastem de móveis e janelas e se abriguem em locais fechados. A onda de choque das explosões pode atingir as janelas e estilhaçá-las, algo extremamente perigoso. Passamos as noites de explosões deitados em colchões no chão, longe das janelas. Em 2025, as centrais eléctricas foram gravemente afetadas, deixando todo o país às escuras. A energia só é garantida por geradores.
A solidariedade é evidente num país em conflito?
A diminuição da ajuda humanitária é significativa, devido a escolhas políticas e à duração do conflito, que está a provocar a exaustão na população. As organizações humanitárias continuam a prestar auxílio, especialmente aos mais afetados pelo conflito. A assistência imediata e essencial – como alimentos, medicamentos e produtos de higiene pessoal – ainda é necessária, principalmente em cidades e povoações próximas da linha de frente. Durante o inverno, os geradores são muito importantes devido à falta crónica de energia causada pelos recentes bombardeamentos a centrais elétricas. Há quase dois meses, em Kiev, a eletricidade tem estado disponível para os residentes apenas durante três a quatro horas por dia; a restante é fornecida por geradores para aqueles que os podem comprar. Em Itália, grupos de voluntários colaboram connosco, garantindo entregas mensais de alimentos e medicamentos. Essa ajuda é uma pequena gota que sacia as necessidades das pessoas.
Acredita que esteja para breve o fim da guerra?
A esperança de que o conflito termine é o que nos motiva a continuar a trabalhar. Pessoalmente, não vejo grande hipótese de isso acontecer tão cedo. Tenho a impressão de que o conflito não se resume apenas à ocupação ou defesa de uma porção de território, mas, fundamentalmente, à anexação política de um país: a Ucrânia como país satélite da Rússia, ou a Ucrânia como país livre e democrático. Creio que este é o problema subjacente do conflito, no contexto de um novo equilíbrio de poder global que se está a formar, desencadeado pela guerra na Ucrânia. Ao mesmo tempo, o problema da corrupção no país não deve ser subestimado. As notícias sobre as suspeitas de corrupção que envolvem a Ministra da Energia da Ucrânia [Svitlana Hrinchuk] – um setor fragilizado pelos bombardeamentos – têm sido dolorosas nas últimas semanas. O povo ucraniano sofre por causa da guerra, mas também por causa da fragilidade de alguns dos seus políticos. É surpreendente e admirável ver as pessoas, todas as manhãs, após mais uma noite de terror, regressarem ao seu quotidiano. As equipas de socorro isolam rapidamente os edifícios afetados, e a restante população retoma as suas atividades, uns indo para o trabalho, outros para a escola. Os transportes públicos funcionam, assim como as lojas, e o ruído dos geradores elétricos pode ser ouvido em todo o lado. Esta coragem de retomar todos os dias um ritmo de vida normal é o que permite às pessoas resistir durante muito tempo a um conflito tão brutal e devastador, que causa cada vez mais sofrimento aos civis.








